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Editorial
O que é crowdfunding? - Carlos Vogt
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Financiamento coletivo na ciência promove interação com a sociedade
Fernanda Grael
Nem sempre dá certo! Os desafios das vaquinhas de internet
Tiago Alcantara
Alternativa para captação de recursos em projetos culturais exige esforço e planejamento
Erik Nardini
Todos por um: o mercado do financiamento coletivo no Brasil
Sarah Schmidt
Crowdfunding de investimentos: oportunidade e risco para empresários e investidores
Ricardo Manini
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A quem financiar? O fenômeno crowdfunding no Brasil
Rafael Lucian e Bartos Bernardes
“Ei você aí, me dá um dinheiro aí”
Uiara Gonçalves de Menezes e Marcia Dutra de Barcellos
Crowdfunding como ferramenta de financiamento da inovação
Vinícius Muraro da Silva
O potencial do crowdfunding como mecanismo de financiamento alternativo para o cinema brasileiro*
Karine Ruy e Vanessa Valiati
Crowdfunding: financiando o bem comum
Miguel Said Vieira
Resenha
A dignidade e a necessidade de pedir
Carolina Medeiros
Entrevista
Diego Reeberg
Entrevistado por Denise Lourenço
Poema
Ingratidão
Carlos Vogt
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Entrevistas
Diego Reeberg
Sócio fundador da Catarse, maior plataforma de crowdfunding do Brasil, desvenda os mitos do financiamento coletivo e seus meandros.
Denise Lourenço
10/12/2015
Já pensou em pedir dinheiro para pessoas desconhecidas financiarem um projeto que você não consegue tirar do papel? Você daria dinheiro para uma proposta que vai ao encontro de algo que você acredita? Sim, não, talvez? Pois saiba que músicos, cineastas, quadrinistas, gamers, designers, jornalistas, cientistas, empreendedores e ativistas já movimentaram cerca de R$ 37 milhões para mais de 2 mil projetos na Catarse, a maior plataforma de financiamento coletivo (crowdfunding) do Brasil. A área de ciência e tecnologia está longe de liderar o ranking de intentos mais subsidiados. Perde para arte, circo, quadrinhos, eventos, gastronomia, jogos e fotografia. Mas, ainda assim, movimentou R$ 700 mil com 23 projetos completamente custeados, nos últimos anos quatro anos. A ComCiência entrevistou Diego Reeberg, sócio fundador da plataforma (https://www.catarse.me) para entender os meandros que envolvem a conquista do sucesso quando o assunto diz respeito à arte de pedir o dinheiro alheio.

Por que o financiamento coletivo está se tornando um fenômeno social?

Para entender financiamento coletivo, precisamos pensar nas pessoas que precisam dos recursos e nas pessoas que resolvem apoiar. Quando começamos (com a Catarse), havia uma demanda menor, mas atualmente apareceram muitas pessoas que têm bons projetos engavetados e não conseguem tirá-los do papel como gostariam ou precisariam. Mas eu acho mesmo que o financiamento coletivo está crescendo porque o maior retorno não é apenas o dinheiro. O maior retorno, quando você traz um projeto a público, são os relacionamentos: a exposição, os contatos e a junção de pessoas que querem fazer algo, colaborando com dinheiro ou não. Mesmo quem contribui com dinheiro acaba ajudando o projeto de outras maneiras, como divulgação, por exemplo. Então, eu acho que o crowdfunding é muito menos algo que visa apenas ao dinheiro e muito mais sobre uma relação de trocas com o propósito de se aproximar de outras pessoas.

Há diferenças entre o que ocorre no Brasil e no mundo?

