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Olimpíadas de conhecimento - Carlos Vogt
Reportagens
Olimpíadas júnior: despertando o gosto pela ciência na adolescência
Carolina Medeiros e Tássia Biazon
Desafiando a língua: um estímulo à leitura e ao pensamento analítico
Chris Bueno
Olimpíada de Neurociências estimula curiosidade científica nas escolas
Erik Nardini e Cecília Café-Mendes
Olimpíadas de Astronomia se fortalecem no Brasil
Fernanda Grael
Voluntariado, gratuidade e integração de conhecimentos na Olimpíada de Robótica
Sarah Schmidt
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Ensino e aprendizagem da geometria: uma proposta metodológica em projeto de extensão
Mariane K. Giareta, Neuza T. Oro, Rosa M. T. Rico, Milene Giaretta e Alessandra C. Rüedell
Desigualdades sociais e de desempenho nas olimpíadas de ciências
Flavia Rezende e Fernanda Ostermann
Olimpíada Internacional de Ciências da Terra, uma ferramenta para estimular o ensino
Roberto Greco, Luiz A. C. N. Ifanger e Carolina Baldin
O significado das olimpíadas científicas para professores e estudantes da educação básica
Ana L. de Quadros e Gilson de F. Silva
A contribuição das olimpíadas de ciências no Instituto Federal do Amazonas
Fabiano Waldez, Manuel R. S. Rabelo e Ronaldo C. da Silva
Resenha
Tantos anos luz
Denise Lourenço
Entrevista
Cristina Meneguello
Entrevistado por Kátia Kishi
Poema
Crime e castigo
Carlos Vogt
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Reportagem
Olimpíadas júnior: despertando o gosto pela ciência na adolescência
Por Carolina Medeiros e Tássia Biazon
10/10/2015
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Os Jogos Olímpicos que acontecerão no Rio de Janeiro em 2016 é um evento sobre o qual a maioria dos brasileiros com certeza tem conhecimento. Além de muito divulgado, a população se impressiona com o condicionamento físico de um ginasta ao realizar um salto duplo twist carpado, a agilidade nas braçadas do nadador ao atravessar uma piscina olímpica em segundos, a concentração para que a bola no tênis de mesa não fuja das vistas. Mas não são tantos os que conhecem as olimpíadas científicas, aquelas que exercitam o principal órgão do corpo humano, o cérebro. Na tentativa de incentivar mais jovens a se interessar por ciência e tecnologia e, como consequência, a participar das olimpíadas científicas nas mais diversas áreas do conhecimento, destaca-se a Olimpíada Internacional Júnior de Ciência (IJSO – International Junior Science Olympiad), que integra o conhecimento científico numa única competição, expondo os alunos à resolução de problemas, pensamento crítico e experimentação relacionados à ciência.

As olimpíadas científicas são um espaço onde a mente consegue expor suas habilidades cognitivas e estão se revelando cada vez mais como um caminho para despertar o interesse dos jovens pelo conhecimento. É onde os alunos se veem superando limites, vencendo desafios, e alcançando conquistas. São competições destinadas a estudantes do ensino fundamental ou médio e, por vezes, alunos do primeiro ano da universidade, com o objetivo de incentivar e encontrar talentos nas diversas áreas do conhecimento.

A fase da adolescência é o cenário da difícil tarefa do indivíduo de conquistar uma identidade própria, e quanto mais informações esse indivíduo interiorizar mais plena será a formação de sua identidade. Os eventos olímpicos científicos são aqueles que agregam muita informação ao aluno participante, modificando o seu olhar sobre o saber científico por toda sua vida, transformando sua personalidade.

O Brasil organiza anualmente várias olimpíadas, incluindo as destinadas exclusivamente para escolas públicas e as direcionadas para todas as escolas do país. Cada evento aborda uma área específica como, por exemplo, biologia, física, química, informática, geografia e matemática. E embora esses eventos se mostrem cada vez mais fundamentais como propulsores do conhecimento em alunos do ensino básico, ainda há uma deficiência de acesso a essas olimpíadas por toda a população jovem do país.

