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Desigualdades sociais e de desempenho nas olimpíadas de ciências
Flavia Rezende e Fernanda Ostermann
Olimpíada Internacional de Ciências da Terra, uma ferramenta para estimular o ensino
Roberto Greco, Luiz A. C. N. Ifanger e Carolina Baldin
O significado das olimpíadas científicas para professores e estudantes da educação básica
Ana L. de Quadros e Gilson de F. Silva
A contribuição das olimpíadas de ciências no Instituto Federal do Amazonas
Fabiano Waldez, Manuel R. S. Rabelo e Ronaldo C. da Silva
Resenha
Tantos anos luz
Denise Lourenço
Entrevista
Cristina Meneguello
Entrevistado por Kátia Kishi
Poema
Crime e castigo
Carlos Vogt
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Artigo
Olimpíada Internacional de Ciências da Terra, uma ferramenta para estimular o ensino
Por Roberto Greco, Luiz A. C. N. Ifanger e Carolina Baldin
10/10/2015

No âmbito das ciências naturais, algumas áreas, como a física, a química e a biologia, conseguiram conquistar seu espaço e na maior parte dos currículos escolares dos vários países aparece o nome dessas disciplinas com uma carga horária semanal atribuída por um ou mais anos no ensino médio. Isso acontece também com as ciências da Terra, mas só em alguns países como Itália, Espanha, Japão ou França. No Reino Unido, o alcance é de apenas uns poucos alunos que optam por essa disciplina. Na maioria dos outros países, os conteúdos de ciências da Terra estão embutidos em outras disciplinas, como ciências, ciências da natureza, geografia, química e física (King, 2008). É o caso do Brasil.

Esse quadro é preocupante, já que se faz mais urgente, a cada dia, que os futuros cidadãos entendam as complexas dinâmicas do nosso planeta para enfrentar a crescente dificuldade de manejo e distribuição de recursos naturais como água, minérios, e energia de forma sustentável, assim como aprender a lidar com os riscos naturais e as mudanças climáticas (Greco, Hlawatsch, Bronte, 2013).

Para tentar reverter essa situação, desde a década de 1990, um grupo de pesquisadores de vários países do mundo se juntou em uma instituição que, em 2015, foi finalmente registrada como organização não governamental na Índia: a International Geoscience Education Organization (IGEO). Dessa organização, fazem parte também professores brasileiros da Unicamp, da USP e da Unesp.

Essa organização tentou estimular a atenção sobre as ciências da Terra através de conferências internacionais que estão sendo organizadas a cada quatro anos. Sua última edição foi realizada na Índia em 2014, e a próxima será no Brasil em 2018. Foram ativados projetos de formação de professores, e o principal é o site Earth Learning Idea, que promove ideias para atividades que o professor pode realizar em sala de aula, as quais já se encontram traduzidas também em português brasileiro para um grupo de voluntários da Unicamp. Com periodicidade é realizado um levantamento sobre a situação do ensino das ciências da Terra em cada país e foi formulado um Syllabus internacional para facilitar a introdução da disciplina nos países que ainda não têm. É possível baixar esses documentos no site do IGEO.

Mas as atividades que proporcionam mais visibilidade são, com certeza, as realizadas pela International Earth Science Olympiad (IESO). É uma competição científica internacional formulada no estilo das outras competições semelhantes, mas com especificidades particulares. As olimpíadas científicas internacionais são para alunos de ensino médio e já têm uma longa história. A primeira olimpíada internacional foi a de matemática, que surgiu em 1959, na Romênia, e após poucos anos, surgiram as olimpíadas internacionais de física e química.

