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Todos por um: o mercado do financiamento coletivo no Brasil
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O potencial do crowdfunding como mecanismo de financiamento alternativo para o cinema brasileiro*
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Reportagem
Todos por um: o mercado do financiamento coletivo no Brasil
Por Sarah Schmidt
10/12/2015
O estudante de midialogia Marcelo Nisida, de 23 anos, e mais sete colegas da Rede Minha Campinas precisavam arrecadar R$ 14 mil em 35 dias. O dinheiro seria usado para financiar a ida dele e de, pelo menos, mais um integrante do grupo para o Rio de Janeiro, onde eles deveriam permanecer por um mês em treinamento. Todos os custos precisavam ser pagos com essa verba. No final das contas, a equipe levantou R$ 15.906 em 14 dias. Como eles fizeram isso? Não, não foi com empréstimo bancário…

O grupo criou uma campanha de crowdfunding (financiamento coletivo) na plataforma Catarse, uma das muitas que temos hoje no país. O modelo de financiamento, já popular no exterior, tem se tornado mais conhecido no Brasil. Funciona assim, em uma explicação breve: um grupo, ou uma pessoa, cria uma campanha em uma plataforma online mostrando que precisa arrecadar um valor para conseguir realizar determinado projeto. Essa campanha fica no ar por um determinado período (segundo o próprio Catarse, o tempo ideal é de 40 dias, em média).

Durante esse período, é preciso fazer intensa divulgação. O círculo de amigos e conhecidos e demais pessoas que se interessem pela causa podem, então, fazer suas doações por meio da plataforma. Por isso, o “crowd” do termo: a ideia é que algo seja financiado por uma “multidão”. Ou seja, muita gente doando quantias pequenas pode financiar um projeto. Há quem diga que o método é a evolução da boa e velha “vaquinha”.

Geralmente os valores que podem ser doados começam em R$ 10 e vão aumentando. Quem apoia a causa investindo mais dinheiro, leva recompensas maiores, que vão desde agradecimentos, até receber em casa o produto que está sendo financiado. Quando a meta é atingida, parte do valor arrecadado é repassado para o grupo e uma parte paga as taxas da plataforma e do sistema de pagamento (somando tudo, fica algo em torno de 12% a 17%, geralmente). Se a meta de arrecadação não for alcançada, o dinheiro é devolvido para os apoiadores. Obviamente, existem mais estratégias, e o processo para que as campanhas atinjam a meta são mais complexos do que essa breve explicação, como veremos adiante.

No caso da Rede Minha Campinas, a “multidão” foi de 201 pessoas, que apoiaram a campanha por meio da plataforma. “O Minha Campinas faz parte de uma rede muito maior, o Nossas Cidades, que começou com o Meu Rio. Este último abriu um edital para outras cidades se inscreverem. Participamos desse processo seletivo e a última parte era fazer um financiamento coletivo para arrecadar fundos para a residência de um mês no Rio de Janeiro, onde aprendemos conceitos e dicas de como construir a Rede”, explica Marcelo Nisida.

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Equipe Minha Campinas em vídeo da campanha/Reprodução Catarse

Já em atividade, o Minha Campinas forma uma rede de pessoas conectadas que trabalham em busca de processos mais participativos de tomada de decisão de interesse público na cidade, com pauta diversificada. Uma das iniciativas recentes do grupo foi o projeto “De guarda pelas escolas”, que criou uma rede de guardiões voluntários que recebem um SMS de alerta caso ocorram ações violentas nas escolas ocupadas de Campinas. O movimento de ocupação foi organizado por estudantes contra a medida anunciada pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB) de que faria uma reorganização das escolas estaduais, o que implicaria no fechamento de 94 delas (cinco na Região Metropolitana de Campinas).

Para Nisida, ter conseguido o financiamento com um modelo coletivo se mostrou importante “para preservar um dos nossos princípios, o da independência. Ou seja, não podemos ter mais de 20% de arrecadação vindo de um doador só”.

Bilhões de dólares pelo mundo

O mercado conta hoje com mais de 1,2 mil plataformas de crowdfunding ativas em todo o mundo, segundo a pesquisa “2015 CF – Crowdfunding industry report”, lançada em abril. O segmento atingiu os US$ 16,2 bilhões arrecadados em 2014, contra US$ 6,1 bilhões em 2013, um crescimento de 167%. De acordo com o estudo, a previsão é de que o valor chegue em US$ 34,4 bilhões em 2015.

