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Artigo
O Qualis e a rotina editorial dos periódicos científicos
Por Mônica Frigeri e Marko Monteiro
10/03/2015
A avaliação das publicações científicas se traduz em um componente da política científica e tecnológica orientado para medir se o esforço destinado à pesquisa e à produção científica traz os resultados esperados, pois, do contrário, esse esforço é visto como redundante e sem utilidade significativa, como apontam Escóbar (2009) e Spinak (2001). Este artigo1 busca, a partir de uma pesquisa etnográfica em um periódico acadêmico da área de educação, refletir de forma crítica sobre como se constroem parâmetros de qualidade para publicações através do Qualis, e como esses parâmetros, mais do que mensurar, constituem-se em políticas ativas que orientam a pesquisa no país.

No Brasil, a avaliação das publicações científicas2 é realizada por meio do Qualis, um indicador implantado em 1998 pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). O Qualis surgiu como parte integrante do processo de avaliação dos cursos de pós-graduação no país, tendo como principal finalidade a indicação de veículos de maior relevância para cada área do conhecimento.

As classificações do Qualis são publicadas trienalmente, a partir de critérios definidos pelos comitês de áreas da Capes3, constituídos por membros da comunidade científica. Cada área possui os seus critérios na definição dos estratos dos periódicos que podem ser A1 (nível mais alto), A2, B1, B2, B3, B4, B5 e C (com peso zero).

Desde sua primeira versão até hoje, o Qualis vem passando por constantes revisões, o que se mostra um excelente material de pesquisa para compreender a partir de quais critérios se constitui a ideia de “qualidade” enquanto parâmetro de política de C&T. A evolução dos critérios do Qualis desde a sua criação demonstra uma valorização crescente da normatização e padronização dos periódicos científicos. Além disso, premia cada vez mais a internacionalização desses periódicos, uma vez que esses critérios priorizam sobremaneira a cooperação científica (de autores, pareceristas e corpo editorial) e a abrangência das publicações (no que diz respeito às indexações e à divulgação do periódico).

Na área de educação, foco da pesquisa aqui retratada, periódicos científicos de qualidade são aqueles que mantêm periodicidade regular, contam com a participação de pesquisadores de diversos centros e países diferentes, estão indexados em bases de dados importantes como o SciELO4 e disponibilizam seu conteúdo de forma gratuita (por meio do acesso aberto).

De acordo com Silva (2009, p.119), “quanto melhor situado na hierarquia do Qualis, maior o poder de atração e maiores as chances de influenciar na captação de financiamentos”. Com isso, o Qualis vem se consolidando como um indicador cada vez mais presente em periódicos avaliados como de prestígio e qualidade, atuando também como filtro daqueles considerados de baixa qualidade. Mais do que isso, através das avaliações da qualidade de programas de pós-graduação pela Capes5, usando, entre outros elementos, as publicações “de qualidade”, o Qualis é um elemento cada vez mais importante na avaliação da pesquisa científica como um todo.

A pesquisa que fundamenta este artigo (Frigeri, 2012) usou a metodologia etnográfica para investigar como o Qualis participa das práticas e rotinas de publicação de um periódico científico. A escolha pela etnografia se deu pela particularidade dessa abordagem, que possibilitou uma imersão na rotina do periódico a fim familiarizar-se com o trabalho editorial (Malinowski, 1976), buscando não apenas narrar essas práticas, mas compreender a lógica própria que orienta o trabalho dos editores (Durham, 1986). O estudo foi realizado ao longo de sete meses em um periódico científico da área de educação, incluindo ainda entrevistas com outros editores de periódicos da mesma área, e a participação em diversos eventos sobre avaliação e sobre edição de revistas.

Dessa maneira, foi possível observar de forma detalhada como o Qualis permeia as práticas editoriais dos periódicos, tornando-se, assim, uma referência central na produção das revistas, na avaliação dos artigos a serem publicados e na formatação final de cada fascículo. O Qualis está presente tanto no processo editorial quanto fora dele – no tocante ao financiamento de pesquisas e nas avaliações dos programas de pós-graduação, como mencionado anteriormente.

No periódico estudado, há uma preocupação evidente da equipe editorial em cumprir todas as exigências do Qualis, o que orienta de forma ampla as práticas observadas e condiciona a forma como o conhecimento é avaliado e publicado nesse periódico. Durante o estudo, foi possível acompanhar algumas atividades, tratadas nessa pesquisa como “ajustes ao Sistema Qualis”, que acabaram condicionando o trabalho editorial de forma específica.

Um exemplo importante disso foi observado quando houve, na edição de um dossiê da revista, a repetição de nomes de autores em um mesmo fascículo. Ou seja, o fascículo iria ser publicado com mais de um artigo de um mesmo autor, o que poderia contrariar normas do Qualis. Preocupado com a endogenia da publicação e em cumprir com o critério do Qualis que solicita 75% dos artigos vinculados a no mínimo cinco instituições diferentes6, o editor negociou com o coordenador do dossiê para que o nome do autor fosse retirado de algum artigo. Nesse caso, o autor (com nome repetido) era um professor que participou de mais de um manuscrito, mas acabou sendo autor de somente um deles nesse dossiê.

Critérios de padronização, tão valorizados pelo Qualis, oferecem material importante para análise, especialmente quando se torna patente a dificuldade em cumpri-los. A periodicidade regular é uma das principais dificuldades destacadas pelos editores entrevistados, pois não é somente um problema financeiro: esse problema envolve outros atores na esfera editorial, como os pareceristas e os próprios autores. Vários editores relatam dificuldades relativas aos prazos de entrega de parecer por parte dos avaliadores e de versões corrigidas dos artigos por parte dos autores. O atraso desses prazos pode acarretar no atraso da publicação do periódico, o que prejudica a avaliação da revista no sistema Qualis. No contexto da ciência brasileira, onde revistas funcionam, em geral, sem uma estrutura profissionalizada e sem muitos recursos, atingir a padronização pode ser um desafio.