Olimpíadas Internacionais de Ciências

 

 

 

Primeiro país sede

 

Primeira edição

 

País sede em 2015

 

Número de países participantes em 2015

 

País sede em 2016

 

International Mathematical Olympiad – IMO http://www.imo-official.org/

 

Romênia

 

1959

 

Tailândia

 

104

 

Hong Kong

 

International Phisics Olympiad – IphO

http://ipho.phy.ntnu.edu.tw/

 

Polônia

 

1967

 

Índia

 

72

 

Suíça

 

International Chemistry Olympiad – IchO

http://www.icho.sk/

 

Tchecoslováquia

 

1968

 

Azerbaijão

 

75

 

Paquistão

 

International Olympiad in Informatics – IOI

http://www.ioinformatics.org

 

 

Bulgária

 

1989

 

Cazaquistão

 

83

 

Rússia

 

International Biology Olympiad – IBO

http://www.ibo-info.org/

 

 

Tchecoslováquia

 

1990

 

Dinamarca

 

62

 

Vietnã

 

International Astronomy Olympiad – IAO

http://www.issp.ac.ru/iao/

 

 

Rússia

 

 

1996

 

 

Rússia

 

 

Evento ainda não realizado

 

 

Bulgária

 

 

International Geography Olympiad – iGeO

http://www.geoolympiad.org/

 

 

Holanda

 

1996

 

Rússia

 

40

 

China

 

International Junior Science Olympiad

(under 15 years old) –IJSO http://www.ijso.ir/

 

Indonésia

 

 

2004

 

 

Coreia do Sul

 

 

 

Evento ainda não realizado

 

 

Ainda a ser definido

 

 

International Olympiad on Astronomy and Astrophysics IOAA.

 

 

Tailândia

 

2007

 

Indonésia

 

39

 

Índia

 

 

International Earth Science Olympiad – IESO

http://www.ieso-info.org/

 

 

Coreia do Sul

 

2007

 

Brasil

 

22

 

Japão


A IESO é a mais nova das olimpíadas científicas internacionais, tendo surgido apenas em 2007. Seu objetivo é estimular o interesse dos alunos e a atenção do público alvo para as ciências da Terra, assim como se pretende expandir o conhecimento dos alunos sobre essa disciplina. Muitos deles podem ter vocação para estudar ciências da Terra e a IESO é uma oportunidade para lhes dar espaço e valorizar suas paixões. Encontrar amigos de outros países com os mesmos interesses é uma oportunidade única. Para os professores, é a oportunidade para trocar entre si experiências, ideias e materiais de ensino.

A participação no evento internacional é só a ponta do iceberg. A base são as olimpíadas nacionais e essa é a parte mais interessante para se provocar efeitos locais de larga escala. As seleções nacionais podem ser feitas em uma ou mais etapas. Na Espanha, a seleção começou em 2010. Uma pesquisa foi feita com os alunos que participaram e o resultado de seus relatos é o de que para eles foi uma experiência desafiadora, mas que valeu a pena e gostariam de repetir (Calonge and Greco, 2011). Na Itália, a seleção é feita em três etapas e participam em média 400 escolas, e o número de alunos envolvidos pode ser traduzido em mais de 25.000 (Greco, 2009). Vários países possuem programa de treinamento para a seleção, cuja duração, em geral, é de uma ou duas semanas e feito em colaboração com universidades. Alguns países selecionam os alunos um ano antes, outros terminam a seleção pouco antes da fase internacional. Vários países recebem apoio institucional e econômico do governo, outros precisam utilizar recursos voluntários e patrocinadores particulares (Greco, Ifanger, 2014). O Brasil participa da IESO desde 2012, com uma equipe selecionada através da Olimpíada Brasileira de Agropecuária (OBAP), promovida pelo Instituto Federal Sul de Minas (IF Sul de Minas).

Na IESO, podem participar delegações de todos os países que têm uma seleção nacional reconhecida pelo seu ministério de educação. Já houve casos nos quais participaram simultaneamente países com situações políticas complicadas entre si, como Israel e países árabes, Rússia e Ucrânia, mas essa se apresenta como uma oportunidade a mais para abri-los para o diálogo e a compreensão recíproca, atuando em um tema de interesse comum. Cada país participante envia sua própria delegação nacional formada por quatro alunos e dois mentores. Os alunos devem ter no máximo 19 anos e não podem ser alunos de graduação: é pré-requisito que sejam alunos do ensino médio.

