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Reportagem
Cientistas e escritoras no Nobel: perfil de um tabu
Por Gabrielle Adabo e Janaína Quitério
10/12/2014
Marie Curie nasceu Marya Sklodowska na Polônia, filha de professores. Graduou-se como primeira da classe no colégio e não pôde frequentar a universidade em seu país, pois o governo proibia o acesso às mulheres. Mudou-se para a França, onde estudou matemática e física e tornou-se a primeira professora universitária daquele país. Casou-se e teve duas filhas. Trabalhou em laboratórios improvisados pesquisando a radioatividade dos materiais, o que lhe provocou leucemia e a levou à morte. Curie é uma das poucas mulheres ganhadoras do Prêmio Nobel e a única a recebê-lo duas vezes: o de Física em 1903 (que dividiu com o marido, Pierre Curie) por suas pesquisas sobre os fenômenos da radiação, e o de Química, em 1911, pela descoberta dos elementos rádio e polônio.

Os números do site oficial do Nobel apontam que, desde 1901, quando foi criado o prêmio, até 2014, o número total de laureados foi de 889 – somadas pessoas e organizações. Apenas 46 mulheres receberam o prêmio. O Nobel da Paz é a categoria que mais premiou mulheres até hoje: foram 16 ganhadoras. Muitas delas se destacaram por lutarem pelos direitos das mulheres, como as vencedoras do prêmio em 2011: a presidente da Libéria Ellen Johnson Sirleaf, a militante liberiana Leymah Gbowee e a ativista e jornalista iemenita Tawakkol Karman. A paquistanesa de 17 anos Malala Yousafzai, ganhadora do Nobel da Paz em 2014 e a mais jovem até hoje a ser premiada, tinha sido baleada em outubro de 2012 pelos talibãs após escrever em um blog e defender publicamente o direito das meninas e adolescentes de seu país de frequentarem a escola.

As categorias em que elas menos aparecem como ganhadoras são Física e Química. Apenas cinco mulheres foram laureadas com o prêmio se somadas ambas: Marie Curie e Maria Goeppert Mayer, em Física, e Curie, Irène Joliot-Curie (filha de Curie), Dorothy Crowfoot Hodgkin e Ada Yonath, em Química. Outras 11 ganharam o prêmio em Fisiologia ou Medicina, somando 16 o total de mulheres nas categorias relacionadas à ciência no Nobel (Veja a lista completa das 46 ganhadoras aqui: http://www.nobelprize.org/nobel_prizes/lists/women.html).

Por que tão poucas?

No livro Mulheres que ganharam o Prêmio Nobel em ciênciassuas vidas, lutas e notáveis descobertas, escrito na década de 1990, a jornalista e escritora Sharon Bertsch MacGrayne aponta que a explicação para o pequeno número de mulheres laureadas está na biografia das cientistas. O resgate da história de 14 delas – das quais apenas 9 receberam o Nobel (as demais chegaram “bem perto” de receber o prêmio, segundo a autora) – mostram dificuldades no acesso a universidades, laboratórios e postos de trabalho, que lhes eram vetados por serem mulheres, além da rotina de pesquisa somada aos cuidados do lar, marido e filhos, entre outros obstáculos.

“Utilizando-se de uma entrada particular, Lise Meitner entrou em seu laboratório no porão – e lá ficou. A antiga carpintaria reformada era a única sala do Instituto de Química de Berlim em que podia entrar. Nenhuma mulher – com exceção, claro, das faxineiras – poderia ir ao andar de cima com os homens. Proibida até mesmo de utilizar o toalete do edifício de Química, era obrigada a servir-se das instalações de um hotel na mesma rua”, diz a autora no trecho que inicia a biografia da física nuclear e mostra uma forma, entre muitas, das encontradas pelas cientistas para driblar os empecilhos e continuar fazendo ciência.

“Eu acho que a minha conclusão inicial estava correta”, diz MacGrayne a respeito das biografias como forma de entender os números do Nobel. “Dados os problemas ridículos que elas enfrentaram, é notável que tenham seguido em frente. No entanto, agora, é óbvio que o problema é mais complexo do que eu pensava na época. Mulheres cientistas sabem como coletar e analisar dados concretos e elas o fizeram para revelar ambos os padrões, conscientes e inconscientes, de discriminação contra as mulheres na ciência e outras arenas profissionais”, analisa.

A socióloga Maria Teresa Citeli, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), enumera alguns fatores que ajudam a pensar a ausência das mulheres na ciência e como ganhadoras das premiações. Citeli lembra que as dificuldades que as mulheres encontram como pesquisadoras não são diferentes das presentes em outras áreas: elas são minoria também na política, nos altos cargos das empresas, ganham menos que seus colegas homens, entre outros aspectos. “A escassez das mulheres na ciência não pode ser atribuída a aspectos biológicos, é uma construção cultural”, afirma.

