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Entrevista
Luiz Pinguelli Rosa
Entrevistado por Denise Lourenço
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Entrevistas
Luiz Pinguelli Rosa
Luiz Pinguelli Rosa é professor do Programa de Planejamento Energético do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (Coppe), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Foi presidente da Eletrobras, e ocupou cargos de direção na Sociedade Brasileira de Física, na Associação Latino-Americana de Planejamento Energético, na Academia Brasileira de Ciências, na Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e em instituições internacionais, como o Conselho Pugwash. Recebeu títulos e prêmios, como o Forum Award da Associação Americana de Física, e o Chevalier de l’Ordredes Palmes Académiques, concedido pelo Ministério da Educação da França. Com livros como Tecnociências e humanidades: novos paradigmas, velhas questões, também é autor e revisor de relatórios do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC/ONU), e secretário executivo do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas. Nessa entrevista, ele fala sobre a bomba nuclear que explodiu em Hiroshima e Nagasaki, acordos internacionais entre países que detêm a tecnologia da bomba e desafios brasileiros quanto ao descarte de lixo nuclear.
Denise Lourenço
10/09/2015
A imagem do cogumelo explodindo em Hiroshima e Nagasaki marcou a memória coletiva da humanidade. Sabemos que a bomba atômica é algo terrível. O senhor pode explicar para a gente, de uma forma simples, o que é bomba atômica?


A bomba atômica, melhor chamada de bomba nuclear, funciona devido a reações nucleares como a fissão e a fusão nuclear. A fissão nuclear é a quebra de um núcleo pesado, como o urânio. Em particular, o isótopo 235 do urânio. E a bomba de fusão nuclear, devido à junção de dois núcleos atômicos. Para a bomba de fusão nuclear, há uma série de possibilidades: núcleos leves, incluindo o hidrogênio, o hélio, o trítio, enfim, alguns núcleos leves que podem, sob condições muito especiais, se fundirem. Nos dois casos, na fissão e na fusão, ocorre a transformação de uma parte da massa inicial em energia, numa proporção fabulosa, que foi prevista pela Teoria da Relatividade de Einstein. A força da explosão vem dessa transformação. Uma pequenina quantidade de massa se transforma em quantidade imensa de energia. As bombas atuais de países armados substancialmente, ou seja, Estados Unidos, Rússia, China, Inglaterra e França são bombas de hidrogênio. E há outros países que ainda devem ter bombas de urânio ou plutônio, como a Índia, Israel, Coreia do Norte, de poder menor, porque a de hidrogênio é muito mais potente.

Às vezes temos a impressão de que, como ocorre com outras bombas, a nuclear destrói prédios, arrasa patrimônios. Isso ocorre de fato?


A bomba nuclear causa uma explosão imensa. Para se ter uma ideia do vigor dessa bomba, em Hiroshima houve cerca de 100 mil mortes no momento da explosão, numa fração de segundos. As pessoas morreram de várias maneiras: queimadas, evaporadas ou por escombros da grande ventania causada pelo enorme deslocamento de ar, por um calor imenso que também causa a morte. Fora isso, depois, por muitos anos, uma outra quantidade quase igual de pessoas morreu por doenças causada pela radioatividade. Em geral, câncer, mas há outras doenças decorrentes de queimaduras intensas. Então, é uma bomba muito destruidora. Pior do que qualquer outra conhecida pelo homem.

Quais seriam, hoje, as consequências da explosão de uma bomba atômica?

Seriam muito maiores do que aquelas de Hiroshima e Nagasaki, porque a potência das bombas de hoje é mais de mil vezes maior do que aquela. Ela poderia destruir grande parte de uma imensa metrópole, como Nova Iorque ou Moscou, por exemplo. O número de mortes poderia subir muito acima dos 100 mil que morreram instantaneamente em Hiroshima, para um milhão, dois milhões de pessoas, dependendo do local onde se explodisse a bomba e da quantidade de bombas. A potência dessas bombas é muito grande e é possível, usando mísseis, disparar várias contra um país, uma cidade. Isso seria uma tragédia. Por isso, os países que possuem a bomba não ousam usá-la. Então, a bomba nuclear, por enquanto, é uma bomba de dissuasão. Ela não é para ser usada. Essa é a doutrina. Porque destrói quem a usa.