Os adultos que acompanham os alunos são chamados de mentores e devem estar aptos a fazerem parte dos jurados internacionais. Portanto, precisam ter conhecimentos da área das ciências da Terra e/ou sobre ensino de ciências da Terra. Os mentores necessitam falar a língua oficial da IESO, que é o inglês, e, se necessário, traduzir as provas e materiais do inglês para sua língua nativa. Para os alunos, é desejável, mas não é discriminatório o conhecimento do inglês, já que as provas podem ser traduzidas por seus mentores.

A competição da IESO consiste em uma parte teórica e uma parte prática. A parte teórica é formada por um conjunto de questões de múltipla escolha. A comissão internacional que elabora as provas faz referência ao syllabus da IESO. O foco dessa prova é baseado na abordagem sistêmica do planeta Terra. As questões tentam levar os alunos a enxergar as relações entre geosfera, hidrosfera, atmosfera e as influências astronômicas que atuam na Terra. As perguntas tentam se afastar do modelo de memorização para dar espaço ao raciocínio. Segue aqui um exemplo da prova da IESO 2015:

Para um determinado gás, a diminuição da temperatura aumenta a sua solubilidade em água. De que forma o aquecimento global influenciará as rochas carbonatadas na Terra? Escolha a afirmação correta abaixo. (Resposta correta = 0.5 pontos)
a) Aumentará somente a dissolução do calcário.
b) Aumentará a dissolução de todas as rochas carbonatadas.
c) Não terá efeitos na dissolução ou formação das rochas carbonatadas.
d) Aumentará a formação das rochas carbonatadas.

Com esse syllabus e essas tipologias de questões, se espera influenciar o sistema de seleção nas olimpíadas nacionais e também os currículos e a forma de ensinar a nível mundial. As provas práticas preveem atividades de observação, medidas e utilização de ferramentas de análise.

Além das provas competitivas na IESO, estão presentes duas outras atividades que estimulam a cooperação e a amizade entre os alunos. A primeira dessas atividades é o International Team Field Investigation (ITFI), que corresponde a uma pesquisa desenvolvida por um grupo de oito alunos, cada um de um país diferente. Eles têm que resolver uma questão e fornecer uma interpretação de um fenômeno natural. Portanto,  têm que coletar dados no campo, reunir-se para formular uma explicação e hipótese, resolver uma questão e apresentar o trabalho como se estivessem em um congresso científico. Os jurados internacionais avaliam esse trabalho e os melhores ganham um certificado. Uma das atividades do ITFI 2013 na Índia foi elencar os riscos ambientais associados a uma atividade de mineração e descrever as medidas adaptadas para prevenir ou reduzir o risco.

Outra atividade cooperativa é o Earth System Project (ESP). Essa atividade avalia a capacidade dos alunos de coletar e analisar dados, raciocinar, pensar de forma sistêmica, além de sua capacidade de comunicação e colaboração para realizar uma apresentação escrita e oral. No ano de 2015, o tema do ESP foi descrever de forma sistêmica a influência de El Niño em 2015 no Brasil.

No momento, a IESO é a única olimpíada científica internacional que inclui um trabalho em equipe. A IESO tem uma duração de uma a duas semanas, e, a cada ano, é organizada em um país diferente. O país organizador assume todos os gastos de alojamento, alimentação e transporte dos participantes desde a chegada ao país. Aos participantes, cabe arcar com a taxa de inscrição. Durante a IESO, além das provas, há a cerimônia de abertura e a premiação final, atividades culturais e visitas às escolas da região.

A lista a seguir relaciona as edições da IESO já realizadas, além da lista dos países que irão hospedar a IESO nos próximos anos:

2007 – 1a edição – Coreia do Sul. Tema: Earth for life, universe for future life
2008 – 2a edição – Filipinas. Tema: Cooperation in addressing climate changes
2009 – 3a edição – Taiwan. Tema: Human and environment
2010 – 4a edição – Indonésia. Tema: The present is the key to the future
2011 – 5a edição – Itália. Tema: Earth science renaissance: science, environment and art
2012 – 6a edição – Argentina. Tema: Energy, water and minerals for sustainable development
2013 – 7a edição – Índia
2014 – 8a edição – Espanha
2015 – 9a edição – Brasil. Tema: Soil
2016 – 10a edição – Japão
2017 – 11a edição – Noruega
2018 – 12a edição – Tailândia
2019 – 13a edição – Coreia do Sul