Outra dificuldade bastante relatada, principalmente por dois dos editores entrevistados, é que os periódicos com baixos estratos do Qualis têm grandes problemas em conseguir financiamento para o desenvolvimento do trabalho editorial. As agências financiadoras, especialmente o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), auxiliam financeiramente periódicos que estejam enquadrados com Qualis B2 ou em classificação superior. Ou seja, fica clara, aqui, a forma como o indicador de qualidade condiciona os fluxos da ciência, ao interferir também nas dinâmicas de financiamento das revistas.

De acordo com as observações acerca da prática editorial diante do Qualis, pode-se concluir que o Qualis trouxe à tona uma discussão sobre qualidade das publicações científicas, e vem constituindo-se como indicador cada vez mais central. Sendo assim, é possível afirmar que o Qualis traz a questão da qualidade à tona e a torna parte integrante do processo editorial. O Qualis é tido como um sistema de avaliação que classifica os periódicos e também os pesquisadores brasileiros criando demandas de competitividade e padrões de comportamento com pretensão de disputar/manter posições nesse cenário.

Como consequência, o Qualis vem sendo utilizado como um indicador que auxilia na concessão de financiamentos, na inclusão de títulos em bibliotecas e indexadores, na orientação de pesquisadores e leitores durante a escolha de títulos, na submissão de trabalhos e na pesquisa de material bibliográfico, além de estimular os editores a elevar o padrão de qualidade dos seus periódicos a partir da adequação aos critérios da Capes. Há uma busca por criar estruturas que permitam a padronização dos periódicos, além da crescente indexação em bases internacionais. Muitos periódicos buscam atrair autores estrangeiros, a partir da pressão crescente para internacionalizar o conhecimento científico brasileiro.

Dessa forma, o Qualis não se apresenta somente como um indicador científico, mas também como uma política ativa capaz de influenciar os rumos das pesquisas científicas, ainda que exista uma ressalva da Capes a esse respeito, quando a instituição esclarece que não se pretende, com essa classificação, definir o que é qualidade de periódicos de forma absoluta. Além disso, nas próprias práticas editoriais, fica evidenciado que o Qualis reorienta a forma como os periódicos atuam, seja na padronização de práticas, seja na busca por maior indexação e menor endogenia (forma e conteúdo). Para o senso comum, o Qualis já é visto como a classificação da qualidade dos periódicos científicos. Apesar de a Capes não definir de forma explícita o que significa qualidade de periódicos científicos, esse estudo mostra que essa definição emerge a partir das práticas editoriais, condicionadas por indicadores como o Qualis.

O estudo empírico aqui apresentado demonstrou que o Qualis, mais do que indicar a ciência publicada com qualidade, acaba por se materializar numa política científica específica, ao ser incorporado nas práticas rotineiras dos periódicos, orientando, assim, a forma como o conhecimento chega a ser publicado.

Mônica Frigeri é mestre em política científica e tecnológica pela Unicamp, secretária executiva da Revista Brasileira de Inovação e professora na Pontifícia Universidade Católica de Campinas. Email: monicaf1986@gmail.com

Marko Monteiro é mestre em antropologia social, doutor em ciências sociais e professor do Departamento de Política Científica e Tecnológica do Instituto de Geociências da Unicamp. Email: markosy@uol.com.br

Referências

Capes. Tabelas de áreas de conhecimento/avaliação. 2015. Disponível em: . Acesso em 24/02/2015.

Durham, E. R. (org.). Bronislaw Malinowski – Antropologia. São Paulo: Editora Ática, 1986.

Escóbar, S. C. P. “Qualidade e visibilidade em duas revistas científicas bolivianas”. 189f. Tese (doutorado). Departamento de Política Científica e Tecnológica, Instituto de Geociências, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2009.

Frigeri, M. “Entendendo o Qualis: um estudo sobre a avaliação dos periódicos científicos brasileiros”. 149 f. Dissertação (mestrado). Departamento de Política Científica e Tecnológica, Instituto de Geociências,Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2012.

Frigeri, M.; Monteiro, M. “Qualis periódicos: indicador da política científica no Brasil?” Estudos de Sociologia, vol.19, n.37, 2014, p.299-315.

Malinowski, B. Argonautas do Pacífico Ocidental: um relato do empreendimento e da aventura dos nativos nos arquipélagos da Nova Guiné Melanésia. São Paulo: Abril S.A. Cultural e Industrial, 1976.

Spinak, E. Indicadores cientométricos. ACIMED, vol.9, 2001.

Silva, A. O. da. “A sua revista tem Qualis?”. Mediações, vol.14, n.1, 2009, p. 117-124.

1 Este artigo é uma versão resumida do texto "Qualis periódicos: indicador da política científica no Brasil?", dos mesmos autores, publicado em jul/dez de 2014 na revista Estudos de Sociologia.

2 Neste caso, compreende-se a avaliação dos periódicos científicos, mas o Qualis engloba também a avaliação de livros e de anais de eventos.

3 Totalizando 49 áreas do conhecimento (Capes, 2015).

4 O SciELO exerce no Brasil um papel semelhante ao do ISI - Institute for Scientific Information, indexando as melhores revistas brasileiras selecionadas por critérios de qualidade. Para maiores informações consultar: < http://www.scielo.org>.

5 Para maiores informações: http://www.capes.gov.br/historia-e-missao.

6 No caso da área de educação, referente ao triênio 2007-2009.