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Editorial
O Cerrado e os frutos da infância - Carlos Vogt
Reportagens
No coração do gigante
Enio Rodrigo
Megadiversidade corroída em ritmo acelerado
Germana Barata
A busca por números da devastação
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Do ouro à soja: riquezas do Brasil Central
Rodrigo Cunha
Cultura, resistência, memória e identidade
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Cerrado no contexto das transformações socioambientais
Laurindo Elias Pedrosa
Novas tecnologias podem auxiliar na conservação e uso sustentável do Cerrado
Anderson Cleiton José
Evolução histórica do conceito de savana e a sua relação com o Cerrado brasileiro
Fabiana de Gois Aquino
José Roberto Rodrigues Pinto
José Felipe Ribeiro
Os cerrados e o fogo
Vânia R. Pivello
Tópicos para construção da ocupação pré-histórica do Cerrado
Altair Sales Barbosa
Resenha
Sol na moleira
Por Rafael Evangelista
Entrevista
Leopoldo Magno Coutinho
Entrevistado por Por Flavia Natércia
Poema
Clichês
Carlos Vogt
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Entrevistas
Leopoldo Magno Coutinho
Guimarães Rosa, em Grande sertão: veredas, diz que “o sertão não chama ninguém às claras; mais, porém, se esconde e acena” e “de repente se estremece, debaixo da gente”. A história do botânico Leopoldo Magno Coutinho parece confirmar a constatação roseana.
Por Flavia Natércia
10/02/2009

Coutinho entrou em contato na infância com a vegetação do Cerrado em Franca (SP), sem saber que anos mais tarde seria convidado pelo botânico pioneiro Mário Guimarães Ferri a pesquisar como funciona o bioma onde se deparou com seu principal objeto de estudo: o fogo. Em 1969, numa excursão, Coutinho descobriu flores se desenvolvendo sob as cinzas e passou a botar fogo no Cerrado. Literalmente, mas com todo o cuidado, controle e interesse científico. Sem ninguém saber. Aposentado, mas ainda ativo – segue publicando artigos e dando eventuais cursos de campo –, ele se diverte pensando que poderia ter sido preso por ter queimado uma área da Secretaria da Agricultura de São Paulo. Sem ousadia, porém, não teria feito muitas de suas descobertas pioneiras, como as adaptações à seca em plantas de Mata Atlântica; o metabolismo ácido de crassuláceas, plantas suculentas, em bromeliáceas e orquidáceas; as queimadas naturais no Cerrado; e a ciclagem de nutrientes promovida pelo fogo.

ComCiência - Por que o senhor decidiu estudar o Cerrado? O que o atraiu?
Leopoldo Magno Coutinho
- O Ferri, que me via diariamente, talvez por ter visto que publiquei um trabalho como aluno de segundo, terceiro ano, sem falsa modéstia, me convidou a trabalhar com ele no Cerrado de Pirassununga. E eu disse “ah, topo, vamos lá, o que aparecer”. Nós ficávamos hospedados lá na Estação Experimental de Biologia e Piscicultura da Secretaria de Agricultura, onde havia uma área onde o Ferri já tinha trabalhado. Sendo de Franca, a vegetação do Cerrado me era familiar – na fazenda aonde ia quando moleque, tinha uma área –, mas o Ferri me ensinou a reconhecer as espécies e acabamos publicando um trabalho sobre balanço hídrico de plantas do Cerrado na época do verão. O Ferri já tinha feito um trabalho sobre balanço hídrico no inverno; então, a idéia dele era comparar verão e inverno. Ele resolveu fazer outro trabalho, comparando cerrados de regiões diferentes – Pirassununga, Goiânia, Campo Grande, Campo Mourão, no Paraná – e me convidou para trabalhar junto. Então, viajamos por esses locais e acabamos publicando outro trabalho enquanto eu ainda era estudante de graduação.