Nos Estados Unidos, por exemplo, as ações atingem um escopo muito maior. Eles conseguiram evoluir muito o financiamento para ciência e tecnologia, para o desenvolvimento de pesquisas e novos produtos. No Brasil, temos alguns casos de sucesso nessa modalidade, mas ainda estamos começando. Estamos apoiando um movimento que se chama “Dia de Doar”, em contraposição ao Black Friday. Isso já é forte fora do Brasil e estimula as pessoas a aderirem a uma “cultura de doação”, e entenderem que elas podem colaborar e fazer outras coisas além de comprar algo que não precisam só porque está um pouco mais barato. O financiamento coletivo tem força porque ele elimina uma barreira para as pessoas colaborarem de forma simples e segura. É muito fácil acessar uma página e passar por duas ou três etapas e contribuir com algo em que você acredita.

Você avalia que o financiamento coletivo chega a ser uma saída para as pesquisas acadêmicas ou científicas que não conseguem avançar por causa de cortes de recursos de agências tradicionais como Fapesp, Capes e CNPq?

Eu não gostaria de pensar que o financiamento coletivo é a única saída para essa situação, mas sem dúvida, ele aparece como um espaço complementar. As pessoas demonstram, por meio de apoios, o que elas querem ver realizado no mundo. É claro que, dependendo da especificidade da pesquisa, o financiamento coletivo vai ser um caminho difícil. Mas isso pode ser resolvido com um plano de comunicação adequado para fazer as pessoas entenderem porque é importante doar para aquela proposta. As agências tradicionais devem olhar para o financiamento coletivo para observar esse novo comportamento da sociedade e entender também quais são as demandas sociais reais. Estamos começando a experimentar parcerias na plataforma. Atualmente, há uma campanha para arrecadar fundos para uma pesquisa sobre MDMA no tratamento do estresse pós-traumático (MDMA for PTSD), para a qual metade do dinheiro virá de uma associação americana, caso os pesquisadores consigam arrecadar a outra metade na plataforma de financiamento coletivo. São soluções que se complementam.

Que fatores são decisivos para o sucesso de uma campanha de arrecadação coletiva? Você conseguiria montar um passo a passo para que uma boa ideia aumente suas chances de atingir a meta de arrecadação?

Eu enumeraria três pontos fundamentais. Primeiro, quem está propondo o projeto tem que ter muito brilho no olho e vontade de fazer o projeto acontecer. Tem que ser uma prioridade na vida do proponente, pelo menos durante aquele período em que a campanha está aberta. Segundo, o plano de comunicação precisa estar muito bem estruturado desde a fase de planejamento até a execução e fechamento da campanha. Esse é um dos grandes segredos. Precisa formatar tudo o que vai ocorrer dia a dia no período em que a campanha estiver no ar. Bons vídeos, bons textos, boas recompensas são fundamentais. Tem que dar atenção especial às recompensas, que são as trocas para incentivar as pessoas a doarem mais. Terceiro, uma sólida rede de contatos. É quase impossível emplacar um projeto se ninguém te conhece, você ainda não fez nada, ninguém sabe se você tem ou não capacidade para realizar o trabalho. A ideia genial e a forma como o projeto é formatado não garantem, de fato, que os fundos serão arrecadados. É preciso bem mais que isso.

Na sua opinião, o que é mais importante, a ideia do projeto em si ou a credibilidade de quem o propõe?

A ideia nunca será importante para todo mundo, mas a credibilidade é fundamental. Financiamento coletivo funciona com nichos. A credibilidade é muito importante porque não damos dinheiro a pessoas que não conhecemos ou que não nos passam segurança de que realizarão um bom trabalho. É uma cascata. Pessoas apoiam mais projetos que já foram bastante apoiados. E para ter bastante contribuição inicial, além de ter uma ideia boa, é preciso ter uma imagem de credibilidade associada à proposta.

O tempo de arrecadação é o mesmo para todos os projetos? Há pistas sobre atingimento da meta de arrecadação com a campanha em curso?

