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Reportagem
Usabilidade ou comunicabilidade: os processos de significação na web
Por Rodrigo Cunha
10/03/2006

O avanço tecnológico e o aprimoramento da interação entre homem e computador influenciaram a evolução do design de páginas da internet desde o seu surgimento. Segundo levantamento recente feito na HCI Bibliography – banco de dados bibliográficos sobre pesquisas envolvendo interação homem-computador –, nesse campo investigativo, há bem menos abordagens semióticas, envolvendo signos e processos de significação como parte da comunicação, do que estudos sobre cognição, focando percepção e aquisição de conhecimento. Apesar disso, é justamente o avanço do uso multicultural da internet que tem aumentado uma nova onda de interesse no estudo dos signos, levando alguns semioticistas contemporâneos a retomar a definição dada por Umberto Eco à semiótica como sendo uma “teoria da cultura” e fazendo com que pesquisadores do campo da arquitetura da informação incorporem conceitos semióticos em seus estudos.

Nos anos 90, quando a internet se popularizou, os autores de páginas da web eram designers acostumados com a elaboração de multimídia para CD-Rom, e era comum o uso de signos como setas (para a direita, a esquerda, para baixo e para cima), no layout das páginas, para direcionar a navegação dos usuários. Elementos como esses praticamente não existem mais na maioria das páginas de hoje, porque já estão incorporados como funções dos próprios programas de navegação, como o Internet Mozila Firefox ou o Internet Explorer, em que as imagens são geralmente acompanhadas de legenda escrita, quando o usuário posiciona o cursor sobre elas através do mouse. Afora os banners com anúncios publicitários em sites comerciais e as fotos ilustrativas em sites de notícias, a palavra escrita se tornou o principal signo trabalhado na arquitetura de páginas da web.

“Há um volume de informação escrita muito abundante na web, e muitas vezes clicamos mais em palavras do que em imagens”, constata Marcel Pauluk, que integra um grupo de pesquisa da Universidade Federal do Paraná (UFPR) dedicado à aplicação de conceitos semióticos e cognitivos a sistemas gráficos de representação. Segundo ele, a primazia da palavra escrita na internet se deve, em parte, à característica particular do hipertexto, a linguagem da web, que permite, a partir de links em palavras-chave de uma determinada página, direcionar o usuário para outras páginas dentro ou fora do próprio site. Pauluk também destaca o fato de que o uso de linguagens chamadas de sintéticas – híbridos que unem características semióticas das linguagens escrita e visual – ainda aguardam uma maior padronização entre designers e arquitetos da informação.

Para o pesquisador da UFPR, além da semiótica contribuir com ferramentas de análise para auxiliar a arquitetura da informação na criação, avaliação e padronização de linguagens sintéticas, ela teria como papel fundamental desmistificar a superioridade de um sistema em relação a outro. Segundo ele, uma imagem, por exemplo, nem sempre é a maneira mais rápida e intuitiva de representação, como muitos designers tendem a pensar, e um erro típico seria o uso de bandeiras associadas a idiomas em sites de visitação internacional. “Coloque em um site, por exemplo, uma bandeira do Brasil para acesso ao conteúdo. A qual das mais de 200 línguas faladas hoje no país está se referindo? Ao português? Não seria então melhor colocar uma bandeira de Portugal? Mas quantos brasileiros são capazes de reconhecer a bandeira lusitana? Não seria também uma injustiça com Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Macau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste?”, questiona. Em sites como o da Fifa, de fato, aparecem os nomes de idiomas como opção para apresentação da página. Já as Nações Unidas optaram pela expressão “bem vindo” em seis diferentes idiomas, para direcionar o usuário à página de apresentação de sua escolha.


De acordo com Frederick van Amstel, da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), a escolha de signos para direcionamento dos usuários deve levar em conta que a navegação na web depende essencialmente de raciocínio abdutivo – que se soma aos raciocínios indutivo e dedutivo, e consiste em formular hipóteses a partir de pistas. Ou seja, a palavra “welcome” no site da ONU é uma pista a partir da qual o usuário pode formular a hipótese de que se clicar nela aparecerá uma página de apresentação no idioma daquela palavra, o inglês. “O projetista de um website deve, antes de mais nada, descobrir quais são os signos que o usuário já conhece e trabalhar em cima deles. Como não é viável conhecer todos os signos que todos os usuários de um website conhecem, o melhor caminho é estudar o contexto onde a linguagem está situada. A compreensão dos elementos e regras da própria linguagem, das relações sociais que ela intermedia e de seu papel na cultura são fundamentais para seu domínio efetivo”, avalia Amstel.

O pesquisador da UTFPR criou um blog para discussão sobre semiótica e arquitetura da informação e, quando ainda era um estudante de graduação em comunicação na UFPR, elaborou uma proposta semiótica para avaliar estruturas de navegação, a partir da análise do portal da própria universidade, que passaria por uma reestruturação na época. Nesse trabalho, para reforçar a idéia de que a navegação na web passa pelo teste de confirmação ou não de uma hipótese formulada a partir da pista dada por algum signo, Amstel cita um estudo publicado no International Journal of Human Computer Studies, segundo o qual o botão “voltar” dos browsers seria responsável por 30% dos comandos de navegação. A palavra-chave que inspirou o nome do blog de Amstel e que é bastante usada entre os designer de páginas na internet é “usabilidade”, conceito usado não apenas para a web, mas até para produtos como rádio-relógio, e que significa permitir que o usuário alcance objetivos específicos com efetividade, eficiência e satisfação, ou simplesmente, facilidade de uso do produto.

