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Resenhas
Os sobreviventes
Hiroshima, de John Hersey, traz o relato de seis "hibakushas" no Japão e instaura um novo olhar jornalístico sobre a tragédia da bomba atômica.
Carolina Medeiros
10/09/2015
Em 1946, o fundador do jornal americano The New Yorker, Harold Ross, pede ao jornalista John Hersey um relato do que seria uma cidade inteira devastada por uma bomba atômica. E, assim, o jornalista de 32 anos segue para o Japão. A partir do relato de seis sobreviventes, descreve o que foi aquele 6 de agosto de 1945, que marcou para sempre a humanidade, e levou a óbito milhares de pessoas na cidade de Hiroshima.

A obra de Hersey, Hiroshima, nasceu, portanto, em forma de matéria, que seria inicialmente publicada em quatro partes no jornal. Os editores, porém, mudaram de ideia, e a edição do dia 31 de agosto de 1946 foi toda dedicada ao trabalho do jornalista, eleito em 1999 pela New York University como a melhor reportagem do século XX.

Hiroshima tem um texto fácil e preciso, repleto de adjetivos, compondo com profundidade a trajetória dos seis sobreviventes ao ataque da bomba atômica. Ele descreve que o avião americano utilizado para despejar o artefato sobre 245 mil japoneses passou despercebido pelos alarmes antiaéreos do país, de modo que, às oito horas, foi disparada a sirene que indicava aos civis que o espaço aéreo estava limpo, ou seja, sem perigo. As pessoas saíam normalmente de suas casas para seus afazeres diários, mas quinze minutos depois, um “clarão silencioso” tomou conta dos céus de Hiroshima.

Seis hibakushas – como foram nomeados os sobreviventes – dão vida à obra que descreve “a magnitude do evento inquestionável sob todos os enfoques: número de vítimas, duração dos efeitos por gerações e irreversibilidade dos danos causados aos sobreviventes”. São eles, Toshiko Sasaki (funcionária da Fundição de Estanho do Leste da Ásia), os médicos Masakazu Fujii e Terufumi Sasaki, Hatsuyo Nakamura (dona de casa), o padre Wilhelm Kleinsorge (jesuíta alemão), e o reverendo Kiyoshi Tanimoto (pastor da igreja metodista).

Reconstruindo os acontecimentos a partir do que cada um deles viveu, é possível acompanhar os primeiros momentos após a queda da bomba, os dolorosos dias que se seguiram e as consequências que duraram por décadas. E a cada novo parágrafo, o envolvimento inevitável com os dramas de cada um dos personagens.

A linguagem de Hiroshima é simples e clara, como um texto jornalístico, e o autor tem ainda o cuidado de traduzir e explicar os significados dos termos usados com frequência pelos japoneses, o que dá para a obra um caráter humano e, ao mesmo tempo, impactante.

Quarenta anos depois de a bomba atômica ser lançada, Hersey volta ao Japão para se encontrar com os seis personagens que deram vida ao seu trabalho, e essa nova pesquisa dá origem ao capítulo “Depois da catástrofe”, que mostra como eles estão e como foram suas vidas após a tragédia.

Pelo fato de a obra ser composta por relatos, é considerada por muitos críticos de uma enorme importância jornalística, mas, por outros, uma obra parcial por enfocar apenas o lado das vítimas. John Hersey, de toda forma, foi considerado precursor de um novo estilo de livro-reportagem, criando uma obra original e realista. A narrativa nos leva a questionar noções de vida e morte, de guerra e paz, e contribuiu para que os americanos vissem os inimigos de forma humanizada.

Um clarão silencioso na visão de seis hibakushas

Reverendo Kiyoshi Tanimoto
“Então um imenso clarão cortou o céu. O reverendo se lembraria nitidamente de que o clarão partiu do leste em direção ao oeste, da cidade em direção às montanhas. Parecia um naco de sol. Os dois amigos reagiram, apavorados – e tiveram tempo para reagir (pois mais de três quilômetros os separavam do centro da explosão). O senhor Matsuo subiu os degraus da frente, entrou na casa e praticamente se enterrou entre as trouxas de roupa. O senhor Tanimoto deu três ou quatro passos e se jogou entre duas grandes pedras do jardim, agarrando-se firmemente a uma delas. Com o rosto encostado na pedra, não viu o que aconteceu. Sentiu uma pressão repentina, e estilhaços de madeira e de telhas choveram sobre ele. Não ouviu barulho nenhum”.

