Arquivo da categoria: artigo

Sobre as práticas colaborativas entre arqueólogos e povos indígenas

Por Fabíola Andréa Silva

Crescem a cada dia os conflitos nas terras indígenas e áreas de entorno. Testemunhamos a violência da grilagem nessas terras, o crescimento ilegal da exploração de madeira e garimpo nas mesmas e o avanço desenfreado do agronegócio para dentro de seus limites. Neste cenário, o ataque ao meio ambiente é notório, e este se torna ainda mais evidente quando se considera os grandes  empreendimentos hidrelétricos e a mineração em grande escala; ambos levados a cabo, especialmente, nas proximidades das terras indígenas e das áreas de proteção ambiental. Continue lendo Sobre as práticas colaborativas entre arqueólogos e povos indígenas

Os jogos tradicionais e a representação midiática indígena

Por Marina Gomes

O tratamento midiático de assuntos relacionados às temáticas indígenas toma vieses bastante questionáveis, especialmente quando se observam os veículos de maior circulação nacional. Se delimitarmos temas polêmicos como a construção da usina de Belo Monte, na bacia do Xingu, ou a recente tentativa de abrir – de maneira discutível – a Reserva Nacional de Cobre e Associados (Renca) para exploração de mineradoras, esses expedientes são facilmente identificáveis. Continue lendo Os jogos tradicionais e a representação midiática indígena

A violência de Estado nas periferias: genocídio físico, material e cultural

Por Tulio Custódio

Quando opera com sua força policial nas periferias, o Estado opera dentro da lógica da moralização da pobreza: o processo de violência e controle sobre os Ninguéns responde à premissa de que falharam, logo devem ser contidos ou eliminados. Mas a violência do Estado, nesse contexto, não é apenas das armas. Assim como o capital, em um processo incessante de busca e acumulação, o genocídio torna-se estratégia normativa permanente de condução de vida dos ‘niggerizados’, incessante na brutalização, na precarização e no silenciamento das culturas negras. Continue lendo A violência de Estado nas periferias: genocídio físico, material e cultural

A violência econômica: o poder dos juros e das corporações financeiras

Por Ladislau Dowbor

É estranho constatar que em todo o ciclo escolar, inclusive nas universidades, a não ser na área especializada em economia financeira, ninguém nunca teve uma aula sobre como funciona o dinheiro, principal força estruturante da nossa sociedade. A população se endivida muito para comprar pouco no volume final. A prestação ‘cabe no bolso’ (mas pesa no bolso durante muito tempo). O efeito demanda é travado. Quando 61 milhões de adultos no Brasil estão com o nome sujo no sistema de crédito, é o sistema que está deformado. Continue lendo A violência econômica: o poder dos juros e das corporações financeiras

Neonazismos – ódio e sentido

Por Adriana Dias

O ódio construído sobre três elementos – crença numa supremacia “natural” – se o branco não vence é porque foi sabotado; a criação de um “Outro conveniente” para assumir a culpa pelo próprio fracasso; e culto da masculinidade – desaloja qualquer possibilidade de diálogo. Há apenas paranoia: o povo branco vive em diáspora, visto que seus inimigos tomaram seu lugar para produzir seu genocídio. É uma resolução da incerteza pela violência. Continue lendo Neonazismos – ódio e sentido

Neonazismo no Brasil: uma leitura e algumas hipóteses

Por Odilon Caldeira Neto

Seja pela facilidade de colaboração e circulação de conteúdo em dimensão global, a internet é, atualmente, a principal plataforma para formação e disseminação de materiais e atividades neonazistas. É preciso ressaltar que a imaterialidade do virtual não implica inexistência no real, do mesmo modo que a intensidade do virtual não implica necessariamente massificação nas ruas. Ainda assim, a circulação dessas ideias impacta o real de diversas maneiras, seja pelas múltiplas dimensões da violência desses discursos de ódio, seja pela possibilidade de articulação em momentos de crise. Continue lendo Neonazismo no Brasil: uma leitura e algumas hipóteses

A mortalidade feminina por feminicídios

Por Jackeline Romio

Diante do desafio de averiguar estatisticamente os feminicídios, propõe que sejam tratados como sendo as mortes de mulheres registradas pelo sistema público de saúde brasileiro que evidenciam algum sinal sobre a condição de opressão. Ou seja, ligados à violência sexual, ao espaço domiciliar e familiar, à reprodução e sexualidade.  Continue lendo A mortalidade feminina por feminicídios

Controle social e gestão da violência: decisões sobre a vida ou a morte

Por Caren Ruotti

Com a consolidação do PCC (marcado por disputas externas e internas), há progressivamente a instauração de um novo equilíbrio de poder. Esse processo teve como consequência alterações nas formas de gerir as condutas da população carcerária, notadamente pela instituição de um ordenamento específico, com interdições, previsão de punições, mecanismos de diferenciações e exclusões entre os presos.

Observa-se paulatinamente um deslocamento nos mecanismos de resolução de conflitos, não mais instituídos de maneira individualizada ou localizada em decisões pessoalizadas do PCC, mas estabelecida de modo coletivo. Assim, a resolução dos litígios transforma-se em prerrogativa dos membros da organização através do funcionamento dos “debates” ou “tribunais do crime”. Tudo isso gestado às margens do Estado, que tem transferido aos próprios presos a função de gerenciar o cotidiano prisional. Continue lendo Controle social e gestão da violência: decisões sobre a vida ou a morte

Um conto e duas cidades: nazismo à moda do nosso século

Por Ana Carolina Rigoni Carmo e Danillo Avellar Bragança

“Foi a época da fé, foi a época da incredulidade, foi a estação da luz, foi a estação das trevas, a primavera da esperança, o inverno do desespero, tínhamos tudo diante de nós, tínhamos nada diante de nós.”

Charles Dickens Continue lendo Um conto e duas cidades: nazismo à moda do nosso século

A ciência é mais do que a soma de seus indicadores

Por Peter Schulz

No início dos anos 1990 e da minha carreira docente, costumava ir à biblioteca do Instituto de Física da Unicamp todos os dias, por necessidade ou por ritual. Na sala de referências encontravam-se as revistas mais recentes, que chegavam, quando tínhamos sorte, com apenas alguns meses de atraso em relação às bibliotecas no hemisfério norte. Na mesma sala eram guardadas (ainda são) as edições anuais do Science Citation Index do Institute for Scientific Information (ISI): uma base de dados bibliográficos em milhares de folhas de papel com letras minúsculas. Continue lendo A ciência é mais do que a soma de seus indicadores