“Quem
acompanha um pouco a questão da biossegurança e a questão dos
organismos geneticamente modificados, não só no Brasil e na America
Latina, mas no âmbito mundial, sabe que está cercado de muitas
controvérsias”, explica Márcia Tait Lima, pós-graduanda no Departamento
de Política Científica e Tecnológica (DPCT) da Unicamp, na apresentação
de seu trabalho no Foro Ibero-americano de Comunicação e Divulgação
Científica, dia 24, na mesma universidade.
Criada
em 2005, a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) é
descrita no site do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) como um
“colegiado multidisciplinar”. As principais atribuições da CTNBio são
relacionadas às emissões de pareceres técnicos sobre biossegurança,
meio ambiente e saúde. “É importante salientar que a comissão é de
especialistas, de cientistas, primordialmente, mas tem uma atribuição
política clara que é de assessoramento para política nacional de
biossegurança. Quer dizer, ela não está restrita à análise de risco,
mas também ao auxílio para definição de uma política nacional de
biossegurança”, destaca Tait. A CTNBio é formada por doze especialistas
e nove representantes de ministérios e seis representantes de
organizações sociais.
Segundo
Tait, muitas deliberações realizadas no âmbito das reuniões da CTNBio,
em especial as que envolveram organismos geneticamente modificados
(OGM), foram alvo de controvérsias, dentro e fora da Comissão. É
exatamente no estudo dessas controvérsias e da relação da participação
pública junto à autoridade científica que se debruçou Tait em seu
trabalho, um desdobramento de sua dissertação de mestrado na área de
biossegurança. Dessa forma, foi a partir da perspectiva específica dos
estudos de análise de controvérsia que a pesquisadora desenvolveu suas
observações.
Nesse
contexto, Tait observou que as disputas científicas existiam para
estabelecer o que ela chamou de autoridade científica. Algumas das
controvérsias que a pesquisadora encontrou se deram entre os próprios
cientistas e se relacionavam a uma disputa de ideias, nas diferentes
áreas, à qual ela chamou de “disputa pela ciência mais científica”. “Eu
percebi nos discursos, nos artigos, nas cartas estudadas, que havia o
cientista se colocando sempre no sentido de falar que o risco
tecnológico e a biossegurança deveriam ser avaliados do ponto de vista
específico do campo da ciência que ele pertencia ou da disciplina que
ele pertencia. Então, isso eu chamei de uma concorrência no campo de
diferentes lentes disciplinares. E essa concorrência foi tanto interna
à CTNBio quanto nas manifestações dos cientistas de fora da CTNBio”,
observa.
Entretanto,
existiram disputas mais amplas, que explicitavam a visão da sociedade
sobre o poder do especialista na tomada de decisões. “Essa disputa pela
autoridade, que extrapola o campo científico e tem a relação mais
direta com a sociedade, coloca a tecnociência e as novas biotecnologias
como neutras. Portanto, as decisões sobre o risco tecnológico e sobre
biossegurança tomadas nessa comissão com base no conhecimento
tecnocientífico seriam as melhores e mais capacitadas para definir as
questões do que os ministérios, do que as participações nas
organizações civis, que teriam um viés mais político e
sócio-econômico”, explica. Na análise de Tait, uma leitura possível
dessa postura dos cientistas seria o desejo de favorecer a manutenção e
ampliação de seu poder político e decisório nas políticas voltadas para
biossegurança.
Do
ponto de vista do trabalho de consultoria técnica que a Comissão
oferece ao governo, Tait afirma que a opinião de outros grupos sociais
deveriam ser ouvidas, pois não existem outros espaços no país, hoje em
dia, para que se desenvolvam essas discussões. “Se não é ali, teria que
haver um outro lugar, antes dali ou depois dali, mas que não há”,
completa a pesquisadora. Além disso, ela acredita que nas questões de
risco tecnológico e biossegurança existe espaço para as ciências
humanas se expressarem. “Na visão mais pragmática de um cientista, quem
vai falar sobre biotecnologia é um especialista que entende de
moléculas... Mas não necessariamente. Alguém que entende de ética, de
relações sociais, e se propõe a entender aquela área também poderia
discutir isso”, completa Tait.