Essa pesquisa mostra que a categoria “Negócios e empreendedorismo” foi a mais popular, arrecadando US$ 6,7 bilhões em 2014, o que representa 41,3% do volume total em crowdfunding. As outras quatro principais foram causas sociais, com US$ 3,06 bilhões; filmes e artes, com US$ 1,97 bilhões; imóveis, com US$ 1,01 bilhões; e música, com US$ 736 milhões.

A arrecadação de dinheiro feita por muitos indivíduos se utilizando da internet para financiar um projeto não é algo recente. Isso é o que mostra a dissertação de mestradoCrowdfunding no Brasil: uma análise sobre as motivações de quem participa”, defendida por Mônica Monteiro na Fundação Getúlio Vargas (FGV), em 2014. No trabalho, Monteiro mostra autores que defendem que a primeira tentativa de financiamento via web ocorreu em 1997, quando a banda de rock inglesa Marillion conseguiu arrecadar com seus fãs, por meio de seu site, US$ 60 mil para custear sua turnê.

O setor musical se mostra grande impulsionador do modelo: segundo a dissertação de Monteiro, a primeira arrecadação por meio de uma plataforma específica no mundo foi do site americano ArtistShare, que iniciou suas operações em outubro de 2003. Ainda, é importante destacar a atuação da plataforma europeia Sellabanb, que iniciou suas operações em 2006. Ambas nasceram com o objetivo de unir artistas e fãs e captar dinheiro para financiar projetos como a gravação de um CD, por exemplo.

O modelo de arrecadar dinheiro pela internet, por meio de pequenas doações vindas de várias pessoas é bastante comum nos Estados Unidos. Lá, desde 2000, utiliza-se esse método para financiamento de campanhas políticas. Mônica Monteiro destaca, em seu trabalho, que o fenômeno se consolidou em 2008, na campanha de Barack Obama para a presidência da república, quando cerca de US$ 272 milhões foram arrecadados graças a mais de dois milhões de doadores.

Atualmente, a plataforma de crowdfunding de maior referência, em termos globais, é a norte-americana Kickstarter, fundada em 2009. O site já levantou US$ 2,1 bilhões doados por quase 10 milhões de pessoas em todo o mundo. Mais de 97,3 mil projetos foram financiados por meio da plataforma, que reúne 122 trabalhadores no seu escritório, localizado em uma antiga fábrica de lápis em Nova York.

Quando atingiu tais cifras, o site revelou algumas curiosidades: a maior parte das contribuições recebidas são de menos de US$ 100 e o valor mais doado é de US$ 25. Quase US$ 150 milhões foram doados em apoio a projetos em categorias que não ofereciam nenhuma recompensa. Os apoiadores da plataforma estão espalhados em 230 países. E as categorias que mais levantaram dinheiro na história do Kickstarter foram games, tecnologia e design, com US$ 412,4 milhões, US$ 360 milhões e US$ 351,6 milhões, respectivamente. No Brasil, o financiamento de ciência e tecnologia não é a área mais forte quando o assunto é crowdfunding, mas o cenário está começando a mudar.

As plataformas no Brasil

Em sua dissertação, Mônica Monteiro aponta que ainda não há pesquisas relativas ao Brasil que abarquem o total levantado pelo mercado de financiamento coletivo. Ela estimou que em 2014 existiam cerca de 40 plataformas do tipo no país – é preciso levar em conta que nos últimos meses muitas fecharam, enquanto outras surgiram. São sites dedicados ao financiamento de projetos de entretenimento cultural, sociais, de cunho pessoal, ambiental, desenvolvimento de novos produtos, entre outros.

O fundador e malabarista organizacional do Catarse, Diego Reeberg, declarou, no blog da plataforma, estimar que as cifras arrecadadas por todos os sites desse tipo no país não ultrapassem os R$ 100 milhões.

