A velocidade da ciência

Por James Morris

“Transmitido por mosquitos, o Zika vírus deve se disseminar rapidamente até mesmo para os Estados Unidos.” No dia em que esta frase foi escrita, era correta. No dia seguinte já não era mais.

Há tempos o Zika vírus já era conhecido, desde que foi isolado em 1947 na floresta de Zika, em Uganda, que deu origem ao nome do vírus. Frequentemente, a infecção pelo vírus é assintomática (ou seja, não causa sintoma algum e a vítima nem sabe que está infectada). Algumas vezes o vírus causa febre, erupção cutânea, olhos vermelhos e dor nas articulações.

O Zika está recebendo mais atenção por dois motivos: em primeiro lugar, propaga-se rapidamente no mundo todo. Chegou ao Brasil, de onde se propagou para outras partes da América do Sul, depois para a América Central e Caribe. Em segundo lugar, há uma ligação entre a infecção com o vírus durante a gravidez e certos defeitos congênitos, sendo a microcefalia o mais devastador.

A frase que inicia este texto foi escrita no dia 2 de fevereiro de 2016 como parte de um livro escolar de introdução à biologia. Algumas vezes, os livros escolares são criticados por ficarem desatualizados assim que são publicados. Felizmente, como muito material didático agora pode ser encontrado online, muitos autores de livros escolares, incluindo meus coautores e eu conseguimos mantê-lo atual.

No dia 3 de fevereiro de 2016, a, CNN noticiou o primeiro caso de transmissão do vírus por via sexual no Texas, o que demonstra que a transmissão não se dá apenas através de mosquitos. E já não se espera que o Zika vírus se propague nos EUA.  Ele está nos EUA.

Sendo assim, a frase já não é mais válida. Eu precisei mudá-la para: “Transmitido por mosquitos, bem como por via sexual, o Zika vírus foi encontrado nos EUA e deve se propagar rapidamente para grande parte da América do Norte.”

Essa experiência me lembrou de como, certas vezes, a ciência progride depressa. Esse ritmo rápido é bem conhecido de qualquer pessoa que tente acompanhar alguma área da ciência. Agora, é quase impossível manter-se atualizado com a literatura de pesquisa, já que todos os dias surgem novos artigos, até mesmo a cada hora. Como resultado, a quantidade de informações científicas é realmente impressionante.

Parte desse ritmo é real. Mas algumas pessoas têm questionado  se a ciência realmente está progredindo tão depressa como parece. E, como muitos autores salientaram, a enxurrada de artigos é, em parte, o resultado de um sistema que recompensa o número de artigos (mais do que a qualidade dos artigos) em decisões sobre promoções, subvenções e bolsas.

No entanto, contra esse pano de fundo, há outra maneira de enxergar o ritmo da mudança na ciência: há também a sensação que a ciência se move num passo mais comedido, até lento.

O livro escolar no qual estou trabalhando também oferece um exemplo nesse sentido. Meus coautores e eu recentemente publicamos a segunda edição. A pergunta que geralmente ouço de famílias e amigos sobre a nova edição é: “A ciência realmente mudou tanto em apenas três anos?”.

A resposta é negativa. Há alguns avanços, como o CRISPR (Clustered regularly interspaced short palindromic repeats ou Repetições palindrômicas curtas agrupadas e regularmente interespaçadas), que nós acrescentamos ao livro. O CRISPR é uma poderosa ferramenta de edição de genes que está revolucionando a pesquisa, tendo importantes aplicações na medicina.

Em outros campos, a excitante e recente descoberta das ondas gravitacionais, previstas por Einstein no início do século XX, com certeza será incluída nos livros escolares introdutórios sobre física.

Embora algumas das mudanças, de edição para edição, certamente estejam relacionadas ao conteúdo da ciência, uma grande parte se refere à pedagogia – novas atividades que podem ser usadas para promover aprendizado ativo em sala de aula, perguntas adicionais para que os alunos pratiquem o que aprendem, explicações que sejam mais claras, feedback útil dos instrutores e alunos e assim por diante.