Até o momento, quarenta e cinco países participaram com equipes de alunos ou simplesmente com observadores. Mais de seiscentos alunos participaram das precedentes edições. A última edição da IESO foi realizada no Brasil, em Poços de Caldas (MG), entre 13 e 20 de setembro de 2015. Participaram 22 países, com alunos competidores, e outros cinco países com observadores. A organização do evento foi feita pelo IF Sul de Minas que, com a experiência adquirida com a OBAP e com uma equipe de funcionários jovens e muito motivados liderados pelo reitor Marcelo Bregagnoli, realizou um evento elogiado e parabenizado por todos os participantes. Isso, mesmo com o desafio de ter assumido o compromisso da organização apenas 10 meses antes do evento, devido à renúncia da Rússia.

Outras instituições que apoiaram o IF Sul de Minas foram: Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Universidade Federal de Rio de Janeiro (UFRJ), Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Universidade Federal de Alfenas (Unifal), Universidade Federal de Itajubá (Unifei), Universidade de São Paulo (USP), Prefeitura Municipal de Poços de Caldas, Ministério da Educação (MEC), Secretaria da Educação Profissional e Tecnológica (Setec) e International Geoscience Education Organization (IGEO).

A organização de uma olimpíada internacional necessita do envolvimento do MEC, de um levantamento considerável de recursos econômicos, além do comprometimento de uma equipe de pessoas voluntárias interessadas na organização. Dessa forma, nem sempre é fácil ter todas essas condições de forma conjunta. As limitações nos recursos afetam, em particular, a possibilidade de convidar equipes especialmente dos países em desenvolvimento, que precisam de ajuda de custo (Sellez Martinez, 2014).

O aluno melhor classificado neste ano foi o coreano, Seung Won Jung. Várias emissoras de televisão e jornalistas da mídia impressa fizeram reportagem sobre o evento. Além disso, a colaboração e a presença de representantes do MEC faz esperar que a atenção sobre essa área do conhecimento possa, aos poucos, crescer e ter mais espaço na escola e na formação dos professores.

Roberto Greco é vice-coordenador da IGEO, doutor pela Universitá degli Studi di Modena e Reggio Emilia e professor do Instituto de Geociências, Unicamp. E-mail: robertogreco01@yahoo.it

Luiz Anselmo Costa Nascimento Ifanger é mestre pelo Programa Pós Graduação em Ensino e História de Ciências da Terra do Instituto de Geociências da Unicamp e é doutorando no mesmo programa. E-mail: kiko_ifanger@yahoo.com.br

Carolina Baldin é mestre em entomologia pela Universidade de São Paulo e doutoranda do Programa de Pós graduação em Ensino e História de Ciências da Terra do Instituto de Geociências da Unicamp. E-mail: cacabaldin@yahoo.com.br

Referências bibliográficas

Calonge García, A.; Greco, R.. 2011. “Olimpiada Internacional de Ciencias de la Tierra (IESO): una oportunidad a la geologia”. Enseñanza de las Ciencias de la Tierra, 19(2): 130-140.
Greco, R.. 2009. “International Earth Science Olympiad – IESO 2009, Taiwan 14-22 Settembre 2009”, Geoitalia  nº29. Livorno, pp 22-30.
Greco, R.; Ifanger, L. A. C. N. 2014. “Análise de alguns casos nacionais de seleção e preparação para a International Earth Science Olympiad, IESO”. Terrae Didatica, v. 10, p. 274-282.
Greco, R.; Hlawatsch, S.; Bronte, N.. 2013. “The International Earth Science Olympiad (IESO): a way to raise public awareness of geoscience, particularly amongst younger people and enhance the quality of geocience education internationally”. Episodes, v. 36, p. 235-239.
King, C.. 2008. “Geoscience education: an overview”. Studies in Science Education, 44, 187 – 222.
Sellez-Martínez, J. 2014. “La 6a Olimpíada Internacional de Ciencias de la Tierra em Argentina: crónica de una experiencia compleja”,  Terrae Didatica, v. 10-3, p. 260-273.