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Editorial
Ciência e contingência
Por Carlos Vogt
10/09/2015

O annus mirabilis da vida científica de Einstein ̶ 1905 ̶ é assim chamado por ter dado a conhecer os cinco trabalhos que revolucionaram a física e estabeleceram seus fundamentos modernos.1

Nos anos seguintes, de técnico do Departamento de Patentes de Berna (Suiça), passando a cientista renomado e reconhecido no mundo todo, Einstein publicou intensamente, diminuindo esse ritmo de produção depois de conquistar o Prêmio Nobel de Física (1921).

Em 1911, com a teoria da relatividade restrita já consagrada, o físico que vinha trabalhando em sua teoria da relatividade geral, na verdade, uma nova "teoria da gravitação", enunciou, no artigo "Sobre o efeito da gravidade na propagação da luz", que o campo gravitacional deveria provocar a curvatura da luz. Essa previsão de Einstein, ou seja, a de que a luz sofreria desvios ao passar por um campo gravitacional, dada a pouca intensidade do efeito, só poderia ser verificada, experimentalmente, observando-se a passagem da luz por um corpo de grande massa.

Foi nesse momento que, nas urdiduras do acaso, o Brasil, especificamente Sobral (CE), começou a entrar em cena. Isso se deu em 19 de maio de 1919, durante o eclipse solar, cujas observações registradas no município brasileiro foram definitivas para a comprovação da teoria de Einstein, que tivera a ideia de fotografar as estrelas próximas às bordas do sol – o que era possível apenas numa situação de eclipse total –, fotografar as mesmas estrelas à noite e comparar as fotografias para verificar se houve ou não mudanças em sua posição relativa.

As fotografias tiradas pelo grupo de Einstein em Sobral, do qual também faziam parte brasileiros, entre eles, Henrique Morize, então diretor do Observatório Nacional (ON), na cidade do Rio de Janeiro (RJ), foram definidoras e definitivas. Dessa forma, como resultado das experiências no Brasil, no dia 6 de novembro de 1919, o Joint Eclipse Meeting of the Royal Society and the Royal Astronomical Society, ocorrido em Londres (Inglaterra), coroava a teoria de Einstein em substituição à teoria da gravitação universal de Newton, que reinara soberana no mundo da ciência da natureza e de suas leis por mais de dois séculos.

Várias tinham sido as tentativas de realização dos experimentos fotográficos, em diferentes partes da geografia terrestre, e muitos foram os astrônomos, de origens diversas, que se associaram ao esforço dessa comprovação. Em 1914, por exemplo, estava previsto para o dia 21 de agosto um eclipse solar, organizando-se, com apoio financeiro da família Krupp, obtido por Einstein graças a seu prestígio como cientista, uma expedição alemã que, da Crimeia (Rússia), deveria tentar obter as tão desejadas fotografias estelares. Entretanto, um fator não climático, mas histórico e político, impediu de vez a observação do eclipse: a deflagração da Primeira Guerra Mundial, com a invasão da Sérvia pelo Império Austro-húngaro, em 28 de julho de 1914. Por isso, os integrantes alemães da equipe foram aprisionados e os norte-americanos tiveram de sair do país, deixando para trás seus instrumentos de observação e de fotografia. No fim da guerra, em 1918, no dia 8 de junho, um novo eclipse solar aconteceu, dessa vez observado no estado de Washington (Estados Unidos), porém sem os instrumentos que haviam permanecido retidos na Rússia.

A guerra interferiu novamente no processo de verificação da teoria, retardando a observação do efeito de curvatura da luz para a dupla expedição inglesa de 1919, para a ilha de Príncipe, possessão portuguesa na costa ocidental da África, e para o município de Sobral, no nordeste brasileiro. Ambas as expedições foram preparadas por Arthur Eddington, que adotara, com devota convicção, a teoria da gravitação de Einstein, empenhando-se a fundo na sua demonstração. Nesse intuito, Eddington comandou a expedição de Príncipe, que não obteve sucesso, já que o tempo na ilha não ajudou muito no esforço da equipe que lá se encontrava para a mesma finalidade de observação e fotografias do eclipse solar. Ele também já havia visitado o Brasil, especificamente Minas Gerais, em 1912.

