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Olimpíadas de conhecimento - Carlos Vogt
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Olimpíadas júnior: despertando o gosto pela ciência na adolescência
Carolina Medeiros e Tássia Biazon
Desafiando a língua: um estímulo à leitura e ao pensamento analítico
Chris Bueno
Olimpíada de Neurociências estimula curiosidade científica nas escolas
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Voluntariado, gratuidade e integração de conhecimentos na Olimpíada de Robótica
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Ensino e aprendizagem da geometria: uma proposta metodológica em projeto de extensão
Mariane K. Giareta, Neuza T. Oro, Rosa M. T. Rico, Milene Giaretta e Alessandra C. Rüedell
Desigualdades sociais e de desempenho nas olimpíadas de ciências
Flavia Rezende e Fernanda Ostermann
Olimpíada Internacional de Ciências da Terra, uma ferramenta para estimular o ensino
Roberto Greco, Luiz A. C. N. Ifanger e Carolina Baldin
O significado das olimpíadas científicas para professores e estudantes da educação básica
Ana L. de Quadros e Gilson de F. Silva
A contribuição das olimpíadas de ciências no Instituto Federal do Amazonas
Fabiano Waldez, Manuel R. S. Rabelo e Ronaldo C. da Silva
Resenha
Tantos anos luz
Denise Lourenço
Entrevista
Cristina Meneguello
Entrevistado por Kátia Kishi
Poema
Crime e castigo
Carlos Vogt
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Entrevistas
Cristina Meneguello
A Olimpíada Nacional em História do Brasil (ONHB) surgiu em 2009 e já se consolidou nos calendários escolares de todo o país, como apresenta Cristina Meneguello, coordenadora da ONHB e historiadora da Unicamp. Ela destaca que a ONHB é uma competição em equipe, composta por três alunos, que podem ser da oitava série do ensino fundamental até o terceiro ano do ensino médio, e um professor de história. Juntos, eles competem em cinco fases online com duração de uma semana cada, e uma prova dissertativa final na Unicamp. Com participações em igual proporção de alunos do ensino público e privado, a ONHB também permite a simulação das atividades de um historiador, oferecendo como base das questões documentos históricos como mapas, fotos, charges e quadros.
Kátia Kishi
10/10/2015
Como é a participação das escolas? No regulamento é exigida a representação de todos os estados e taxas menores para escolas públicas, por exemplo.

A participação de todos os estados é espontânea. No início, pensamos que teríamos que criar algum mecanismo para garantir representatividade de todos os estados na última fase, e foi um engano nosso. Todos os estados participam e entram nas finais. Temos uma visão um pouco deturpada de “sudeste maravilha”, longe da realidade. Os estados que mais se destacam na ONHB são o Ceará e Rio Grande do Norte, que em todos os anos foram medalhistas de ouro. A olimpíada também nos mostrou que o estado de São Paulo está muito aquém do nível de história que gostaríamos.

Por que o desempenho do estado de São Paulo está aquém do esperado?

air max pas cher nike shop online air max bw femme pas cher nike jordan pas cher chaussure nike tennis air max bw femme pas cher Os princípios que regem a educação do estado de São Paulo são péssimos! Não só para as ciências humanas, mas de forma geral, e isso ficou muito claro para nós esse ano. Abrimos a olimpíada com uma quantidade enorme de participantes de São Paulo, porque é o mais populoso, porém, quando chega na 3ª para a 4ª fase, temos mais participantes do Nordeste. O que significa que os nossos estudantes são fracos. Só colégios “top de linha” de São Paulo conseguem acompanhar, os do ensino público, não.

A ONHB tem o diferencial da participação do professor nas equipes. Como você vê o papel do professor na competição?

Sempre pensamos no professor participando como um capitão da equipe. Ele não sequestra o processo e fala a resposta certa, inclusive, porque, às vezes o professor erra. Mas os estudantes começam a ver que ele está lá para ensinar e participar.

A olimpíada não é uma prova, é um processo de aprendizagem porque não se mede o quanto a pessoa sabe, e sim o quanto ela consegue aprender naquele prazo, sendo bastante democrática. Vemos alunos desacreditados de si próprios. Eles falam “nossa, jamais imaginei que chegaria à final ou ganharia essa medalha”. Este ano um professor de Valença (BA) disse que um dos seus alunos, que ganhou medalha de ouro, é filho de uma servente de pedreiro, órfão de pai, viaja quatro, cinco horas para chegar à escola e não tem computador em casa. Mas em sala de aula, fazendo a prova, ele foi passando de fase com os colegas até chegar à final. O que significa isso na vida desse menino, que soluçava quando ganhou a medalha, é uma coisa transformadora.

Como é o suporte e o curso de formação continuada para os professores que a ONHB oferece?

Colocamos um “Para saber mais”, com dicas de filmes e artigos científicos, como uma renovação para os professores, que muitas vezes estão afastados da universidade e trabalhando com material apostilado ruim. O curso é separado da olimpíada. No primeiro ano, o tema foi ensino de história da África, uma matéria obrigatória no ensino médio, mas que os professores não têm na formação. Eu sou formada em história e nunca aprendi na graduação. Ano passado, o assunto foi o marco dos 50 anos do golpe militar no Brasil. Agora, estamos preparando um curso sobre ensino de história dos índios. Fazemos um material que os professores podem usar, gravamos vídeos de 15 a 20 minutos pela TV Unicamp, e outros materiais. Eles também recebem um certificado como curso de extensão depois de entregar um plano de aula sobre o tema. Os 50 melhores planos são disponibilizarmos online, para ajudar outros colegas.

Esse curso de formação dos professores é a distância?

