O estudo da Unimep também tratou sobre o ciclo de
atividades repetitivas do cortador. Em média ele precisa de 5,6
segundos para abraçar um feixe com cinco a dez varas de cana, puxar ou
balançar, flexionar a coluna, cortar o feixe rente ao solo, jogar a
cana em montes e progredir. “Estudos ergonômicos mostram que qualquer
atividade laboral com ciclo de repetição inferior a 30 segundos possui
grande risco de surgimento lesões”, afirma o pesquisador.
O sol é outro fator preocupante. Na medição feita em
maio - que é um mês de temperatura agradável - o termômetro marcou a
temperatura máxima de 27,40 graus Celsius no canavial. A média ficou em
26 graus. De acordo com a Norma Regulamentadora (NR) 15 do Ministério
do Trabalho e Emprego, toda atividade laboral pesada realizada em
lugares com temperatura ambiente entre 26 e 28 graus Celsius precisam
de pausas de 30 minutos para cada 30 minutos de trabalho. Essa NR não é
cumprida nos canaviais paulistas.
Laat comenta que, em sua pesquisa de campo, percebeu
que a empresa contratante até indicava alguns momentos de pausa no
trabalho através do som da buzina de um ônibus. No entanto, como não
havia fiscalização sobre o cumprimento desta pausa, praticamente nenhum
cortador largava seu facão para descansar, já que a pausa pode
significar perda de produção e, portanto, de dinheiro.
Para a maioria dos procuradores presentes ao seminário
de Campinas esse é o motivo dos trabalhadores suportarem tão duras
condições de trabalho. O piso salarial da categoria é de
aproximadamente 500 reais. Entretanto, como o pagamento varia de acordo
com a produção individual, um bom cortador - um campeão como é chamado
na lavoura - pode chegar a rendimentos mensais de 1200 a 1500 reais.
Para a grande maioria da massa trabalhadora do setor,
formada principalmente por migrantes do Nordeste e Norte, tal valor é
muito mais do que ganhariam em suas regiões natais. A extenuante
jornada de trabalho é tolerada por homens que querem, a todo custo,
garantir a sobrevivência de suas famílias. “Tem a questão emblemática
também. Por exemplo, um cortador migrante que compra uma moto ao fim da
safra de cana é visto como herói pelos mais jovens da sua região”,
completa Laat.
Morte no trabalho
Entretanto, a luta frenética pela subsistência faz com que os
cortadores não levem em consideração fatos como a morte de
companheiros. Segundo a Pastoral do Migrante de Guariba, 20
trabalhadores rurais do setor sucroalcooleiro morreram de 2004 até
agora. Os poucos que possuem o motivo da morte registrado no atestado
de óbito apontam, principalmente, morte por parada cardiorrespiratória.
Vários estudiosos e sindicalistas do setor dizem não haver dúvidas que
essas mortes sofrem forte influência da rotina de trabalho mensurada
agora pela equipe da Unimep.
O resultado final deste trabalho final será apresentado
em 2009 e abordará outras questões como a poeira da queima da cana
inalada pelos cortadores, a massa corpórea ganha ou perdida no decorrer
da safra e a comida ingerida por esses trabalhadores. Os pesquisadores
querem traçar um paralelo entre os dados quantitativos coletados e a
qualidade de vida dos trabalhadores. Atualmente, um cortador de cana
consegue trabalhar, em média, até os 35 anos, afirma Laat.
Um dos objetivos dessa pesquisa, de acordo com os seus
idealizadores, é fornecer ao judiciário material científico crível que
contribua com o julgamento de ações trabalhistas ou civis públicas
referentes ao tema. Dessa maneira, eles acreditam que se pode caminhar
na direção de um futuro laboral mais humano para aqueles que ajudam a
garantir a energia do país.