As guerras, quentes e frias, têm, historicamente, relações muito fortes com a ciência, pelo menos com a instituição ciência, tal como a entendemos, modernamente, desde os séculos XVII e XVIII, e com os seus derivativos de aplicação e de tecnologia. Além das relações intrínsecas que o chamado esforço de guerra sempre provoca, desencadeando conhecimentos para os quais os imperativos bélicos pressionam, deixando-os, depois, para a apropriação civil, na forma de produtos derivados das inovações tecnológicas da economia de guerra, há também outra forma de decorrência histórica, segundo a qual a guerra de uns, ou a guerra na casa de uns, permite e proporciona o desenvolvimento da ciência e da tecnologia na casa de outros, ou, pelo menos, a participação desses outros, mesmo que episódica, na configuração dos marcos dos grandes acontecimentos científicos, como é o caso das fotografias do eclipse solar de 1919 tiradas em Sobral. Quem sabe, entre as motivações mais subjetivas que trouxeram Einstein ao Brasil, em 1925, depois de passar pela Argentina e pelo Uruguai, não esteja uma motivação sentimental e afetiva que, sem que ele soubesse, desejasse, ou planejasse, ligaria para sempre sua história de vida científica ao Brasil.

Menos episódico, mas também ligado a uma conjuntura de grandes conflagrações é o fato de que todo o período, no século XX, compreendido pelas duas grandes guerras, caracteriza-se, entre muitas atrocidades, e até por causa delas, por grandes movimentos de migração em massa, principalmente na Europa, decorrentes das perseguições étnicas, religiosas e raciais, numa escalada de demência política jamais vista na história antes da ascensão dos governos nazifascistas.

O Brasil também se beneficiou desses movimentos migratórios de grandes cientistas, oferecendo em contrapartida ̶̶̶ sobretudo a partir dos anos de 1930 ̶ situações favoráveis, dado o processo de modernização do país, para a prática e o desenvolvimento de pesquisas nos mais diversos campos de atividade do conhecimento, da química à biologia, da física à biofísica, da matemática às ciências humanas, à filosofia, às letras e às literaturas. Várias instituições foram criadas, outras se consolidaram e todas abrigaram as contribuições fecundamente inovadoras trazidas do outro lado do Atlântico, implementando um intercâmbio de professores e de pesquisadores de intensidade até então desconhecida.

O clima de terror crescente na Europa foi, como se sabe, responsável pela concentração de grandes cérebros nos Estados Unidos, Einstein entre eles. Distribuindo-se por diferentes centros de pesquisa, ali usufruíram de condições políticas, sociais, econômicas e culturais para o desenvolvimento de seus trabalhos e ali puderam, ainda, em muitos casos, participar ativamente da produção dos artefatos atômicos de guerra, cujas explosões em Hiroshima e em Nagasaki, no Japão, puseram fim ao conflito mundial e, como nunca antes ocorrido, chamaram a atenção da humanidade para a questão ética dos limites do conhecimento, para a questão epistemológica do conhecimento dos limites e para a terrível contemplação do mal e do pecado produzidos pelos homens da ciência a serviço da racionalidade bélica dos governos e de seus exércitos.

Em 25 de novembro de 1947, dois anos depois da explosão das bombas, é sempre bom lembrar que J. Robert Oppenheimer, na conferência "A física no mundo contemporâneo", proferida no Massachusetts Institute of Technology (MIT), registrou com remorso:

Apesar da visão e da sabedoria clarividente de nossos estadistas na época da guerra, os físicos sentiram uma responsabilidade peculiarmente íntima por sugerir, apoiar e, enfim, em grande parte, conseguir desenvolver as armas atômicas. Tampouco podemos esquecer que essas armas, por terem sido de fato utilizadas, dramatizaram impiedosamente a desumanidade e a maldade da guerra moderna. Falando cruamente, de um modo que nenhuma vulgaridade, nenhuma hipérbole é capaz de suprimir, os físicos conheceram o pecado; e esse é um conhecimento que não podem esquecer.2

Einstein, cujo pacifismo durante a Primeira Guerra Mundial acabou contribuindo para que tivesse de deixar a Alemanha, com a ascensão ao poder do Partido Nacional Socialista de Adolf Hitler, sob o impacto psicológico dos horrores praticados pelos nazistas e sob a influência de outros colegas e amigos que o aconselharam nesse sentido, usou de seu grande prestígio e escreveu uma carta, datada de 2 de agosto de 1939, ao presidente norte-americano Franklin Roosevelt, incitando-o a apoiar o projeto de desenvolvimento de armas atômicas para fazer frente ao incomensurável mal que, então, ameaçava a humanidade:

No transcurso desses últimos quatro meses, ficou comprovada a possibilidade de se realizar uma reação em cadeia com uma quantidade grande de urânio, a partir da qual seriam liberadas grandes quantidades de energia e novos elementos semelhantes ao rádio. É muito possível que esse experimento venha a ser levado a cabo num futuro próximo. Esse novo fenômeno pode, entre outras coisas, permitir a construção de bombas.

