Educação deveria usufruir de tecnologias para incentivar crítica
Por Enio Rodrigo Barbosa
12/09/2008
Trocar mensagens, músicas, comunicar-se via mensagens de
texto, “blogar”, procurar assuntos de interesse na internet, assistir TV, tudo
ao mesmo tempo. Esse é o perfil do que é chamado por alguns profissionais de
“crianças multitarefa” que, cada vez mais cedo, tem contato com as novas
tecnologias. Nesse cenário, defende Simone Bortoliero da Universidade Federal
da Bahia (UFBA), torna-se fundamental “aproximar os meios de comunicação da
escola. Ler a televisão e os meios de comunicação de uma forma crítica”.
Conhecida entre os especialistas como educomunicação – proposta
do especialista em comunicação educativa Mário Kaplún – essa área tem como
objetivo aproximar as novas gerações do pensamento crítico, ampliar as formas
de expressão dos membros de uma comunidade e melhorar a capacidade de comunicar
das ações educativas além de utilizar as tecnologias da informação e
comunicação no contexto ensino e aprendizagem.
Bortoliero esteve no Núcleo de Informática Aplicada a
Educação (Nied) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) ministrando um
workshop para professoras do ensino fundamental da escola municipal de ensino
fundamental Parque dos Pinheiros, em Hortolândia (SP). O evento pretende, entre
outras coisas, apresentar os processos pelos quais são produzidos os produtos
televisivos, por exemplo, para que se possa, assim, refletir sobre o que se vê.
“É preciso diminuir o ritmo desenfreado que as mídias despejam informação sobre
as crianças se queremos que elas desenvolvam a noção de crítica e reflexão. É
nesse processo de desconstrução que ocorre o diálogo entre professores alunos e
entre os próprios alunos”, diz a pesquisadora. O exercício da crítica na
recepção, segundo ela, não é algo fácil de ser realizado, uma vez que o acesso
à informação não garante que as pessoas sejam mais ativas ou participantes.
“Criticidade não é algo que se pode transmitir ou transferir como um teorema
matemático ou uma fórmula química; tem que ser exercitado”, enfatiza.
Entre maio e julho deste ano, a pesquisa de consumo infantil
“Kids experts”, realizada pelo canal de TV Cartoon Network e pela agência de
comunicação Fundamento Comunicação Empresarial, concluiu que a partir dos seis
anos as crianças são introduzidas a aparelhos tecnológicos além da TV, e aos nove
anos já utilizam computadores, internet e videogames, para, em seguida, se
interarem com comunicadores (MSN, mensagens de textos, blogs) e celulares.
Entre os 12 e 16 anos, os jovens também deixam a passividade e começam uma
busca incessante por informação, além de dominarem totalmente os artefatos
tecnológicos a que têm acesso. A pesquisa foi realizada com quase sete mil
usuários do site.
Alunos e professores
em comunicação
Simone Bortoliero liderou um projeto em 2001, chamado
“Jovens repórteres cientistas”, na cidade de Peirópolis (MG), que visava à
produção de vídeos de divulgação científica por jovens alunos da rede pública
de ensino. Com o auxílio da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM),
em Uberaba (MG), as crianças saíam a campo para gerar reportagens e depois
apresentar aos colegas. A experiência chegou a Salvador (BA) e à Faculdade de
Educação da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e, atualmente, compõe uma
série de vídeos de curta duração intitulada “Um minuto para a ciência” e
promove o diálogo entre os professores e alunos por meio da tecnologia. “Os
professores foram pegos de surpresa com toda essa onda de tecnologia; agora é
preciso capacitá-los”, lembra a pesquisadora.
Gracia Lopes de Lima, coordenadora de educomunicação dos
projetos Cala Boca Já Morreu e Portal Gens concorda que exista uma distância
que separa professores de alunos. Para ela, os professores têm que estar aptos
a identificar as potencialidades das tecnologias que os alunos possuem
(independente do nível socioeconômico), pois celulares com câmeras e mesmo
velhas câmeras de VHS são tecnologias bastante acessíveis e podem ajudar nas
produções dentro de sala de aula. Nos projetos que auxilia, Lima tenta
enfatizar os processos de produção mais do que o objetivo didático do produto
final. “Os participantes devem estar envolvidos com todas as etapas de
produção, ao contrário do modelo de mercado hierarquizado. É isso que vai dar a
noção de produção comunitária e visão global”, afirma. Ela também conta que a
ênfase não deve ser na reprodução de modelos didáticos, mas na promoção da autoria.
No entanto, Gracia Lima pondera que “as mudanças foram muito rápidas e a
formação de professores ainda não deu conta de assimilar tantas mudanças em tão
pouco tempo”.
É possível aproveitar a onda de consumo de tecnologia para
enriquecer a educação. Lima acredita que esteja ocorrendo uma democratização
desses meios e mídias, o que deve ser aproveitado. “As pessoas, não só as
crianças, têm cada vez mais oportunidade de deixar de ser meras consumidoras
para se tornarem produtoras de conteúdo”. Basta notar que, de acordo com a
pesquisa “Kids Experts”, aproximadamente 25% das crianças entre idades de 7 a 15 anos já postaram vídeos
no site YouTube e 20% já trocaram com amigos algum conteúdo de mídia via
internet.