Hatsuyo Nakamura
“A senhora Nakamura observava o vizinho quando um clarão de um branco intenso, de um branco que nunca tinha visto até então, iluminou todas as coisas. Ela não se importou em saber o que estaria acontecendo com o vizinho; o instinto materno a direcionou para sua prole. No entanto, mal deu um passo (encontrava-se a 1215 metros do centro da explosão), alguma coisa a levantou e a fez voar até o cômodo contíguo, em meio a partes de sua casa. Quando ela aterrissou, tábuas caíram a seu redor, e uma chuva de telhas a cobriu. Tudo escureceu. A camada de destroços não era muito densa, e a senhora. Nakamura se levantou. Ouviu uma das crianças gritar ‘Mamãe, socorro!’ e viu a caçula Myeko, de cinco anos, enterrada até o peito e incapaz de se mexer. Enquanto abria caminho com as mãos, freneticamente, para acudir a menina, não escutou nem avistou o menor sinal dos outros filhos”.

Masakazu Fujii
“O doutor Fuji sentou-se na esteira do terraço, cruzou as pernas, colocou os óculos e se pôs a ler o Asahide Osaka. Gostava de informar-se sobre o que ocorria em Osaka porque sua esposa estava lá. E então viu o clarão, que, na posição em que se achava – de costas para o centro da cidade e com os olhos fixos no jornal -, pareceu-lhe de um amarelo intenso. Surpreso, começou a levantar-se. Nesse momento o hospital (situado a 1395 metros do centro) se inclinou e, com um baque terrível, caiu no rio. O médico, que ainda não completara o ato de levantar-se, foi jogado para frente, para os lados e para cima, socado e agarrado; perdeu a noção das coisas, pois tudo aconteceu com crescente rapidez; sentiu que a água o envolvia. Mal teve tempo de pensar que estava morrendo, pois logo constatou que estava vivo, imprensado entre duas vigas em V, como um bocado de alimento entre dois hashis imensos – mantido na posição vertical, de modo que não conseguia se mexer, com a cabeça miraculosamente acima da água e o torso e as pernas submersos. Os destroços do hospital se espalhavam a seu redor numa louca mistura de estilhaços de madeira e anestésicos. Seu ombro esquerdo doía horrivelmente. Seus óculos haviam sumido”.

Toshiko Sasaki
“De volta a sua sala, a senhorita Sasaki sentou-se a sua mesa. Estava bem longe das janelas, que ficavam a sua esquerda, e tinha a suas costas duas estantes altas, contendo todos os livros da biblioteca organizada pelo departamento de pessoal. Guardou algumas coisas numa gaveta e mudou uns papéis de lugar. Antes de atualizar seus arquivos, acrescentando novas contratações, demissões e afastamentos, resolveu conversar um pouco com a moça sentada a sua direita. Assim que virou a cabeça para o lado oposto ao das janelas, um clarão ofuscante encheu a sala. O medo a paralisou em sua cadeira por um longo momento (a fábrica distava 1440 metros do centro). Tudo veio abaixo, e a senhorita Sasaki perdeu a consciência. O teto desabou repentinamente, o piso de madeira do andar superior despencou, levando com seus estilhaços as pessoas que lá se achavam, e o telhado ruiu; as estantes que estavam atrás da senhorita Sasaki caíram, e seu conteúdo a derrubou, quebrando-lhe a perna esquerda. No primeiro momento da era atômica livros imprensaram um ser humano numa fundição de estanho”.

Padre Wilhelm Kleinsorge
“Ao ver o terrível clarão – que, diria mais tarde, lembrou-lhe uma história que lera na infância, sobre a colisão de um meteoro imenso com a Terra -, teve tempo (pois se encontrava a 1260 metros do centro) para um único pensamento: uma bomba caiu em cima de nós. Então perdeu os sentidos por alguns segundos ou minutos. Nunca soube como saiu do prédio. As primeiras coisas de que se deu conta, ao recobrar a consciência, foi que vagou pela horta da missão, em seus trajes íntimos, com pequenos cortes sangrando em seu flanco esquerdo; que todos os edifícios a seu redor haviam desmoronado, à exceção da casa dos jesuítas, que tempos antes um padre chamado Gropper escorara mais de uma vez, com medo dos terremotos; que o dia escurecera; e que a Murata- san, a governanta, estava perto dele, gritando sem cessar: “ Shu Jesusu, awaremi tamai ! Nosso Senhor Jesus, tenha piedade de nós!”.

Terufumi Sasaki
“Encontrava-se a um passo de uma janela aberta quando o clarão da bomba se refletiu no corredor como um gigantesco flash fotográfico. Agachou-se rapidamente, apoiando-se no joelho, e, como só um japonês diria, falou para si mesmo: “Ssaki, gambare! Coragem!”. Os óculos do médico voaram longe; o frasco de sangue que segurava se espatifou contra a parede; as sandálias saíram-lhe dos pés – mas isso foi tudo que lhe aconteceu, graças à posição em que ele se encontrava”.

Ficha Técnica
Nome: Hiroshima
Editora: Companhia das Letras
Autor: John Hersey
Tradução: Hildegard Feist
País: EUA
Ano: 1946/1985
Páginas: 176