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Reportagem
A era dos ciborgues: como a ciência vai hackear o corpo humano
Por Tiago Alcantara
10/02/2016
Neil Harbisson vê o mundo em tons cinza. O britânico sofre de acromatopsia, uma espécie de daltonismo total desde que nasceu. Entretanto, aos 21 anos, ele participou de um experimento que devolveu as cores ao seu mundo sensorial. Por meio de uma prótese, Neil consegue "escutar as cores". Chamado de Eyeborg, o acessório consiste em uma antena com câmera que é capaz de traduzir a frequência de luz emitida pelas cores – mesmo aquelas que um ser humano comum não consegue captar – para frequências de som.

O britânico, que carrega seu Eyeborg por meio de uma saída USB, é o primeiro humano a ser considerado legalmente um ciborgue. A maneira como ele identifica as cores fez com que desenvolvesse projetos artísticos envolvendo luz e som. Mais do que isso, o artista luta pelo ciborguismo – e convida pessoas de todo o mundo a deixar que seus corpos sejam aprimorados, ou hackeados, pela tecnologia. “Eu parei de sentir a diferença entre o software e meu cérebro quando comecei a sonhar com as cores. É algo invisível, que aconteceu dentro da minha mente e foi quando comecei a me sentir verdadeiramente um ciborgue”, afirmou.

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Neil Harbisson na Campus Party de 2016 / Foto: Flavia de Quadros


Criaturas que são, ao mesmo tempo, máquina e animal, povoam a ficção científica há séculos. Áreas como biologia, neurociência e engenharia têm estudos que podem mudar os corpos no futuro próximo. As pesquisas ainda levantam questões interessantes, como o limite entre seres humanos e máquinas, e até mesmo revelam a possibilidade de implante de membros, sensores e dispositivos, sem que exista uma doença ou deficiência.

"Todas as pessoas no planeta precisam estender seus sentidos. Nossa percepção da realidade é extremamente pequena, se compararmos nossos sentidos com os de outras espécies", encoraja o artista Harbisson.

Para o homem que “escuta as cores”, existem dois estágios para se tornar um ciborgue (psicológico e biológico). “No primeiro momento, usamos softwares e gadgets para aumentar a percepção do mundo, e há uma união invisível entre homem e máquina. Já no segundo, há a integração (nem sempre voluntária) entre carne e chip por meio de um implante ou prótese”.

#SomosTodosCiborgues

A dependência em relação às tecnologias é tema do "Manifesto Ciborgue", publicado em 1985 pela bióloga norte-americana Donna Haraway. Notória estudiosa do feminismo, a pesquisadora da Universidade da Califórnia afirma que somos todos "quimeras, híbridos – teóricos e fabricados – de máquina e organismo".

O artista transmídia e pós-doutor em arte e tecnologia pela Universidade de Brasília (UnB) Edgar Franco comenta que, antes mesmo de usarmos próteses e dispositivos como o Eyeborg, já somos seres transumanos. "Criamos uma dependência grande de nossos dispositivos comunicacionais, utilizamos drogas químicas legais para expandir nosso potencial", argumenta.

Segundo Franco, que se denomina “ciberpajé”, e é também professor na pós-graduação em arte e cultura visual da UFG (Universidade Federal de Goiás), o maior símbolo do caráter virtual da vida anda boa parte do dia nas mãos. "O aparelho celular tornou-se uma prótese quase onipresente. Eles têm modificado a ideia de realidade, fazendo com que coexista a conhecida realidade ordinária, com uma realidade virtualizada".


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Ilustração sobre ciborguismo do artista Ciberpajé. (Divulgação/Edgar Franco)


A visão de que o corpo é um hardware que está ficando obsoleto tem um de seus principais defensores no inventor, futurólogo e engenheiro norte-americano Ray Kurzweil. Segundo o pesquisador, o ser humano não será refém de sua limitação biológica. As próteses mecânicas e interfaces humano-máquina podem ser o início desse "upgrade" para um ser humano 2.0.

Franco, porém, questiona se o motivo para "virar um ciborgue" é realmente melhorar nosso “hardware”. “A razão principal que levará isso a acontecer muito em breve não é um desejo real de expandir o potencial do corpo e da mente, é um desejo escuso baseado na competição. Toda a nossa cultura é extremamente competitiva, e as pessoas concordam com qualquer coisa para tornarem-se “vitoriosas”. Todos os dias, vemos atletas se disporem a tomar substâncias desconhecidas e ainda experimentais para melhorar seu desempenho. Inúmeros atletas olímpicos já foram pegos em exames de doping, e muitos morreram jovens em consequência das sequelas causadas pelas substâncias ilícitas. Ou seja, concordaram em colocar suas vidas em risco para ganhar de seus adversários”, diz.

A interface humano e máquina

Doutor em neurociência e diretor do Centro de Pesquisa Biomédica da Universidade de Victoria, no Canadá, E. Paul Zehr acredita na possibilidade de que pessoas possam trocar partes biológicas do corpo por próteses mecânicas e órgãos criados por impressoras 3D na próxima década.

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Membros mecânicos serão uma realidade daqui 10 anos. Hugh Herr, do MIT, usando pernas biônicas. (Divulgação/Ryan Lash/TED Conference)


As pesquisas do time coordenado por Zehr se concentram no controle neural do movimento de braços e pernas durante a recuperação após AVCs (acidentes vasculares cerebrais) e lesões da medula espinhal. Para o neurocientista canadense, os “hacks” mais interessantes do corpo humano virão das interfaces entre mente e máquina.