O último estudo “Percepção Pública da Ciência e Tecnologia no Brasil” (2015), organizado pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE) em parceria com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), analisou a percepção dos brasileiros sobre ciência e tecnologia (C&T) e mostrou que 20% dos entrevistados já participaram de alguma feira ou olimpíada científica nos últimos 12 meses. Embora o contingente tenha aumentado nos últimos anos, ainda é um percentual baixo. Em 2006, essa fatia era de 13%, segundo dados da pesquisa nacional “Percepção Pública da Ciência e Tecnologia” promovida pelo MCTI, com a parceria da Academia Brasileira de Ciências.

Interdisciplinaridade
Os levantamentos do MCTI envolvem toda a população adulta do país. O salto percentual apontado acima, embora ainda seja pequeno, já é reflexo do crescimento das olimpíadas científicas na última década. A IJSO, por exemplo, foi criada em 2004. Trata-se de uma competição de ciências que se diferencia de outras olimpíadas pela abordagem que permite o desenvolvimento de problemas de maneira interdisciplinar. Os temas são variados, entre eles: “sobrevivência no meio-ambiente”, “como a vida começa”, “estudo do universo”, “ciência e tecnologia”, “mantendo-se saudável”, “do que as coisas são feitas”. As competições incluem testes com perguntas teóricas e atividades práticas, avaliando a compreensão e aplicação dos conceitos dominados pelos estudantes.

A primeira IJSO aconteceu em dezembro de 2004, em Jacarta, na Indonésia. O Brasil foi sede da terceira edição. Em 2015, acontecerá a 12ª edição, em Daegu, na Coreia do Sul. Ao longo dos anos, a olímpiada vem crescendo expressivamente, atingindo na 11ª edição, em Mendoza, na Argentina, a casa de 50 países participantes. Os países asiáticos são destaque na competição, sendo os maiores vencedores Taiwan, Coreia do Sul, Indonésia e Rússia. Dentre os primeiros colocados também costumam figurar Alemanha, Tailândia e Singapura. O Brasil participou de todas as edições do IJSO, sempre com progressões, obtendo a 25º posição na primeira edição, e na última, ficando entre os dez primeiros colocados.

A delegação que representa o país anualmente na IJSO é formada pelos alunos de até 15 anos que vencem a Olimpíada Brasileira de Ciência (OBC), uma competição realizada em duas etapas, a primeira nos próprios colégios participantes, através do site da OBC. Em seguida, na fase final, os melhores colocados da fase anterior, durante três horas e meia, são avaliados por uma prova com 30 questões testes e 12 questões dissertativas. Todos os colégios e alunos participantes recebem certificados e premiações; porém, somente os seis melhores alunos da OBC são escolhidos para representar o país na competição internacional.

Mas os méritos vão além das medalhas e certificados. Testar conhecimentos e adquirir autoestima são os benefícios levados em conta por muitos professores, como Claudia Blumer de Castro, coordenadora do ensino médio da escola pública estadual Hedy Madalena Bocchi, da cidade de Hortolândia, no interior de São Paulo. “A participação do aluno em olimpíadas científicas é uma oportunidade para descobrir o quanto ele sabe sobre a matéria, melhorar a autoestima e o protagonismo, alimentar o sentimento de ser capaz em realizar as coisas; e para a escola, é a oportunidade de visualizar a qualidade do seu trabalho pedagógico, obtendo uma avaliação de seu ensino, visualizando quais competências e habilidades estão sendo mais ou menos desenvolvidas”, defende.

Há ainda outros benefícios apontados por Luiz Carlos Cappellano, coordenador do Programa Mais Educação em Campinas, uma parceria entre o Ministério da Educação (MEC) e a Secretaria Municipal de Educação, para os jovens que participam de competições como a IJSO. Um deles é a preparação para iniciativas como bolsas de estudo na graduação. “Ainda que estejamos falando em ensino fundamental, poderíamos comparar essas olimpíadas e demais iniciativas às bolsas de iniciação científica em nível superior, pois está em pauta a preparação para participar das mesmas (estudo e pesquisa) e o esforço colaborativo das equipes”, pontua.