A visão da ciência como campo da racionalidade e da objetividade passou a ser questionada nos últimos 30 anos, segundo a pesquisadora. “Os novos estudos sobre a ciência começaram a olhar para a prática científica vendo o que os cientistas fazem no cotidiano e percebendo que a produção da ciência depende muito mais da relação que os cientistas estabelecem com o mundo do que daquela capacidade de pensamento criativo”, aponta. Fatores, portanto, como a maior disponibilidade de tempo dos homens para a carreira e o lazer – por não estarem submetidos a múltiplas jornadas (cuidar dos filhos, da casa e da família, além do trabalho remunerado), as quais são socialmente atribuídas às mulheres – têm impacto muito grande na presença e no sucesso das mulheres na ciência, segundo Citeli. “Outro obstáculo muito sério é a representação que as ciências, principalmente as biológicas, criam sobre as incapacidades femininas para o mundo da ciência”, destaca a pesquisadora. O que parecia ser um obstáculo do passado ainda influencia o ingresso e o desempenho das mulheres em muitas áreas das ciências.

Apesar de as mulheres serem 54,7% dos ingressantes nas universidades brasileiras, de acordo com o Censo da Educação Superior 2013, e 59,2% dos concluintes, e de haver conquistas de direitos como a garantia da licença-maternidade para as pesquisadoras que dependem de bolsas de pesquisa, ainda há muito a ser feito para alcançar a igualdade. A participação das mulheres ainda é menor quando se comparam as ciências exatas às humanas e diminui quanto mais se sobe na escala de postos nas universidades e de programas de financiamento. O Censo da Educação Superior 2013 também mostra que os cursos nos quais há a maior quantidade de matrículas masculinas são as engenharias e ciência da computação; as mulheres são maioria em cursos como pedagogia, enfermagem e serviço social. Números do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) apontam que o percentual de bolsas concedidas para as mulheres pela instituição, no Brasil e no exterior, em 2013, foi maior em áreas como as ciências humanas (61%) e linguística, letras e artes (67%), enquanto que nas ciências exatas e da terra e nas engenharias e computação elas são apenas 36% das bolsistas.

“A luta pela igualdade entre homens e mulheres não terminou, e as mulheres de todo o mundo devem continuar a lutar pelos seus direitos e pelos direitos das mulheres jovens em todos os lugares. Até agora, em termos gerais, o mundo tem contado com o talento de apenas cerca de metade da população, a metade masculina. Imagine o que poderíamos fazer se pudéssemos desenvolver os talentos de todos no mundo”, defende MacGrayne.

À altura das autoras?

Depois do Nobel da Paz, a categoria que mais premiou mulheres até hoje foi Literatura. Desde 1901, dos 111 escritores laureados em 107 edições, apenas 13 são mulheres, ou 12% do total. Questionado se a Academia Sueca – encarregada da premiação – tem olhado para essa questão, o secretário permanente e porta-voz da entidade, Peter Englund, limitou-se a responder que, por um longo período, a academia foi constituída apenas por homens.

De fato, o próprio site da instituição registra a disparidade de gênero em sua composição: “O sexo feminino tem sido limitado: até agora, sete mulheres foram admitidas na Academia”. Hoje, cinco delas ocupam as cadeiras vitalícias e, ao lado dos outros 13 membros (são, no total, 18), ajudam a eleger um comitê responsável por organizar a premiação a partir da indicação anual de candidatos feita tanto pela academia quanto por entidades literárias autorizadas no mundo todo, além de escritores premiados em edições anteriores, literatos e acadêmicos da área.

A escolha de nomes nessa categoria não está isenta de protestos, que já atingiram, inclusive, as poucas escritoras laureadas. Em 2005, por exemplo, um membro da Academia Sueca renunciou à sua cadeira um ano depois da premiação da austríaca Elfriede Jelinek, por considerar a obra da escritora uma “massa de texto removível, sem estrutura artística”, além de “choramingas e dispensável pornografia pública”, conforme transcreveu o jornalista brasileiro Ludenbergue Góes no livro Todos os ganhadores do Prêmio Nobel de Literatura (1901-2010). A força ficcional de Jelinek está, sobretudo, em abordar a face sombria da violência contra a mulher na sociedade.

Preconceito e falta de reconhecimento com relação à qualidade da literatura de autoria feminina são também proferidos fora dos portões da academia. Em maio de 2011, o jornal britânico The Guardian publicou artigo a respeito das críticas que o escritor premiado com o Nobel de Literatura de 2001, V.S. Naipaul, fez às autoras em geral. Para ele, “não há mulher escritora a quem considere sua igual”. Naipaul desprezou, especialmente, a inglesa Jane Austen, a quem acusou de ter uma “visão estreita e sentimentalista do mundo”.