ComCiência - Como descobriu o papel do fogo no Cerrado?
Coutinho
- Eu era professor da disciplina de ecologia vegetal na faculdade e, numa das três excursões do curso, levávamos os alunos para passar uma semana no Cerrado de Pirassununga. Quando chegamos em 1969, o Cerrado estava queimado. Mas aí vi uma coisa que me chamou muita atenção: no estrato herbáceo, no meio da cinza, do carvão, tinha um monte de flores... Eu tinha feito o doutorado em 1960 e já era 1969, e eu estava procurando uma coisa para fazer como livre-docência. Tinha experimentado, trabalhado com trocas de gás carbônico, com germinação de sementes, fiz um monte de trabalhinhos paralelos, apalpando. Aí, em 1969, encontrei o Cerrado todo florido onde havia pegado fogo. Era algo que podia estudar, que exigia trabalho de campo, mas não equipamento. Bastava tocar fogo na vegetação para ver o que acontecia. Fiz vários experimentos: queimando em épocas diferentes, fazendo fogo a favor, fogo contra e levantando quais as espécies que floresciam depois da queima. Descobri que tinha espécie que florescia uma semana depois da queima! Outras demoravam 25 dias. Resolvi estudar se o fogo era essencial... Observava lá no campo que aquela espécie florescia não somente na área queimada, mas no aceiro também, onde a vegetação era carpida, mas somente superficialmente. As plantas permaneciam ali e brotavam depois. Então, botando fogo, ela florescia, mas não era um efeito tudo-ou-nada.

ComCiência - E o senhor também estudou o mecanismo de ação do fogo sobre as plantas?
Coutinho
- Havia duas hipóteses: ou a eliminação da parte aérea induzia a floração ou a gema já era induzida, já estava pronta, e a eliminação da parte aérea só liberava a distensão de estruturas que já estavam presentes. Aí, fiz a anatomia das gemas antes de germinar, cinco, dez, quinze, vinte, vinte e cinco dias depois, acompanhando o que acontecia. Então, pude verificar anatomicamente que havia uma indução, isto é, antes de queimar ela era vegetativa, com cinco, dez dias, começava a se desenvolver e começavam a aparecer estruturas florais. Em 1976, defendi minha livre-docência sobre os efeitos do fogo sobre a floração de espécies de Cerrado. E aí comecei a colocar pós-graduandos para trabalhar com isso. Aquele problema da floração, para mim, passou a ser menor e o fator fogo passou a ser o objeto maior.

ComCiência - Por quê?
Coutinho
- O fogo mexe com a ciclagem de nutrientes, com a própria vegetação, com a fisionomia. Então, comecei a enveredar por esse lado relacionado com fogo. Por exemplo, se você bota fogo com muita freqüência, a vegetação se abre. Se você não põe fogo, ela se fecha. Aí, fiz vários trabalhos com alunos, sobre ciclagem de nutrientes, o caminho dos nutrientes dentro do solo, a perda de nutrientes com a fumaça. E a gente pôde verificar uma coisa que considero que foi significativa: com a fumaça, 70% dos nutrientes presentes na biomassa vão para a atmosfera. Não é o que se pensava. Pensava-se que a cinza caía no solo e adubava a terra. Não há grande lavagem de nutrientes para o solo. Os nutrientes que entram no solo são logo absorvidos pelas plantas que têm raízes superficiais. Como evoluíram nessas condições, não vão deixar passar potássio, sódio, cálcio: elas absorvem. A grande perda se dá pela fumaça. No caso do nitrogênio, 50% são perdidos para a atmosfera. No caso de outros, como cálcio, fosfato, potássio, é algo em torno de 40%. Só que esse material que vai para a atmosfera não vai ficar eternamente lá. O vento carrega, mas ele cai em algum lugar. Há uma transferência de nutrientes via atmosfera. Então, um trabalho mostrou o quanto sai, outro trabalho mostrou o quanto retorna para o Cerrado. Chegamos ao resultado de que um terço daquilo que sai numa queimada retorna por ano, o que significa que, a cada três anos, retorna tudo. Isso dá uma informação preciosa para o manejo do fogo no Cerrado. Um problema é que queimar, simplesmente, faz perder nutrientes. Agora, se você manejar, isto é, não queimar todo ano, e sim a cada três anos, no mínimo, está dando um tempo para os nutrientes perdidos retornarem, um terço a cada ano. E aí se pode queimar novamente sem perda. Muitos pecuaristas de Goiás, de Mato Grosso já sabem disso. Quando lhes perguntava por que não queimavam todo ano, eles respondiam: “Ah, porque o pasto enfraquece”, o que bateu com o que encontramos. Se você queima todo ano, joga uma quantidade muito grande de nutrientes na atmosfera. Esse também foi um resultado interessante.

