Em 2008, foram detectados aproximadamente
doze mil kilômetros quadrados de desmatamento na Amazônia e, de acordo com o
Plano Nacional de Mudanças Climáticas, o Brasil deverá reduzir em 30% as taxas
de emissão de carbono por desmatamento nos próximos seis anos. Tanto as coletas
desses dados quanto as estratégias de redução de desmatamento dependem do
monitoramento da Amazônia via satélites. “Por mais que o Brasil tenha um
sistema de monitoramento eficiente, ele não é bom para a necessidade que temos”,
afirmou Gilberto Câmara Neto, diretor do Instituto Nacional de Pesquisas
Espaciais (Inpe), na conferência “Os benefícios do Programa Espacial Brasileiro
para a Amazônia”, realizada na sexta-feira (17) na 61ª Reunião Anual da SBPC. O sistema Prodes (Projeto de Monitoramento
do Desflorestamento na Amazônia Legal), utilizado no monitoramento, oferece
imagens anuais e detecta somente o corte raso, ou seja, quando houve a retirada
total da cobertura florestal de uma área. “O desafio agora é detectar aquilo
que antecede a remoção total da floresta, que é o necessário para que se evite
a destruição”, diz Câmara. Um segundo sistema de monitoramento desenvolvido
pelo Inpe, chamado Deter (Sistema de Detecção de Desmatamentos em Tempo Real), oferece
imagens em tempo real, mas com menor resolução. “Está sendo muito útil observar
como é que a coisa está evoluindo, sem ter que contar o que já aconteceu”,
alega o pesquisador.“O desafio que a gente tem é ver o que está
acontecendo na Amazônia com cada vez mais qualidade”, diz Câmara. O satélite
usado até a pouco pelo Brasil tinha uma resolução de solo de 20m – ou seja, o
‘pixel’ do satélite corresponde a 20m2. Já o satélite lançado em 2007 em
parceria com a China, o CEBRS-2B (China Brazil Earth Research Satellite),
apresenta uma resolução bem superior, de 2,5m2. Segundo o pesquisador, o uso
combinado dos dois tipos de imagens pode dar muito mais informações. Planos
“Em 2012 o Brasil espera ter capacidade de obter
imagens do planeta com 40
metros de resolução a cada dois dias”, afirma Câmara. Essas
condições, que são bem superiores ao que se tem hoje com o sistema Deter,
segundo o pesquisador, serão alcançadas com o lançamento do satélite Amazônia 1,
previsto para 2011, que servirá para a observação da região. Estão também nos
planos brasileiros os lançamentos de outros satélites já em construção: o
Amazônia-2, e os CBERS-3 e 4, previstos para 2010 e 2013, respectivamente. Além
destes, os CBERS-5 e 6 já estão em fase de negociação com os chineses. O
satélite Lattes-1, que terá fins científicos, deverá ficar pronto até 2013. Com o problema da resolução de imagem
resolvido até 2012, faltará somente resolver o problema das nuvens, que
impossibilitam a captura de imagens. Segundo Câmara, discute-se, para isso, a
construção de um satélite SAR (Sintetic Adventure Radar), por meio do Fundo
Amazônia, até 2015. Essa tecnologia, baseada nos radares de avião, oferece a
vantagem de obter imagens em quaisquer condições climáticas, inclusive com
tempo encoberto. O satélite manda pulsos e, através da respostas recebidas por
uma antena, compõem a imagem. Desmatamento
Os estados onde ocorre mais desmatamento,
segundo Câmara, são Mato Grosso, Pará e Rondônia, enquanto o estado do Amazonas
tem tido uma contribuição pequena. O Mato Grosso liderou por muito tempo os
índices de desmatamento, mas foi superado pelo Pará, que em 2008 apresentou as
maiores taxas. “Isso tem a ver com a expansão da consolidação agrícola no Mato
Grosso, enquanto que no Pará, a maior parte do desmatamento está associada ao
binômio madeira e pecuária”, comenta. Segundo declarado na reunião da SBPC pelo
ministro do meio ambiente, Sérgio Minc, o Brasil terá a menor taxa de desmatamento
neste ano em relação aos anos anteriores. No entanto, Câmara revela que o Inpe
ainda não pode confirmar essa estimativa, já que “o sistema Deter só conseguiu ver
o Mato Grosso, que apresenta uma tendência de queda no desmatamento”. No
entanto, ainda não existe informação sobre o Pará, que para Câmara é o estado
mais crítico. Planeta em foco
Os quarenta anos do pouso do homem na Lua,
comemorados esta semana, significaram um grande marco para a ciência. No
entanto, Câmara afirma que “vôos tripulados não são os aspectos mais
importantes do trabalho científico no espaço”. O pesquisador alega que o
trabalho relevante feito no espaço pode ser feito com satélites, de forma que o
enorme esforço gasto para levar o homem até lá não compensa. “Por mais interessante
que possa parecer, o vôo de astronauta não traz ciência. Nós temos um programa
espacial cujo objetivo é observar o planeta”, afirma. O Comitê de Satélites de Observação da
Terra (CEOS), formado pelos Estados Unidos, China, Europa e países do Pacífico,
do qual o Brasil faz parte, representado pelo Inpe, definiu alguns problemas
científicos que precisam de satélites e que não podem ser atendidos por um
único país. Dessa forma, dados obtidos por satélites independentes podem ser
comparados com uma finalidade em comum. “Um satélite só não resolve o problema,
mas vários satélites operando em conjunto, com a política de dados abertos, são
mais úteis que esforços separados”, diz Câmara. Nesse sentido, Câmara afirma que existem
tentativas de fazer do CBERS um satélite realmente global. Para cobrir toda a
área tropical, seriam utilizadas três estações na África e outras que ainda
estão sendo negociadas no Japão, Quênia e Ásia. “A idéia é fazer do CBRES o
satélite do sul para o sul”, conclui.
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