O primeiro site que fez um sistema parecido com financiamento coletivo por aqui foi o Vakinha, lançado em 2009. Ele começou com a ideia de permitir que os usuários realizassem as famosas “vaquinhas” por meio da internet. Hoje reúne diversas causas, que vão desde pessoas que pedem doações para pagamento de cirurgias e tratamentos médicos até levantar fundos para comprar ração para animais de rua. A plataforma, que passou por uma reformulação neste ano, já teve mais de 400 mil vaquinhas abertas e arrecadou mais de R$ 20 milhões.

O site mais conhecido do Brasil talvez seja o Catarse, lançado em 2011 e que se declara como primeira plataforma que assumiu o termo crowdfunding no país. Desde sua criação, 2.134 projetos foram financiados por meio do site; mais de 252 mil pessoas fizeram doações na plataforma e foram arrecadados R$ 37 milhões. Dentre todos os projetos financiados até hoje, a maior parte é de música (454) e de cinema e vídeo (371).

Ainda no ano de 2011 surgiram outras plataformas famosas por aqui, como o Queremos!, o Sibite e a Benfeitoria. Esta última se destaca por não cobrar uma taxa fixa das campanhas que atingem suas metas – o usuário escolhe o quanto pagar. A plataforma se denomina como a que tem o maior índice de projetos bem-sucedidos: foram 650 publicados e 500 financiados, em sua maioria na categoria de arte e cultura.

Já a plataforma Kickante afirma ter o maior recorde de financiamento coletivo do Brasil, que arrecadou mais de R$ 1 milhão para o Santuário Animal Rancho dos Gnomos. A instituição acolhe animais domésticos, exóticos e silvestres resgatados em situação de maus tratos. De acordo com a CEO da plataforma, Tahiana D'Egmont, “desde a criação da Kickante, já lançamos mais de 17 mil campanhas, que juntas totalizaram R$ 20 milhões em valores arrecadados”.

Na lista de sites brasileiros dedicados ao financiamento coletivo ainda estão o Bicharia, voltado para a causa animal, Urbe.me, para investimento coletivo no mercado imobiliário, entre outros. É comum ver novas plataformas sendo criadas.

O campo cultural ainda é o mais forte no setor de crowdfunding no Brasil. Entre inúmeros motivos, pode-se apontar o fato de que quando os sites começaram por aqui, muitos ativistas da cultura digital viram uma possibilidade de emplacar projetos sem depender de empresas específicas ou de editais. Um dos primeiros casos de financiamento bem sucedido foi o do Ônibus Hacker, utilizado por alguns integrantes da Casa da Cultura Digital para rodar a América Latina com oficinas sobre programação e apropriação da tecnologia.

Por que apoiar?

Apesar de não existirem muitos dados compilados sobre o campo no Brasil, em 2014, o Catarse divulgou a pesquisa “Retrato do Financiamento Coletivo no Brasil 2013/2014”, realizada em parceria com a Chorus e feita com base um questionário online feito com 3.336 pessoas. Os dados mostraram que a distribuição de apoiadores é a seguinte: 63% está no Sudeste, 20% no Sul, 9% no Nordeste, 7% no Centro-Oeste e 1% no Norte.

Do total de apoiadores, 59% são homens e 41% mulheres; 39% têm curso superior completo e 35%, pós-graduação. 31% têm idade entre 25 e 30 anos e 74% das pessoas têm renda mensal de até R$ 6 mil. A pesquisa revelou também que a grande maioria que apoia projetos tem o hábito de fazer compras pela internet.

Por que as pessoas apoiam projetos de crowdfunding? Não temos todas as respostas, mas podemos chegar a algumas conclusões. A primeira delas é o interesse: em muitas das campanhas, há envolvimento por uma causa, seja pela banda que a pessoa gosta, seja por acreditar que aquela campanha fará algo pelo mundo, ou mesmo porque você quer ver aquele projeto no ar. A identificação é um fator importante.

A realizadora audiovisual Thais Fernandes, de 31 anos, já apoiou sete projetos. “Doei para causas que gosto e acredito, por me identificar e também para ajudar amigos. O primeiro foi o financiamento de um documentário sobre Belo Monte. A grana era para finalização e a contrapartida era disponibilizarem o material na internet”, conta. Tirando esse caso, todas as outras campanhas apoiadas por ela estavam relacionadas ao teatro (área em que ela atua) e com sua cidade, Porto Alegre.