Contudo, Cappellano faz uma ressalva: embora as olimpíadas do conhecimento permitam aos jovens o desenvolvimento de ferramentas de estudo e pesquisa, além do hábito de leitura, que serão fundamentais para toda a vida, é importante não enfatizar o espírito competitivo. “Acredito que devamos priorizar o desenvolvimento de práticas colaborativas (sociais, em equipe) ao invés das meramente competitivas (até para não reforçar posturas e comportamentos exageradamente individualistas), mas esse aspecto não está descartado das olimpíadas de conhecimento, dependendo da maneira como são organizadas”, conclui.

Sobre o papel das escolas, Claudia de Castro destaca que na escola onde atua é realizada anualmente a divulgação das diversas olimpíadas brasileiras, porém ela ressalta a problemática dos professores das escolas públicas. "Às vezes, o professor não tem uma formação eficiente, e se sente coibido em participar de uma avaliação de alto nível”. Isso porque, na visão da coordenadora, os professores acumulam muito trabalho, atuam em duas ou três escolas, resultando em até 60 horas semanais de aulas; logo, o tempo exigido para a preparação para uma olimpíada fica escasso ou inexistente.

Mas mesmo diante das dificuldades, muitos alunos não se intimidam e participam em importantes competições olímpicas científicas. É o caso de Allan Antunes da Silva, Gabriel Henrique Fernandes da Silva e Stefanie dos Santos Pereira, respectivamente com 14, 15 e 16 anos, alunos do primeiro ano do ensino médio da escola estadual Hedy Madalena Bocchi. Participantes das Olimpíadas Brasileiras de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP), eles defendem a experiência como rica e estimulante.

Allan participa da OBMEP desde a quinta série. Em 2015, já estará em sua 5ª olimpíada de matemática, passando para a segunda fase três vezes, e recebendo duas vezes menção honrosa.  E, na expectativa de receber este ano novamente, ele descreve a participação como excelente. “Todos os alunos deveriam participar, mas não serem obrigados e sim incentivados, pois na segunda fase há pessoas que estão lá contra a vontade e acabam ocupando lugar de alguém que gostaria de ser finalista”, comenta o estudante. Ele diz que é muito atrativa a possibilidade de participar do Programa de Iniciação Científica Jr. (PIC), que visa apresentar a matemática básica a alunos com atividades orientadas por professores de instituições de ensino superior e pesquisa.

Muito entusiasmado, Allan diz que o fato de se destacar, mesmo que seja com menção honrosa, que é uma premiação além das medalhas de ouro, prata e bronze, para os estudantes mais bem colocados na OBMEP, você ainda ganha a confiança do professor, reconhecimento dos pais, familiares e amigos. “Ser competidor olímpico muda a vida, ajuda o aluno a melhor enfrentar e se destacar nas futuras competições, como numa vaga do vestibular ou emprego”, garante.

Já o estudante Gabriel diz que na primeira vez que participou das olimpíadas, não gostou muito, pois estudou bastante e alunos que não tinham estudado nada passaram de fase. “Como a primeira fase é só de alternativas, em minha percepção, ela não seleciona de maneira muito eficiente os alunos para a segunda fase”, comenta Gabriel, que obteve a melhor pontuação entre os alunos de sua escola na primeira fase da OBMEP deste ano. Allan defende que na primeira fase deveriam ter questões dissertativas mais básicas, além das alternativas; assim, ocorreria uma melhor seleção dos estudantes, pois muitos “chutam” as respostas e, às vezes, não têm conhecimento suficiente para estarem na segunda fase. Embora não tenha se saído muito bem na primeira vez que participou, Gabriel não desistiu e, ao participar pela segunda vez, motivou-se a competir sempre. “Tenho o espírito competitivo, gosto de atingir metas impostas e ver que eu tenho capacidade em alcançá-las”.