ComCiência - Como conseguiu documentar a existência de queimadas naturais?
Coutinho
- Passei a levar os alunos de uma disciplina sobre ecologia de cerrados, na Semana da Pátria, ao Parque Estadual das Emas, em Goiás. Era o melhor lugar, tem a fauna ainda e as várias fisionomias, cerrado sensu strictu, campo limpo, campo sujo, só não tem cerradão. Um aluno, Mário Barroso, ficou extasiado com tudo aquilo. Então, ele se mudou para o parque, onde por sorte tinham construído um alojamento. Uma vez que ele estava lá, quando aparecia uma fumacinha no horizonte, corria para ver. E, pela primeira vez, pôde documentar a ocorrência de queimadas naturais no Brasil. Na África do Sul, isso estava superdocumentado. Mas aqui não tinha nada, porque ninguém tinha se dado ao trabalho de verificar, ninguém acreditava nisso no Ibama, no IBGE. E queimada natural só se pode encontrar em áreas onde o Cerrado está preservado; em outras áreas, o homem queima antes de um raio cair.

ComCiência - Por que o senhor acha que o Cerrado é desconhecido?
Coutinho
- Porque, em geral, nossa cultura dá muito valor à mata, à madeira, algo que tem valor imediato, fácil de ser medido. O que não é madeira é lixo. Nunca se deu muita importância ao estrato herbáceo. Uma fazenda com mata vale mais que uma que tem Cerrado, em primeiro lugar pela madeira, que está sendo explorada ilegalmente na Amazônia. Plantas herbáceas requerem um esforço, estudo, só que isso demora. Madeira, não, você pega, cerra, vende na mesma hora. Também chama mais a atenção a aridez da paisagem. Visto da estrada, o Cerrado é feio, se você entra, começa a observar os detalhes, a dinâmica... Tenho uma coleção de fotos de plantas floridas, o Cerrado florido é um espetáculo. Os detalhes, as adaptações... 50 ou 60 dias depois do fogo, o Cerrado está todo florido! Tenho foto. Já vi florido. Agora, o pessoal não tem muito interesse turístico, é algo que não dá retorno imediato. Tem plantas medicinais que podem trazer remédios contra várias doenças, só que tem de ser estudadas, as plantas não vêm com rótulo. Como pode não render nada, muita gente não se interessa. Mas o Cerrado tem muitas espécies endêmicas, que não se encontra em nenhum outro lugar, e um grande número de espécies com potencial terapêutico.

ComCiência - Que efeitos pode ter o aquecimento global sobre o cerrado?
Coutinho
- Não gosto de arriscar sobre o que vai acontecer. Evidentemente, ele vai se alterar. Como, não há meio de dizer agora. Uma queimada na floresta destrói uma floresta. Não há quem traga o carbono de volta. No Cerrado, não, o carbono pode ser trazido de volta. Temos medidas de produtividade do estrato herbáceo. Há uma produção de cerca de 6 toneladas por hectare por ano. Então, isso é bem razoável. Eu estudava isso em áreas queimadas, o rebrotamento, a produção de fitobiomassa naquela área.

ComCiência - O fato de o Cerrado ter várias fisionomias tem implicações para a preservação desse bioma?
Coutinho
- As áreas grandes são importantes, mas as pequenas também, porque são como pequenas ilhas preservadas, não somente para a flora como também para a fauna. Não sustentam grandes animais, mas podem sustentar muitos pequenos. Então, sou favorável também à existência de pequenas áreas, que podem ser interligadas por corredores ecológicos.

ComCiência - Quanto se estima que restou da cobertura de Cerrado?
Coutinho
- É difícil dizer quanto resta do Cerrado. Não há uma única frente de destruição, como aconteceu com a Mata Atlântica. A destruição se deu em mosaicos, por exemplo, em áreas para plantar soja. Mas não é simples quantificar. Não há estimativa confiável.