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Artigo
Os hibakushas brasileiros
Por Roberto Sagawa
10/09/2015
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As bombas atômicas detonadas em Hiroshima, no dia 6 de agosto de 1945, e em Nagazaki, em 9 de agosto de 1945, têm uma história que se prolonga também até o Brasil. Tornou-se um costume na mídia brasileira e japonesa fazer reportagens sobre a cerimônia ritual que é realizada, a cada ano, com início exatamente na hora em que caíram as duas bombas atômicas. Neste sentido, os sobreviventes japoneses que imigraram para o Brasil passaram a merecer reportagens, entrevistas e depoimentos, nas últimas décadas, com um raro senso de continuidade histórica, contrariando a voracidade instantânea do jornalismo padrão ou convencional.

Os quatro hibakushas

1-Takashi Morita, hoje com 91 anos, tinha 21 anos quando caiu a bomba atômica em Hiroshima. Ele era policial e estava com outros policiais no centro da cidade. Ele viu o lampejo da explosão que o atingiu nas costas, estando a 1,3 quilômetro de distância do epicentro da explosão. Em seu depoimento, diz: “Lembro de cada detalhe daquele dia como se fosse hoje. Vi, vivi e senti tudo de perto. Foi o inferno. O dia estava ensolarado e muito bonito. Havia muitas crianças na rua. Fui empurrado para longe e, quando consegui levantar, vi um clarão forte. Depois, veio a chuva preta. Desesperadas por água, as pessoas engoliam a radiação preta que vinha das nuvens porque achavam que aquilo iria acabar com a sensação de sede que sentiam. Ao meu redor, várias pessoas, inclusive crianças, gritavam por socorro. Eu só conseguia pensar: a maioria morreu e eu me salvei. O terror era absoluto. Ninguém tinha ideia do que estava acontecendo” (Cavalcanti, 2011). Mesmo com ferimentos graves, o jovem policial Takashi Morita ajudou os outros feridos, mas acabou sendo obrigado pela dor, que estava sentindo dos seus ferimentos, a ser hospitalizado. Takashi e sua esposa, que também é hibakusha, desembarcaram no Brasil em 1956 e tiveram dois filhos.

2- Yassuko Saito, 68 anos, filha de Takashi Morita, relatou assim:
"Eu nasci no Japão dois anos depois das bombas. Um dia perguntei ao meu pai, Takashi Morita: "Como o senhor teve coragem de ter uma filha quando diziam que ninguém atingido pela bomba sobreviveria mais de dois anos?". "Ele respondeu que conheceu a minha mãe, que também era uma sobrevivente, logo depois do ataque. Ele viu que as plantas e o capim estavam nascendo e crescendo em Hiroshima e achou que não teria problema (ter filhos)".  (Kawaguti, 2015).

3- Junko Watanabe, 67 anos, tinha apenas 2 anos na época do bombardeio atômico em Hiroshima. Na manhã de 6 de agosto de 1945, ela estava em casa, distante 18 quilômetros do epicentro da explosão e se lembra da chuva negra que banhou a cidade com a radiação atômica. Ela teve uma forte diarreia. Seus familiares também tiveram diarreia. Em 1967, ela imigrou para o Brasil e se casou com um japonês que já morava aqui. Deste casamento ela teve dois filhos sadios, que não sofreram nenhum efeito da radiação atômica que ela sofreu em 1945.

4- Kunihiko Bonkohara, 67 anos, tinha 5 anos quando caiu a bomba atômica em Hiroshima. A sua casa ficava a 2 quilômetros do epicentro da explosão atômica. O seu pai o escondeu debaixo de uma mesa, mas a sua mãe e sua irmã foram mais expostas à radiação nuclear, não resistiram e morreram. Alguns anos mais tarde, seu pai morreu de câncer. A sua casa foi uma das poucas na rua que não se incendiaram com o impacto da explosão. Kunihiko teve o corpo perfurado por estilhaços de vidro. Depois, surgiram ferimentos com pus pelo corpo, teve tuberculose e desmaios constantes. Conseguiu superar todos esses problemas de saúde e, na sua velhice, se considerou curado e saudável.

Uma militância anti-nuclear

Hibakusha é um termo da língua japonesa para as vítimas da bomba atômica. Cerca de 270 delas imigraram para o Brasil, ao longo das décadas seguintes. Passaram a chamar a atenção pública quando se organizaram em uma Ong, a Associação Hibakusha Brasil pela Paz, em 1984. Hoje, restam 107 membros da associação, os demais faleceram.

O que chama a atenção é que os hibakushas brasileiros passaram a reivindicar do governo japonês a assistência médica durante a velhice, o que eles não tinham assegurado de forma equivalente ao que às vítimas residentes no Japão vinham obtendo. Foi movido, no Japão, um processo judicial contra o governo japonês, pelos hibakushas brasileiros.

“O problema é que a Lei de Suporte às Vítimas da Bomba Atômica, datada de 1957 e modificada por um decreto em 1974, restringia os benefícios financeiros e médicos aos hibakushas que continuavam morando no Japão. Quem passasse a residir no exterior perderia o direito ao dinheiro. O texto foi modificado apenas em 2002, quando o governo japonês expandiu os direitos aos japoneses residentes fora do Japão. Só há poucos anos os japoneses residentes no Brasil passaram a usufruir desses direitos.