Essa concepção agride a produção literária feminina desde a entrada de mulheres no mercado literário por volta do século XIX, como ressalta Rita Schmidt, professora do Instituto de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). “A publicação de obras de autoria de mulheres não significou, necessariamente, o reconhecimento de parte de letrados e críticos da época – um grupo masculino que não via com bons olhos a entrada de mulheres na esfera da literatura”, avalia.

Para Schmidt, trata-se de menosprezar a produção das escritoras em nome de um valor definido como estético, que, segundo ela, remonta à filosofia kantiana. “Muito se tem falado sobre o enfraquecimento do estético no contexto do resgate de obras de autoria de mulheres. Cabe lembrar que foi o estudo da autoria de mulheres e a visibilidade de produções ignoradas pelo establishment crítico que colocou em pauta a questão da institucionalização do literário e da sua avaliação, escancarando a inseparabilidade do estético e do político em discursos responsáveis por quadros de referências para ler, explicar, legitimar ou desautorizar textos e leitores”, explica. Como o valor estético se comporta como parâmetro de boa ou alta literatura, os textos de autoria feminina são vistos como deficitários, já que não pertencem ao padrão homogêneo de uma composição social determinada.

O longo período de predomínio social masculino é apontado por Luísa Cristina dos Santos Fontes, vice-coordenadora do grupo de trabalho (GT) “A Mulher na Literatura”, da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Letras e Linguística (Anpoll), como um dos fatores que contribuíram para a manutenção do menosprezo à literatura de autoria feminina. “Estamos vivenciando a repercussão do acesso tardio das mulheres à leitura e à escrita, como destaca Simone de Beauvoir. Nossa trajetória não foi lenta somente em decorrência da ditadura masculina, mas da constatação de que a mulher é escrava de sua própria situação, não tem passado, não tem história, não tem religião própria e não produziu como protagonista nenhuma civilização”, critica.

A escritora Lélia Almeida, vencedora do Prêmio Açorianos de Literatura em 2013 e defensora ativa da literatura de autoria feminina, concorda: “Em todos os âmbitos da sociedade e da cultura patriarcal, as mulheres continuam sendo coadjuvantes, subalternas e cidadãs de segunda categoria. Como há homens que não leem mulheres e não sabem o que elas querem e o que têm para dizer, permanecem privilegiados e valorizados”.

Com o objetivo de estabelecer novos posicionamentos em relação aos estereótipos presentes em temas e gêneros literários nesse contexto de desigualdade simbólica, social e política, o grupo de trabalho da Anpoll vem, há trinta anos, congregando pesquisas que buscam reavaliar as convenções da escrita produzida por mulheres. “Ainda hoje se percebe uma participação desproporcional de escritores e escritoras que contribuem para escrever a história literária contemporânea”, analisa Rosana Cássia Kamita, professora da pós-graduação em literatura da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e coordenadora do GT da Anpoll.

Respaldando-se em dados apresentados por Regina Dalcastagné, que pesquisa as desigualdades sociais na literatura brasileira, Kamita reforça a ausência de participação equânime e plural no fazer literário, já que, de 1990 a 2004, 72,7% dos romances publicados no Brasil foram escritos por homens. “Os mesmos setores canonicamente dominantes que argumentam sobre a neutralidade do fazer literário são aqueles que tratam a literatura de autoria feminina em forma de notas e rodapés nos livros de historiografia literária, celebrando constantemente nomes das mesmas (poucas) escritoras, como uma espécie de garantia de que as escritoras estão sendo consideradas, porém restringindo essa participação até hoje”, revela.

Quebrando tabus

O intervalo entre a premiação literária de uma mulher e outra vem diminuindo nos últimos anos (2004-2007-2009-2013), sobretudo se for considerado que, de 1945 a 1991, apenas três mulheres receberam o prêmio. A última a ser laureada no Nobel de Literatura foi a canadense Alice Munro, que se sobressaiu não por escrever romances, mas contos. “O pequeno gênero agigantou-se”, qualifica Ana Julia Poletto, que estuda a obra da escritora em sua pesquisa de doutorado na Universidade de Caxias do Sul (UCS). “A intensidade e a tensão que Alice Munro é capaz de colocar em suas páginas arrasta os leitores para o suprassumo da palavra: conto e mulher habitam um espaço fulgurante, como ‘um tremor de água dentro de um cristal, uma fugacidade numa permanência’”, compara a pesquisadora citando as considerações sobre o gênero conto escritas pelo escritor argentino Julio Cortázar.