Além de ser apoiadora, Thais Fernandes também criou sua própria campanha para financiar o espetáculo multimídia “No que você está pensando?”, que na plataforma Catarse consta como bem sucedido e arrecadou R$ 6.210. Na verdade, Thais chama o projeto de “pseudo-sucesso” porque, percebendo que a campanha não estava emplacando, ela mesma inseriu cerca de R$ 3 mil na plataforma. “Fiz isso para não perder o que eu já havia arrecadado, pois se não atingisse a meta, o dinheiro retornaria para os doadores e eu não teria como viabilizar a temporada do espetáculo”.


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Cena do espetáculo “No que vc está pensando”. Foto: Patrick Tedesco

Em sua pesquisa de mestrado, Mônica Monteiro constatou que seus 11 entrevistados, todos apoiadores de projetos, entendem o crowdfunding como “uma coisa benéfica e de grandes oportunidades” e voltariam a apoiar causas. O estudo apontou que as principais motivações que levam as pessoas a colaborarem aqui no Brasil são: ajudar os outros; apoiar uma causa; receber recompensas; e fazer parte de uma comunidade.

Ela destaca que, diferentemente de plataformas internacionais como o Kickstarter, as quais os apoiadores veem como uma espécie de loja, em que você financia produtos que gostaria de ter, por aqui, os apoios parecem ter uma motivação que se aproxima da filantrópica.

Estratégias: os círculos de amigos

A pesquisa de Mônica Monteiro também apontou algo que é ressaltado pelas próprias plataformas: os círculos de amigos e a divulgação são fundamentais para que a campanha atinja o sucesso. Em sua pesquisa, a maioria dos entrevistados relatou não ter o hábito de analisar as campanhas em aberto. É preciso que a campanha vá até a pessoa para que ela resolva apoiá-la.

O estudo mostrou ainda que a divulgação pelas redes sociais é um ponto importante, já que a maioria dos entrevistados afirmou ser convidado e/ou ficar sabendo de uma campanha por meio do Facebook ou por e-mail. A dinâmica ocorre de uma maneira quase informal, em que a pessoa divulga o projeto em sua rede social, seus amigos tomam conhecimento e também divulgam. Outro ponto que não pode ser esquecido é a importância de um vídeo de apresentação bacana e editado. A recomendação é que ele não passe de dois minutos.

Marcelo Nisida, da Rede Minha Campinas, confirma essa teoria. Quando a campanha da Rede começou, a equipe recebeu diversas dicas e orientações do Catarse de como se planejar para atingir a meta. É preciso pensar em três níveis de pessoas: os círculos próximos, os conhecidos e depois as pessoas que não te conhecem, mas que podem se interessar pela causa.

“Fizemos uma planilha. Pegamos todos os contatos que tínhamos no Facebook e no e-mail, resultando em um total de 5 mil pessoas. Categorizamos em círculos: grupos mais próximos, os amigos que vão doar só porque eu vou pedir mesmo, porque acreditam em mim. Depois, os colegas de Facebook e e-mail, que não são tão próximos, mas para quem você pode mandar uma mensagem, mostrar o projeto e eles podem se interessar. Depois, o terceiro passo é atingir quem não se conhece, os amigos de amigos”, explica Nisida. “Geralmente existe uma curva que segue uma tendência assim: na primeira semana você tem um pico de doações, depois isso baixa. No fim sobe de novo”, complementa.

As principais plataformas de financiamento coletivo do Brasil recomendam que, antes mesmo de iniciar a campanha, quando os prazos começam a correr, é preciso já fomentar a ideia em meio ao círculo de amigos mais próximos. Isso pode ser decisivo para que o projeto seja bem sucedido. Também é importante planejar o quanto de dinheiro será necessário, já tendo em mente as taxas cobradas pela maioria das plataformas.

Geralmente, as campanhas são realizadas no estilo “tudo ou nada”, o que significa que, se o projeto não atingir a meta no prazo, o dinheiro retorna para os doadores. Existem algumas plataformas, como a Kickante, em que é possível optar pela “campanha flexível”, na qual o criador do projeto recebe o dinheiro que arrecadou, mesmo se não atingiu a meta, porém paga taxas maiores. De acordo com a CEO da plataforma, mais de 80% das campanhas lançadas pela Kickante são flexíveis.