“Hoje, de acordo com o governo japonês, há 3,5 mil hibakushas cadastrados no Ministério da Saúde – eles receberam uma caderneta mediante a qual obtêm tratamento médico gratuito em qualquer parte do Japão, com direito a consultas, exames e, se for o caso, cirurgias. Entretanto, as vítimas são obrigadas a ir até seu país de origem para fazer jus a esse benefício, pois não há hospitais e clínicas cadastrados no Brasil” (Gallo, 2015).

Como se vê, o resultado obtido pelo processo judicial dos hibakushas brasileiros contra o governo japonês foi parcial, mas o mais importante da luta dessa associação foi além do resultado imediato ou prático, foi a possibilidade de continuar lutando contra a bomba atômica, de forma organizada e militante, chamando muito a atenção inclusive pelo fato de todos eles serem idosos, mas muito animados, cheios de energia e idealismo.

Os hibakushas brasileiros continuam lutando não só contra as bombas atômicas, mas também contra qualquer uso da energia nuclear, inclusive para gerar eletricidade, tanto no Brasil quanto no Japão. É a luta pelo pacificismo, pelo desarmamento nuclear em todas as suas formas, militares e civis.

O premiê japonês Shinzo Abe vem propondo afrouxar as proibições e restrições militares no Japão, o que é criticado pelos hibakushas brasileiros como Yasuko Saito, de 68 anos, uma das diretoras da Associação Hibakusha Brasil pela Paz, na medida em que se reverteria o caráter pacifista da Constituição japonesa.  

Em visita ao Brasil em agosto de 2014,
Shinzo Abe foi recebido por manifestações de rua lideradas pelos hibakushas brasileiros contra as iniciativas do governo japonês de incentivar o militarismo, de um lado, e, de outro lado, o uso de usina nuclear para gerar eletricidade.


Os cidadãos japoneses são conhecidos por serem discretos, ordeiros e até mesmo tímidos, mas os assuntos de bomba atômica e uso de energia nuclear mobilizam os hibakushas brasileiros, que não se deixam intimidar pela autoridade do premiê como representante do governo e se manifestam publicamente para chamar a atenção das autoridades, assim como da opinião pública muitas vezes indiferente ou distante desse assunto estratégico e alarmante.

Uma outra intervenção militante da Associação Hibakusha Brasil pela Paz são palestras nas escolas da cidade de São Paulo para expor suas experiências de vítimas das bombas atômicas e divulgar sua luta contra todo e qualquer tipo de uso de energia nuclear no Brasil e no Japão. Os membros da associação são todos já idosos, mas assumem essa tarefa com energia e vivacidade, e não deixam de atender a nenhum dos vários e frequentes pedidos feitos pelas escolas.

Militar contra quem?

As bombas atômicas detonadas em Hiroshima e Nagazaki não foram as primeiras armas utilizadas para destruição em massa, mas pela primeira vez na história da humanidade, ficou evidente que havia sido criada a mais poderosa e mortífera arma de destruição de vida do planeta. Nada justifica, até hoje, o seu uso arbitrário pelos Estados Unidos contra qualquer país na II Guerra Mundial. A bomba atômica não é uma arma qualquer de guerra, mas é uma arma de destruição do planeta, incluindo toda a humanidade. Então, não poderia estar nas mãos de um presidente de qualquer país, e tampouco nas mãos de uma autoridade militar, a decisão sobre seu uso. Não deveria ser um assunto de interesse estratégico-militar de um único país, mas de uma instituição que representasse os interesses de toda a humanidade, o que não tem acontecido na ONU, dominada hegemonicamente pelos interesses de poder dos Estados Unidos.

O assunto é tão importante para a humanidade que deveria ser objeto de reflexão constante, não apenas por parte de autoridades constituídas, mas também por parte da população em geral, que costuma ser acomodada, desinteressada ou indiferente. Mesmo os militantes organizados, como é o caso dos hibakushas brasileiros, precisam tomar todo o cuidado para não assumir o puro vitimismo. É importante mostrar que até hoje há vítimas das bombas, vítimas das usinas nucleares, mas não se fixar no nível de vítima simplesmente, do coitadinho indefeso que não pode fazer nada mais do que protestar e dar depoimentos ou fazer manifestações de rua.

Está faltando ainda fazer com que o ativismo militante do pacificismo se dê conta de que o inimigo não é apenas a bomba ou a usina nuclear de uso civil, mas é também o militarismo, o autoritarismo, o imperialismo dos donos do poder, que impõem decisões arbitrárias e maléficas.

Não basta haver o ativismo, o militantismo, o engajamento de meia dúzia, os protestos e as manifestações de rua. É preciso que o pacifismo e o militarismo imperialista sejam desmascarados. Isto quer dizer que desejar a paz significa sobretudo lutar contra o imperialismo autoritário que faz a guerra e a destruição do homem.


Roberto Sagawa é professor Livre Docente no Departamento de Psicologia Clínica da Unesp e psicanalista formado pela Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.



Referências bibliográficas
Cavalcanti, Bruna. Esse homem escapou de Hiroshima. Isto é, edição 2158, 18 de março de 2011, São Paulo.
Gallo, Rodrigo. “Os filhos do átomo”. Portal Ciência e Vida, Revista Leituras da História, edição n.84, 2015.
Kawaguti, Luis. Sobreviventes de Hiroshima e Nagasaki lutam contra energia nuclear no Brasil. BBC Brasil, São Paulo, em 9 de agosto de 2015.
Nagasawa, Junichiro.  Hibakusha in Brasil seek more financial aid from Tokyo. The Japan Times News, Tokyo, 27 de agosto de 2014.