Dado que Reino Unido, Rússia, Estados Unidos, China, França, Índia, Paquistão e Israel possuem a tecnologia da bomba nuclear, você acha que a humanidade corre um risco real de reviver o episódio de Hiroshima e Nagasaki?

Corre! Corre sim, em um prazo muito longo. Eu acho que é preciso a conscientização política dos países para a eliminação da bomba nuclear.

Dá para confiar em acordos internacionais, como o firmado entre Estados Unidos e Irã?

Sim, dá. O Irã já era inspecionado pela Agência de Energia Atômica, mesmo antes desse acordo. E agora, assume uma série de compromissos e será fiscalizado. Eu não acredito que o Irã seja a maior ameaça do uso da bomba no mundo. Eu acho Israel, por exemplo, um país muito mais agressivo do que o Irã, e um país ameaçado, ao mesmo tempo.

Há tanto empenho para a produção da bomba, mas não há divulgação sobre a possibilidade de cura de pessoas que foram expostas à radiação. Existem pesquisas nesse sentido?

A possibilidade de cura é muito pequena. Para uma parcela grande de pessoas expostas à radioatividade, não há possibilidade de cura, porque morrem por colapso orgânico ou de câncer, que é dificilmente controlável em alguns casos. Em outros casos, como para alguns graus de queimadura, há cura, e para alguns tipos de câncer, há tratamento. Mas o efeito da bomba é muito devastador. Muitas das pessoas atingidas não têm salvação.

Radiação é um termo bastante genérico. O espectro eletromagnético vai de ondas extremamente baixas até os raios X e gama, passando por ondas de rádio, TV, micro ondas, radiação infravermelha, luz visível e radiação ultravioleta. Por que algumas radiações são inofensivas e outras podem nos matar?

O termo radiação cria uma certa confusão. Radiação eletromagnética são ondas, todas da mesma natureza, de energia baixa – ondas de telecomunicação (chamadas ondas Hertzianas), ondas térmicas que se propagam em uma cozinha a partir da chama do fogão esquentando o ambiente, a luz que a gente enxerga e, mais acima, o raio X e o raio gama, que se tornam perigosos à saúde humana. O raio gama tem uma origem nuclear. A radioatividade inclui o raio gama e inclui também partículas emitidas dos núcleos atômicos, chamadas partículas alfa, que são mais pesadas, partículas beta, que são elétrons ou a anti-partícula do elétron, chamada pósitron em raios gama. Então, o raio gama pertence a essa categoria da radioatividade alfa, beta e gama, muito prejudiciais aos organismos vivos.

Alemanha e França possuem usinas nucleares velhas. O Japão acaba de reativar uma das usinas de Fukushima. Qual é a sua opinião sobre o panorama geral após Fukushima?

O Japão alertou para o problema do uso da geração elétrica com reatores nucleares. É um país adiantado tecnologicamente, no entanto cometeu um erro gravíssimo em deixar os geradores de emergência do reator desprotegidos, próximo ao litoral. Os reatores foram atingidos por ondas gigantes de um tsunami. Os reatores ficaram protegidos, mas precisam do gerador de emergência quando há um acidente dessa proporção, pois não podem ficar sem energia elétrica. A geração de uma porção importante de energia elétrica do Japão dependia de energia nuclear. E tem um outro problema: se você não gera com nuclear e passa para o carvão, muito usado na geração elétrica no mundo inteiro, você agrava o efeito estufa de aquecimento da atmosfera. Uma das justificativas do uso da energia nuclear é que ela não contribui para o efeito estufa, no funcionamento do reator. Contribui durante a construção da usina, que usa aço, cimento, materiais em cuja produção há queima de combustível fóssil.

Mas só há essas duas opções? Ou energia nuclear ou energia gerada a partir da queima do carvão?

Não. Tanto é que na Alemanha se expande muito a energia eólica e a energia solar. Mas a intermitência é uma característica dessas duas energias e isso complica um pouco. Às vezes você não tem sol ou vento por longos períodos e precisa de acumulação de energia elétrica.

E o episódio do césio 137 em Goiânia, a maior calamidade ocorrida com energia nuclear no Brasil?