A esse termo, a pesquisadora Clarisse de Souza, do Semiotic Engineering Research Group da PUC-RJ, prefere “comunicabilidade”, que segundo ela representa passar bem, através dos diálogos de interface, a mensagem do designer sobre o que é o sistema (que pode ser uma página da internet, um programa de computador, um vídeo-game ou a interface do telefone celular), além de deixar claro para que serve esse sistema, para quem se destina, como funciona, etc. Clarisse de Souza, que tem pós-doutorado em computação e informática pelas Universidades de Stanford e Maryland, nos Estados Unidos, é autora de The semiotic engineering of human-computer interaction (HCI), publicado pela MIT Press em 2005.

Trata-se da apresentação da primeira teoria na área de HCI produzida na América Latina, a engenharia semiótica, que caracteriza sistemas interativos como artefatos de metacomunicação. Nessa teoria, esses artefatos são vistos como “uma mensagem de projetistas para usuários”, que comunica a lógica do sistema e, a partir daí, permite que os usuários se apropriem do sistema para fazerem o que for necessário, desejado ou simplesmente imaginado. “O desafio é oferecer formas de um conjunto infinito de possibilidades de significação que os usuários dão ou querem dar ao que vêem nas interfaces de sistemas se aproximarem do conjunto finito e constante de significações que o sistema consegue interpretar a partir ‘das falas dos usuários’”, explica a autora da teoria.

Híbridos de letras e imagens

Nos principais portais brasileiros, pelo menos dois signos híbridos já estão relativamente padronizados: as imagens da lupa seguida da palavra “busca” e do envelope acompanhada do termo “e-mail”. Talvez essa padronização esteja relacionada ao amplo uso dessas ferramentas pelos usuários de internet. Um levantamento realizado pelo Instituto DataFolha em 2001 apontava que o correio eletrônico já era usado naquela época por 70% dos internautas brasileiros. Essa ferramenta se popularizou tanto que o caractere que aparece em todo endereço de e-mail – o @ – acabou se tornando um signo representativo da própria internet como um todo, idéia aproveitada por publicitários na propaganda do banco Itaú, em que correntistas fazem o gesto de desenhar com o dedo indicador o @ (seguido de um pingo num “i” imaginário) para caracterizar que seu banco está na era da internet.

A popularização do correio eletrônico também impulsionou dois fenômenos ligados à linguagem usada na comunicação eletrônica, que se expandiram para os programas de mensagem instantânea como MSN Messenger e mIRC (Internet Relay Chat) que eclodiram na internet nos anos 90. O primeiro fenômeno – a abreviação, adaptação ou criação de palavras – levou a rede Telecine, do sistema de TV por assinatura, a criar em 2005 o Cyber Movie, que passa filmes com legendas com termos como kbça (cabeça) e 9dades (novidades). Para os pesquisadores, as abreviações em mensagens pela internet não se devem apenas à economia de tempo na comunicação. “O aparente massacre da norma culta da língua é um recurso muito útil para amenizar dificuldades do meio (incômodo de digitar, formalidade, ambiente anti-emocional), mas as regras básicas continuam as mesmas”, observa Amstel, da UTFPR.

O outro fenômeno, também ligado à tentativa de amenizar a formalidade do meio, transformou as mensagens na rede em sistemas gráficos híbridos de representação. Trata-se da inserção dos chamados “emoticons”, que nasceram com a adaptação de recursos do teclado do computador para expressão de sentimentos como alegria :) ou tristeza :( e evoluíram para animações gráficas prontas para o consumo imediato do usuário em bate-papos eletrônicos. “Não é mais preciso pressionar o botão do sinal de dois pontos e em seguida o de parêntesis, nem mesmo inclinar a cabeça para a direita ou a esquerda para a leitura do emoticon. Esse tipo de carinha sorridente ou triste foi substituído por uma tecnologia mais sofisticada, sensível à demanda de um mercado cada vez mais crescente de usuários de computador, de internet, de produtos para comunicação a distância”, afirma Fabiana Komesu, que estudou páginas pessoais da web em seu mestrado e blogs em seu doutorado, ambos no Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp.

“O emprego de emoticons, abreviações e neologismos pode ser pensado como modo de caracterizar e identificar comunidades de escreventes da língua, em oposição a outras comunidades, como se faz em diversas outras atividades humanas. O fato de um canal de televisão começar a passar legendas de filme em ‘internetês’ coloca em evidência tanto a formação dessas comunidades quanto a sensibilidade mercadológica da empresa de comunicação em explorar esse filão”, avalia Komesu. Segundo ela, as adaptações de linguagem também estão relacionadas, de certa forma, ao suporte onde ela é usada, que possibilita a aproximação virtual através da comunicação eletrônica. “Falar em relação virtual é evocar uma importante característica da escrita, indiferentemente ao fato de o suporte se tratar de pele de animal, papiro, papel ou bit: a projeção da imagem do outro, na escrita, constitui sempre uma relação virtual, no sentido de não ser atualizada fisicamente”, explica Komesu. E a escrita não está sozinha nessa longa história que precede em milênios o advento da internet. “Os sistemas gráficos híbridos existem há muito tempo; estão, na verdade, na própria origem da expressão gráfica humana”, esclarece Pauluk, da UFPR.