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Brasil e Argentina em tempos recentes: os limites de uma aliança política
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Considerações políticas sobre a Defesa Nacional
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Brasil-Portugal: depois dos "500" e além da irmandade
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Entrevistado por Simone Pallone e Paula Soyama
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Entrevistas
Demétrio Magnoli
A política externa do governo Lula tem priorizado as relações com a Ásia e a África e tem intensificado a integração com os países da América do Sul. A participação na Área de Livre Comércio (Alca), proposta pelos Estados Unidos foi esvaziada e maior empenho tem sido feito em prol do Mercado Comum do Sul (Mercosul). Nesta entrevista, Demétrio Magnoli, cientista social, jornalista e doutor em geografia humana pela USP, opina sobre algumas das medidas, apontando pontos fortes e fracos dessa política. Magnoli é editor do boletim Mundo - Geografia e Política Internacional e é autor de vários livros entre os quais Relações Internacionais: teoria e história, da Saraiva. É também o organizador do recém-lançado História das guerras, da editora Contexto.


Simone Pallone e Paula Soyama
09/04/2006

ComCiência - A política externa brasileira tem colocado mais foco nas relações Mercosul - UE e Sul-Sul em detrimento à Alca. Qual a sua opinião a respeito disso? O senhor considera que os resultados têm sido positivos?
Demétrio Magnoli -
A Alca, tal como proposta pelos EUA, pouco significa para o comércio. Seria, basicamente, um acordo sobre serviços, compras governamentais e proteção de investimentos estrangeiros. Por isso, não interessa aos países industrializados da América do Sul, ou seja, Brasil e Argentina.

A política externa brasileira teve sucesso em articular o G-20 na OMC. Mas a sua orientação Sul-Sul subordinou-se ao objetivo da conquista de uma cadeira de membro permanente no Conselho de Segurança da ONU, o que a esvaziou de substância. O resultado foi negativo, do ponto de vista do Mercosul e do esforço de integração sul-americana. No fundo, o Brasil hoje exerce menos influência regional do que há quatro ou cinco anos.

ComCiência - Quais são os principais avanços e quais as dificuldades que ainda persistem para que o Mercosul se consolide? De que modo as novas medidas protecionistas na Argentina podem interferir no Mercosul?
Magnoli -
O Mercosul responde a um imperativo político mais importante que seus aspectos comerciais: a aliança com a Argentina. Essa aliança é o fundamento da paz e da estabilidade no Cone Sul – e a única plataforma possível de integração política e comercial da América do Sul.

Nos últimos anos, o Mercosul sofreu um processo de desconstrução. O Brasil tem mais culpa por isso do que a Argentina, pois definiu como prioridade a meta da conquista de uma cadeira de membro permanente no CS da ONU, o que gerou atritos com Buenos Aires, e não ofereceu apoio à renegociação da dívida externa argentina. As novas medidas protecionistas adotadas por Kirchner não ajudam, mas não deveriam servir para ocultar os erros da política externa brasileira.

ComCiência - Quais as implicações da entrada da Venezuela no Mercosul?
Magnoli -
Cria-se uma dinâmica na qual a Argentina tem uma alternativa ao entendimento e articulação de posições com o Brasil. Politicamente, o Brasil torna-se menos determinante no bloco e o bloco, menos dependente da parceria Brasil-Argentina. No plano econômico e comercial, não há conseqüências de curto prazo, pois a adaptação da Venezuela às regras do Mercosul, cada vez menos estáveis, deve durar no mínimo dois anos.

ComCiência - A esquerdização da América Latina, com maior autonomia em relação às grandes potências deve contribuir para uma maior integração dos países da América do Sul, além das questões comerciais? Como isso poderá ocorrer?
Magnoli -
A “esquerdização” da América Latina é mais um mito da mídia e um eco retórico que uma realidade da política internacional. Venezuela e Bolívia seguem políticas nacionalistas. Brasil e Chile mantêm políticas econômicas liberais. A Argentina oscila, ao sabor das necessidades imediatas do governo Kirchner. Além disso, os atritos comerciais entre Brasil e Argentina, a política do gás de Evo Morales e a defesa chilena da Alca revelam que, no fim das contas, interesses nacionais estão acima da retórica dos chefes de Estado. E esses interesses são, em temas fundamentais, divergentes.

ComCiência - Alguns críticos, como o egípcio Samir Amim avaliam que o Brasil foi mal no Haiti e precisará se redimir. Mas representantes do governo afirmam que a ajuda do Brasil ao Haiti tem sido fundamental. Qual a sua posição em relação à missão do Brasil no Haiti? O senhor acredita que essa ação poderá garantir a posição de membro permanente no Conselho de Segurança da ONU que o Brasil deseja?
Magnoli -
O Brasil foi ao Haiti devido a uma solicitação de George W. Bush, para sustentar um governo ilegal que emanou de intervenção militar estrangeira. O governo Lula e o Itamaraty apostavam que, em troca, Washington apoiaria a reivindicação brasileira de um lugar de membro permanente no CS da ONU. Isso não aconteceu e não acontecerá: os EUA sabem que um CS ampliado, ao menos na forma proposta pelo G4, é um empecilho à sua política mundial.

ComCiência - Até o final deste mês, os membros da OMC vão apresentar suas propostas definitivas de reduções de tarifas e subsídios nas áreas industrial, agrícola e de serviços. O senhor acredita que Estados Unidos e Europa vão reduzir esses subsídios, e qual o impacto disso para o Brasil?
Magnoli -
Não há indícios de que os europeus pretendam fazer cortes reais nos subsídios agrícolas. Até o momento as propostas de Bruxelas são de “cortes na água”, ou seja, redução de limites máximos de subsídios que não são efetivamente praticados. Na França, em particular, os subsídios agrícolas são tema intocável da política nacional. O risco é o fracasso total da Rodada Doha, que poderia provocar até o colapso da OMC.

ComCiência - No final deste mês, representantes da esquerda mundial se reunirão em Recife, no Fórum Social Brasileiro, para discutir principalmente a política brasileira, interna e externa. Qual a sua perspectiva para esse Fórum, em vista do ocorrido em Caracas?
Magnoli -
O FSM é, essencialmente, um congresso mundial de ONGs revestido por uma retórica vazia anti-globalização. Em Caracas, Hugo Chávez “sequestrou” o Fórum, transformando-o em caixa de ressonância da sua “revolução bolivariana”. As ONGs ficaram indignadas, pois querem um evento que aumente seu poder de pressão sobre governos e agências multilaterais como o Banco Mundial. As ONGs, que controlam os órgãos de direção do FSM, vão se precaver para impedir que esse controle volte a ser contestado.