Assim, o senhor talvez considere desejável manter contato permanente entre seu governo e o grupo de físicos que trabalham com reações em cadeia nos Estados Unidos.

Até onde sei, a Alemanha suspendeu a venda de urânio das minas da Tchecoslováquia ocupada. Uma ação tão repentina talvez resulte da influência do filho do subsecretário alemão de Assuntos Exteriores, recentemente incorporado ao Instituto Wilhem Kaiser, de Berlim, onde alguns dos experimentos americanos com urânio vêm sendo também produzidos.3

Contudo, pelo tempo que viveu nos Estados Unidos, Einstein não escapou da desconfiança persecutória de Edgar J. Hoover, diretor do Federal Bureau of Investigation (FBI), que via em tudo e em todos, estrangeiros principalmente, fantasmas de colaboracionistas e espiões do regime comunista soviético. Já era a Guerra Fria com novos gadgets tecnológicos de segurança, de espionagem, de contraespionagem, de fugas mirabolantes pelo Muro de Berlim, de mortes acabrunhantes e terríveis, em outras tantas tentativas de fugas, de venda de segredos militares, de ogivas nucleares guardadas em ninhos de apocalipse, de crises internacionais dramáticas como a provocada, nos anos 1960, pelos foguetes soviéticos em Cuba, de Ian Fleming e seu super agente 007 ̶ James Bond ̶ , com permissão para matar.

Na última semana de maio de 2002, os países integrantes da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) se reuniram em Roma (Itália), tendo como anfitrião o governo direitista do então primeiro-ministro Sílvio Berlusconi. A novidade do encontro foi a participação do então presidente da Rússia Wladimir Putin, que, em tempos de Guerra Fria, antes da queda do Muro de Berlim (1989), estaria liderando o tratado concorrente hoje inexistente, o Pacto de Varsóvia. A imprensa noticiou com estardalhaço retórico o fim definitivo da Guerra Fria e as declarações de redução do arsenal nuclear das potências mais armadas no mundo, os Estados Unidos e a Rússia. Em volta, por terra, mar e ar, para garantir a tranquilidade do encontro, a segurança dos participantes e a celebração da paz entre os países detentores da ciência da guerra, o maior aparato bélico jamais montado para a defesa de chefes de Estado desejosos do harmônico entendimento entre as nações que governam.


Este texto constitui a parte II do ensaio “O salto cântico da física” que integra o livro Vogt, Carlos. A utilidade do conhecimento. São Paulo: ed. Perspectiva, 2015, p. 81-127, tendo sido, originalmente, publicado aqui mesmo na ComCiência, n. 32, de 10 de jun. 2002, com o mesmo título que agora é retomado.

1 Os artigos de Einstein a que me refiro são os seguintes: Über einen die Erzeugung und Verwandlung des Lichtes Betreffenden Heuristischen Gesichtspunkt; Eine neue Bestimmung der Moleküldimensionen; Über Die von der Molekularkinetischen Theorie der Wärme Geforderte Bewegung von in Ruhenden Flüssigkeiten Suspendierten Teilchen); Zur Elektrodynamik Bewegter Körper; Ist die Trägheit eines Körpers von Seinem Energieinhalt Abhängig? A estes, pode-se acrescentar ainda: Zur Theorie der Brownschen Bewegung; Über den Einfluder Schwerkraft auf die Ausbreitung des Lichtes. As referências completas podem ser encontradas na lista bibliográfica referente a este capítulo, nas p. 334-335 do livro.
 

2 J.R. Oppenheimer, “Physics in the contemporary world”.

3 Letter from Albert Einstein to president Franklin D. Roosevelt. Disponível em: <http://research.archives.gov/description/593374>.