As portas da percepção – Aldous Huxley

Por Cecilia Café-Mendes

O livro nos convida a refletir sobre como o mundo nos permite uma infinidade de interpretações. E que nós temos essa capacidade infinita dentro de nós. Entretanto, por mais que desejemos, nunca, de fato, veremos o mundo pelos olhos dos outros.

“Sensações, sentimentos, insights, fantasias – tudo isso são coisas privadas e, a não ser através de símbolos, e indiretamente, não podem ser transmitidas. (…) Da família à nação, cada grupo humano é uma sociedade de universos insulares”.

Aldous Huxley

A percepção é um processo ativo e em constante construção, advinda das nossas experiências. Ela depende tanto do objeto a ser observado quanto do observador. O modo como observamos o mundo é contaminado pelo nosso conhecimento prévio, pelo nosso aprendizado. Entendemos a realidade como uma consequência da percepção mas, uma vez que esse sentido está imbuído de multiplicidades culturais, sociais, éticas, não podemos definir o que seria realidade absoluta. Cada um, de fato, tem a sua.

Aldous Huxley em seu livro As portas da percepção relata a sua experiência sob a influência de uma droga muito comum nas décadas de 1940 e 1960, a mescalina. Huxley, conhecidamente um entusiasta de experiências místicas, busca na mescalina uma forma de entrar em contato com esse universo. Já tendo se utilizado de terapias alternativas para atender os seus anseios transcendentais, ao chegar aos EUA, no final da década de 1930, fica sabendo do uso do cacto peiote em cerimônias da Igreja Nativa americana, no Novo México. A mescalina, um alucinógeno, é a principal substância encontrada nesse cacto.

Nesse curto porém denso ensaio, Huxley baseia-se em teorias de estudiosos como as do filósofo Charlie Dunbar Broad e problematiza sua experiência sob a ação da mescalina. Para eles, o cérebro é uma grande válvula reguladora. Nossos sentidos são bombardeados por informações a todo instante e, para nos proteger desse grande aporte de dados, o sistema nervoso elimina tudo aquilo que for inútil em determinada situação. Assim, temos tanto memória quanto sensações seletivas.

Em uma narrativa fluida, Huxley descreve a sua visão de mundo após interferir nessa seletividade a qual o cérebro em seu estado basal está acostumado a funcionar. Apesar de sua inicial decepção com as sensações – ele achava que teria visões e alucinações semelhantes ao estado de um esquizofrênico – ele percebe que passa a dedicar mais tempo da sua atenção a detalhes que antes lhe passariam despercebidos, como, por exemplo, o contorno de um vaso, a cor das pétalas de flores e o incômodo que, de certa forma, aquela combinação lhe causava. Entretanto, nada disso era mais importante para ele do que a reflexão que essa observação lhe causou: o milagre da existência, sem julgamentos. As coisas apenas existem e são importantes na sua efemeridade.

Ele propõe que o uso da mescalina é capaz de quebrar as barreiras do ego e levar o indivíduo mais próximo da iluminação espiritual. Em diversos trechos de seu discurso sugere, inclusive, que todos deveriam se permitir essa experiência.

No discorrer sobre as divagações, o autor entremeia suas impressões e relatos com famosas obras de arte, sinfonias e livros e acaba se sentindo mais próximo aos artistas nesses momentos. Como se ele fosse capaz de melhor compreender a profundidade de suas obras. E isso o surpreende, uma vez que ele se descreve como uma pessoa “pouco dada a devaneios” e com uma sensibilidade limitada às palavras dos poetas. Em sua análise subjetiva, a arte depende e é consequência desse desprendimento entre o mundo interno e externo. A arte é compreendida em sua plenitude quando abrimos a nossa mente, ou seja, quando ampliamos o fluxo de informação dos nossos sentidos.

“Por fim, deparei com um quadro menos conhecido e não muito bom: Judite. Minha atenção foi despertada e eu me quedei embevecido, não pela pálida e neurótica heroína ou por sua serva; (…) mas ante a púrpura seda do corpete pregueado e das longas saias que o vento ondulava. Era algo que eu já havia visto, (…) Essas dobras de minhas calças – que labirinto de infinita complexidade simbólica! (…) E lá estava isso tudo, de novo, no quadro de Botticelli!”.

As portas da percepção nos convida a refletir sobre como o mundo nos permite uma infinidade de interpretações. E que nós temos essa capacidade infinita dentro de nós. Entretanto, por mais que desejemos, nunca, de fato, veremos o mundo pelos olhos dos outros. A relação externo-interno de um indivíduo pode ser simbolizada para outro, mas nunca vivida. É uma leitura dinâmica e envolvente sobre as belezas que, por vezes, nos escapam à percepção.

As portas da percepção
Aldous Huxley
Primeira publicação: 1954

Cecilia Café-Mendes é bióloga pela Universidade de Brasília (UnB) e atualmente pós-doutoranda na área de neurofisiologia no Departamento de Fisiologia e Biofísica do Instituto de Ciências Biomédicas da USP.