A bomba de césio é um material muito radioativo, produzido nos reatores nucleares. Ela emite partículas usadas para bombardear tumores cancerígenos. Uma bomba dessas ficou em um hospital abandonado e catadores de ferro velho a partiram e encontraram um pozinho brilhante que foi dado de presente para inúmeras pessoas, inclusive crianças que colocaram o pozinho na boca, a mão suja nos olhos e acabaram morrendo. Foi um absurdo!

Avançamos em relação ao descarte de lixos radioativos? Temos uma política de descarte para esse tipo de lixo?

Temos. A Comissão Nacional de Energia Nuclear regulamenta o uso desses equipamentos médicos. Nunca a bomba de césio deveria ter sido abandonada no hospital em Goiânia. Os donos do hospital foram processados, mas, que eu saiba, lamentavelmente, não foram condenados. É preciso dar uma destinação de lixos especiais a esses resíduos. Devem ser depositados em local seguro e sob guarda de algum sistema que impeça que pessoas se aproximem deles. Isso no Brasil não é devidamente feito. Há muitas falhas.

Como está Angra dos Reis? Como é feito o descarte do material radioativo da usina?

O gerador de Angra 1 e 2 funciona. O reator de Angra 3 tem a obra em andamento, mas está envolvido em casos de corrupção apontados na chamada Operação Lava Jato. A obra deve estar parada ou andando a passos de cágado. O descarte do material radioativo do reator tem duas categorias. O material da categoria de baixa e média radioatividade é guardado provisoriamente em galpões próximos ao reator, no terreno da usina. E o material de alta radioatividade, que é o que resta do combustível nuclear depois de usado, fica depositado num poço de água de uma piscina funda, no prédio ao lado do reator. Não há destino para esse material. No caso do material de baixa e média (radioatividade), é possível fazer um repositório ao estilo do que foi feito próximo de Goiânia, em Abadia, onde se depositou os restos de césio e do que foi contaminado pelo césio. Isso é possível de se fazer, mas não se fez. Ele está lá nos galpões. E para o lixo de alta (radioatividade), não há uma decisão técnica consensual do que fazer com ele. Ele vai ficando na piscina, do lado do reator.

Na sua opinião, o Programa Nuclear Brasileiro está cumprindo a missão para a qual foi desenhado? O Brasil alguma vez esteve perto de desenvolver tecnologia para a bomba atômica?

Eu não saberia responder com facilidade qual é a missão do Programa Nuclear Brasileiro. Ele já teve um período meio nebuloso quando se pretendeu fazer uma explosão nuclear na base de Cachimbo, no Pará, e isso foi denunciado e o projeto foi abandonado. Ocorreu entre os governos Sarney e Collor. Deve-se dar o mérito ao ex-presidente Collor, que mandou encerrar esse projeto que hoje é proibido pela Constituição brasileira e não acredito que haja nenhuma atividade nessa direção. Há a ideia de um submarino nuclear, um projeto da marinha, que está em andamento e que teria um reator nuclear para propulsão do navio.

Quando a pesquisa de laboratório se transforma em uma arma aniquiladora de cidades inteiras, nós, leigos, pensamos que o cientista se ressente. Como você vê essa questão?

Deixe-me esclarecer uma coisa. A bomba nuclear foi uma ideia dos maiores cientistas da época, incluído o próprio Einstein, que liderou esses cientistas e os conduziu à presença do presidente Roosevelt para convencê-lo a desenvolver o projeto Manhattan. Na realidade, esses cientistas tinham medo de que a Alemanha estivesse desenvolvendo a bomba. A Alemanha tinha condições de fazê-lo, mas não o fez. E quando os Estados Unidos conseguiu ter a bomba, a Alemanha já tinha se rendido, e aí resolveu-se usá-la contra o Japão. Foi, a meu ver, um absurdo, pois o Japão não tinha condições de vencer a guerra e fatalmente seria derrotado, isolado, sem a Alemanha como aliada. A bomba foi usada abrindo a Guerra Fria. Foi uma demonstração de força norte-americana. A verdade é que a barbárie da guerra não se reduz à bomba nuclear. O bombardeio de Tóquio foi feito por aviões com bombas comuns e também matou número similar de pessoas. Foram os cientistas que quiseram fazer a bomba e a fizeram. Tinham razão para isso, que era impedir a Alemanha de ganhar a guerra. Os alemães significavam o nazismo, uma das maiores barbáries da história da humanidade. A guerra é a barbárie e a utilização da bomba nuclear é o cúmulo da barbárie!