Assim, embora a cada dia surjam novos artigos, essas descobertas não mudam fundamentalmente o conteúdo de um livro escolar de introdução à ciência. Nesse sentido a ciência tende a se mover lentamente. Observando livros escolares durante um período mais longo, realmente observamos mudanças importantes. Uma das mais óbvias é o surgimento do campo da genômica, em que os cientistas sequenciam e anotam todo o DNA (o genoma) de muitos organismos diferentes, incluindo humanos. Esse material não é apenas incluído; cada vez mais, está sendo usado como quadro para organizar as seções sobre informações genéticas em células e organismos.

No entanto, mesmo no campo da genômica, que se move rápido, às vezes ficamos frustrados por seu ritmo lento. A sequência completa do genoma humano foi publicada em 2003. Custou aproximadamente um bilhão de dólares e levou 13 anos para ser concluída. Hoje em dia podemos sequenciar genomas inteiros por algumas poucas centenas de dólares em um dia ou dois.

E, entretanto, apesar dos rápidos avanços nas tecnologias de sequenciamento e de tudo que aprendemos sobre genomas com esses notáveis esforços, ainda estamos longe de colher os benefícios. Ainda temos apenas vislumbres de uma compreensão de quais genes contribuem para traços em comum, como a altura humana, e doenças comuns como hipertensão ou como usar essa compreensão para conceber tratamentos mais eficientes.

O câncer fornece outro exemplo sobre o progresso lento da ciência. Em 1971, há 45 anos, Richard Nixon declarou a “guerra contra o câncer”. Hoje, estamos longe de vencer tal guerra. É lógico que fizemos um tremendo progresso, especialmente em relação a alguns tipos de câncer infantil, mas a natureza proteica da doença continua resistindo a soluções rápidas e fáceis. Assim, em 2015, declaramos outra guerra conta o câncer, desta vez liderada pelo vice-presidente [americano] Joe Biden.

Ole Frobert, citado no jornal The New York Times em um artigo sobre como o estudo de ursos em hibernação poderia um dia ajudar a resolver problemas humanos, disse: “De certo modo, a pesquisa médica está em crise porque fazemos muita pesquisa e publicamos muitos artigos, mas há pouquíssimos avanços”.

Como podemos reconciliar o ritmo lento e o ritmo rápido da ciência? Uma forma é enxergar o conhecimento científico como um tipo de alicerce firme com muita atividade e processo nas bordas. Esses avanços são importantes, mas não abalam a fundação. Só ocasionalmente a nossa compreensão muda de forma sísmica – as revoluções introduzidas por Copérnico, Darwin e Einstein me vêm à mente.

É isso que Thomas Kuhn, em seu livro A estrutura das revoluções científicas, descreveu como uma “mudança de paradigma”. Os cientistas tendem a trabalhar em uma certa visão do mundo, ou paradigma, fazendo progresso, acrescentando conhecimento, mas ficam limitados (ou, considerando-se de outro modo, capacitados) pelo âmbito em que trabalham.  De vez em quando, há uma mudança de grande porte, permitindo aos cientistas verem o mundo de uma nova maneira  e, então, começam a fazer perguntas que nem mesmo consideravam antes.

Ou, como escreveu Carlo Rovelli, em seu livro Seven brief lessons on physics, escreve: “Não somente aprendemos, mas também aprendemos a mudar gradualmente nossa estrutura conceitual e adaptá-la ao que aprendemos”.

Essa marcha firme e lenta da ciência, marcada por mudanças, embora às vezes dolorosas, pode ser saudável – permite que os cientistas tenham tempo de replicar os resultados, questionar as descobertas e responder às mesmas questões usando métodos ou técnicas diferentes.

Em outras palavras, torna mais provável que, ao fim, tudo dará certo e, portanto, teremos uma visão mais completa, mais exata e bela do mundo.

James R. Morris, doutor em genética pela Universidade Harvard, é professor de biologia da Universidade Brandeis. Recebeu diversos prêmios de excelência docente de Brandeis e Harvard. Escreve sobre ciência, medicina e docência em seu blog Science Whys (http://blogs.brandeis.edu/sciencewhys). Este texto foi publicado em no dia 23 de julho de 2016. Tradução para o português de Amin Simaika.