Sim. Mas na final da olimpíada também fazemos um curso de uma semana para os 32 professores das equipes que se destacaram. Os professores-alunos adoram! Batizaram carinhosamente como “tendo aula com a bibliografia”, porque o Departamento de História da Unicamp é muito bem conceituado. Queríamos receber mais pessoas, porém, percebemos que o efeito é melhor para uma turma menor, ao contrário do que eles estão acostumados nas “reciclagens” das secretarias de educação. Uma porcentagem enorme de professores que participara volta a estudar, seja mestrado ou doutorado. Já temos cinco teses defendidas ou em desenvolvimento sobre a ONHB, importante para nos enxergamos de outra forma também.

Como a ONBH tem incentivado os alunos para o estudo e valorização da história ou ciências humanas no geral?

Observamos uma influência positiva para os professores e alunos. Mas o objetivo da ONBH não é que todos virem historiadores – nem há necessidade disso –, mas sim a formação cultural em termos de cidadania. Tanto que recebemos muitos e-mails de “ex-olímpicos” dizendo que entraram em cursos de outras áreas, mas continuam adorando história. Por outro lado, também temos na graduação muitos alunos que vieram fazer história por causa da olimpíada, e até que já são “professores olímpicos”.

Alguns estudos como o artigo “Olimpíadas de ciência: uma prática em questão” publicado pela revista Ciência & Educação (v.18, n.1, 2012), questionam se a prática das olimpíadas não é mais excludente aos alunos de escolas públicas. Qual o seu posicionamento sobre isso?

Discordo completamente de que as olimpíadas possam gerar exclusão ou qualquer malefício no sistema de aprendizagem. Observamos que as críticas vêm de pessoas de dentro da academia que só falam teoricamente do ensino básico e, geralmente, não entendem o que são as olimpíadas e nem os seus benefícios. Diversos trabalhos apresentados em eventos que participamos comprovam que, mais do que o trabalho durante a sala de aula, deve-se incentivar o que o aluno vai fazer depois ou antes, como o clube de astronomia, uma visita ao museu ou mostra científica e também as olimpíadas, porque é no ensino paralelo que o aluno realmente desabrocha. Ser contra esse ensino extraclasse é estar desatualizado no que há de mais importante no ensino e aprendizagem.

Esse artigo apontava que a exclusão pode ocorrer no caso de escolas que escolhem quais alunos vão representá-los, e que às vezes são os mesmo para várias olimpíadas diferentes, sem dar oportunidade para outros.

Nesse caso o erro é da escola que quer usar as olimpíadas como moeda de troca. Pensando nisso, na final distribuímos medalhas de ouro para 15 equipes, prata para 25 equipes e bronze para 35 equipes, assim, ninguém consegue falar “Eu sou a medalha de ouro da Olimpíada de História”. Temos a classificação, mas não a divulgamos.

A ONBH aborda vários tópicos da história do Brasil. Como tem sido a experiência de os alunos conheceram a história de outras regiões brasileiras?

Essa parte é a mais legal porque não se pode falar da história do Brasil se de fato não se conhece características de todas as regiões. Os alunos produzem tarefas que são redistribuídas entre os próprios participantes de diferentes regiões que vão corrigir. Este ano o tema era preconceito, e eles tinham que entrevistar uma pessoa que sofreu algum tipo de preconceito e contar o que a pessoa tinha sofrido, embasando em leis contra o racismo etc. Os alunos descobrem um país por meio de colegas da mesma idade, contando como é na cidade deles, quebrando a ideia de história regionalizada.

Essas tarefas estão em todas as fases?

Sim. Temos tarefas menores, como o “Migalhas”, que escondemos números em uma figura e os ensinamos a ler uma imagem. Também fazemos uma linha do tempo e uma “super tarefa”, que é uma reportagem que eles carregam em nosso site com imagens e textos. Este ano foi sobre o preconceito, mas já fizemos sobre ofícios em extinção, problemas mais graves do município, entre outros. Isso abre a cabeça deles e os unem ao perceberem outras realidades.

Quantas pessoas estão envolvidas na organização do evento?

Eu sou a coordenadora e a coordenadora associada é a Alessandra Pedro. A prova com 60 questões é elaborada por 12 alunos de doutorado. Ela segue para uma revisão pelos meus colegas de departamento e depois por doutores em história de outros departamentos do país, sempre com muito sigilo. Também contratamos uma empresa para disponibilizar a prova online porque temos um milhão de acessos na primeira semana, e isso hoje é uma das despesas mais caras. As tarefas são corrigidas por 30 ou 40 pós-graduandos. Na fase final, presencial, temos a colaboração de mais 70 graduandos da Unicamp.

E quais os desafios para os próximos anos?

Desde a primeira vez que a ONHB concorreu ao edital de olimpíadas do CNPq foi contemplada com verba. Não é uma verba vultosa, mas conseguimos, com certa dose de sacrifício, fazer a olimpíada todos os anos. O prognóstico é continuar. A Olimpíada de História é, hoje, o maior programa de extensão da Unicamp ligado à educação básica e reúne cerca de cinquenta mil alunos por ano. Porém, estamos preocupados com os cortes anunciados para as olimpíadas, feiras e mostras científicas. Temos uma taxa de inscrição, que nos permite continuar, mas vai sofrer uma redução drástica se o CNPq parar de nos apoiar.

Seriam reduções no número de participantes?

Na parte online, não. Uma plataforma que sustenta 10, sustenta 50 e sustenta 50 mil pessoas. Se tivermos cortes será na fase final, e em vez de chamar 1200 pessoas vamos chamar 100 ou 200. Mas não vamos parar! Vamos fazer o possível para buscar outros apoios.