Stefanie, que além da OBMEP também já participou da Olimpíada de Português, diz que a cada ano que participa se interessa mais. Ela percebeu que começou a gostar ainda mais de matemática. “Não é uma prova comum, é um desafio, fora do cotidiano escolar. Só de participar e passar, mesmo que seja só pra segunda fase, já me sinto mais valorizada pelos professores. Incentivo a participação de outros alunos, pois assim eles podem pegar o gosto em aprender matemática”, defende a competidora.

Os três estudantes propõem a divulgação de outras olimpíadas na escola em que estudam. Allan gostaria que os professores motivassem a participação nas olimpíadas de português, astronomia e informática. Para Stefanie, seria interessante participar de competições de física e química, matérias que, além da matemática, são as que ela mais gosta. E Gabriel expõe sua vontade em ser desafiado na olimpíada de astronomia.

Todavia, participar dessas olimpíadas não é algo tão acessível, como destaca José Izidro Luiz Marques, coordenador do ensino médio da Escola Técnica Estadual (ETEC) de Hortolândia. Marques, embora defenda a importância da participação em olimpíadas científicas, ressalta que por conta da organização, a participação da escola acontece apenas na OBMEP, e considera que as demais olímpiadas não apresentam facilidades para que haja o consentimento e execução desse tipo de evento pelos coordenadores e professores. “A OBMEP distribui tudo pronto pra escola, com uma eficiente logística, organização, disponibilizando até o material de estudo aos alunos, facilitando o processo do próprio gestor da escola e a inscrição de todos os estudantes”, explica. Essa facilidade resultou, na 11ª edição da OBMEP, na inscrição dos 480 alunos da ETEC, e 31 fizeram a segunda fase.

Assim, o cenário necessita ser reformulado, com os organizadores desses eventos científicos, os professores e os coordenadores escolares promovendo uma maior abrangência e diversidade das olímpiadas em cada escola. E as realidades como dos alunos Allan, Gabriel e Stefanie, mostram que o mundo olímpico científico é resultado, principalmente, do esforço dos jovens estudantes, da motivação dos professores, da capacitação da direção escolar e da organização dos comitês olímpicos.

Daí a importância de acentuar o papel dos professores como articuladores para o interesse dos seus alunos em participarem de olimpíadas científicas e a importância da estrutura e eficiência das escolas em apresentar programas que desenvolvam gincanas científicas, aulas laboratoriais, jogos e dinâmicas, competições, e aperfeiçoar, expressivamente, as capacidades e habilidades cognitivas dos alunos, demonstrando na prática os conceitos teóricos.

As olimpíadas científicas proporcionam benefícios que vão além do aluno, e se expandem à escola, à sociedade, ao país. O aluno desperta o interesse e prazer em estudar, aumentando o rendimento e motivação escolar. A escola recebe prêmios e destaques na mídia, tornando-se exemplo educacional a ser implementado, com um modelo de ensino muito além do giz e da lousa. A sociedade adquire indivíduos mais pensantes e intervencionistas. O país desempenha crescimento intelectual e profissional, uma vez que um aluno olímpico de hoje possivelmente amanhã será um futuro profissional de destaque e, certamente, ganhará outros prêmios ao longo de toda sua vida, muito além de medalhas olímpicas.

O Brasil na Olimpíada Internacional Júnior de Ciências (IJSO)

Ano

País Sede

Ouro

Prata

Bronze

Classificação do Brasil

Países Participantes

2004

Indonésia

0

0

1

25

33

2005

Indonésia

0

3

1

12

33

2006

Brasil

0

2

2

14

30

2007

Taiwan

0

4

2

7

38

2008

Coreia do Sul

1

4

1

7

50

2009

Azerbaijão

0

3

3

-

45

2010

Nigéria

1

2

3

-

32

2011

África do Sul

0

3

3

-

39

2012

Irã

1

3

2

5

30

2013

Índia

0

5

1

-

42

Fonte: http://www.ijso.com.br/