Na Catarse, o tempo é de até 60 dias. Projetos de dois meses que atingem 30% da meta em quinze dias têm mais probabilidade de atingir a meta total. Mas estamos lançando um novo modelo em que não é preciso arrecadar toda a meta e não há prazo para o fechamento da campanha. Assim, atenderemos perfis diferentes, por exemplo, de pessoas que executarão o trabalho de qualquer maneira e toda quantia de dinheiro é bem-vinda ou pessoas que precisam de campanhas muito mais longas e deixarão o financiamento aberto durante um ano para receberem doações o tempo todo. Vamos testar. Às vezes as pessoas acham 60 dias pouco. Mas se você dedicar um longo tempo (alguns dedicam até um ano) para o planejamento da campanha, o tempo de captação online pode ser pequeno. O projeto que mais arrecadou no Catarse, R$ 600 mil, teve um ano de trabalho em planejamento. Em três dias de captação online, conseguiu o dinheiro que precisava e extrapolou a meta até a conclusão da campanha. Trata-se do Kit Estrutural Mola, para engenheiros estudarem o comportamento das estruturas.

Você pode nos falar um pouco sobre o resultado da pesquisa da Catarse que apresenta resultados sobre os principais apoiadores de projetos de financiamento coletivo no Brasil?

Existem três principais círculos de influência. O primeiro, composto por amigos e familiares; depois, os amigos dos amigos; e por fim, um público externo que ainda não conhecia o proponente antes. Essa rota acaba funcionando para a maioria dos projetos. Se você não consegue engajar as pessoas mais próximas, dificilmente atrairá as mais distantes. Outro ponto é: quanto maior a meta, mais o proponente vai depender da rede externa. E, como eu já falei, a rede externa apoia na medida em que muitas pessoas já apoiaram. A rede externa apoia o projeto porque acredita naquela causa e gostaria que essa proposta passasse a existir no mundo. Aí, de novo, aparece a habilidade de contar uma boa história para que pessoas externas que também têm interesse em determinada causa se reconheçam no seu projeto e o ajudem a realizá-lo. Em geral, o público apoiador é jovem, de 25 a 35 anos. Para ler a pesquisa na íntegra, basta acessar http://pesquisa.catarse.me

Quais são as sugestões para quem irá utilizar uma ferramenta de crowdfunding pela primeira vez? Como estabelecer a meta?

Estude a plataforma, todos os projetos, e veja como as pessoas estão fazendo as coisas. É um repositório de inspiração para começar a desenhar o plano de comunicação, as recompensas, prazos, metas. Crie um rascunho simples da sua proposta e apresente de maneira mais estruturada a algumas pessoas. Não coloque seu projeto na plataforma para testá-lo. Fale com as pessoas antes. Apresente a ideia, teste a proposta, pergunte se alguém daria dinheiro para o projeto antes de abrir um financiamento público. Colha muitos feedbacks. Após essa etapa, desenhe todo o plano de comunicação detalhadamente, aproveitando o aprendizado dos outros projetos. A meta é o mínimo necessário para a ideia sair do papel.

Em plataformas internacionais como a Indiegogo, 1 em cada 10 projetos consegue financiamento. Na Kicstarter, 3 em cada 10 conseguem. Por que a maioria dos projetos não consegue a arrecadação esperada? Você tem esse percentual da Catarse?

Na Catarse, a média é de 5 para 10. Aprovamos a metade. É importante falar que, embora os cases de sucesso do financiamento coletivo sejam de grandes projetos, o financiamento coletivo não é só para os grandes. Alunos de universidade podem usar a modalidade para viabilizar projetos menores. Gostaria que as pessoas vissem o financiamento coletivo como uma oportunidade para se conectar com pessoas e conseguir executar ideias em que acreditam. Dentro disso, não tem muito o que pode ou não ser feito. Tudo pode ser feito, desde que existam pessoas que também queiram. A plataforma não é só para grandes pesquisadores. Estamos torcendo para ver os estudantes viabilizando projetos que sejam importantes para a sua formação. O crowndfunding tem se expandido muito fortemente, mas ainda tem muita gente que não conhece. Queremos ajuda para escrever essa cultura de financiamento coletivo no Brasil.