"Novos estudos mostram como a informação pode agora ser transferida entre os cérebros dos organismos vivos. Em 2013, um estudo de Sam Deadwyler, da Universidade Wake Forest, e seus colegas da Universidade da Califórnia e da Universidade de Kentucky descreve a inserção de memórias de um animal que aprendeu alguma coisa (doador), para outro animal sem esse conhecimento (receptor)”, conta Zehr.

O experimento de Deadwyler foi publicado no artigo Donor/recipient enhancement of memory in rat hippocampus” (Melhoramento de doador/receptor de memória no hipocampo de ratos, em tradução livre) e descreve como é possível gravar a atividade cerebral de um animal e usá-la para estimular o cérebro de outro para criar um traço de memória.

Para Zehr, esse tipo de prática poderia ser usado para melhorar o desempenho de uma pessoa, reparar danos cerebrais causados por acidentes ou até mesmo para fornecer memórias de treino para um cérebro – algo parecido com o que acontece no filme Matrix (1999), no qual os personagens aprendem habilidades que nunca tiveram, usando implantes de dados. "A aplicação final é melhorar a memória em seres humanos e substituir memórias em distúrbios nos quais a formação e recuperação da memória está falhando", comenta o professor da Universidade de Victoria.

Hackeando o DNA

Antes de buscar um HD grande o suficiente para fazer o upload de suas memórias para a nuvem, ainda há um grande campo de exploração do lado de dentro do corpo humano. Segundo o pós-doutor em bioinformática e biologia molecular Marcelo Brandão, estudos de áreas como matemática e engenharia podem ajudar biólogos a descobrir um código matemático que explique a estrutura primária da vida, o DNA.

O pesquisador, responsável pelo Labis (Laboratório de Biologia Integrativa e Sistêmica) do Centro de Biologia Molecular e Engenharia Genética (CBMEG) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), explica que a informação genética é guardada no DNA, como uma mensagem que é transcrita pelo RNA. Além de um canal de ativação, ele também atua como corretor em possíveis erros biológicos. A abordagem proposta por Brandão é transformar código genético em unidades matemáticas.

"Os organismos estão usando esses códigos a bilhões de anos, o que fizemos é provar matematicamente essa proposta biológica. Você pode prever drogas ou tratamentos gênicos, que mantenham a integridade do sistema biológico, e ser menos invasivo para o paciente", conta o pesquisador sobre as formas de “hackear” o DNA.

Além disso, o sucesso dessa abordagem significa menos alterações genéticas por tentativa e erro em animais e plantas. Outro dos desdobramentos dessa linha de pesquisas pode trazer a cura para vários tipos de câncer, que são causados por uma única alteração no DNA. De acordo com a abordagem proposta por Brandão e outros biólogos, há a possibilidade de que essa mutação aconteça porque o DNA perdeu um trecho de seu código corretor. Com ajuda da matemática, seria possível diagnosticar onde está esse erro e criar medicamentos que atuem exatamente na região, sem alterar a estrutura do DNA.

"O que precisamos elucidar muito bem é onde está a correção e a codificação matemática desse DNA. Será que ela já sai do DNA, ou ela está no canal, ou então na tradução, o RNA?", questiona o pesquisador.

Feitos em casa

Os questionamentos sobre a vida digital, ciborguismo e pós-humanismo encontra várias expressões diferentes nas pesquisas relacionadas às artes. A coreógrafa, dançarina e ativista catalã Moon Ribas acredita que esse ciborguismo permite um novo tipo de arte.

"Vivemos em um tempo que os artistas não precisam mais usar a tecnologia apenas como uma ferramenta. Podemos incorporar tecnologia em nossos corpos e estender nossos sentidos. E criar arte por meio desses novos sentidos. É uma mudança na forma como usamos tecnologia", afirma Moon, que possui um sensor implantado em seu cotovelo e consegue sentir quando um terremoto acontece em algum lugar do planeta. Esses abalos sísmicos de diferentes intensidades são usados pela artista na criação de seus movimentos de dança.

Ao lado de Harbisson, a ativista catalã criou a Cyborg Fundation, em 2010. A organização encoraja implantes voluntários com materiais biocompatíveis e o uso de softwares para o aumento das capacidades sensoriais. A dupla acredita no ciborguismo como um movimento social e artístico. O britânico, inclusive, vê sua câmera/antena como uma "obra de arte aplicada ao corpo de um artista".

Longe dos laboratórios e até dos palcos, existe uma comunidade DIY (Do it yourself ou "faça você mesmo", em tradução livre) que propõe implantes de sensores como os da dupla de artistas da Cyborg Foundation. Sites como o Dangerous Things, Grindhouse Wetware e vários outros fóruns exibem informações e até mesmo comercializam sensores e chips que são biocompatíveis para implantes caseiros.

Algumas dessas melhorias incluem chips NFC (como os usados em cartões de proximidade e bilhetes únicos), sensores de temperatura corporal e até mesmo acessórios que permitem que você saiba para que lado está o norte. Alguns deles possuem até mesmo conexão Wi-Fi ou Bluetooth, para que possam transmitir suas informações para smartphones e outros aparelhos.

Para Harbisson, o maior desafio para o futuro dos híbridos é garantir que qualquer pessoa tenha direito de mudar o próprio corpo, já que vários comitês bioéticos não aceitam esse tipo de implante como válidos do ponto de vista médico.

Já o neurocientista canadense Paul Zehr tem uma posição um pouco mais cética sobre a utilidade desses implantes. “Tenho lido muito sobre isso. Pessoalmente, acho que as pessoas não deveriam fazer isso até que existam melhores salvaguardas. É ruim o bastante já ter um site hackeado. Por que deixar as coisas mais fáceis para que alguém possa hackear o seu próprio corpo?”, finaliza.


Para saber mais:

Neil Harbisson – Eu escuto as cores

https://www.ted.com/talks/neil_harbisson_i_listen_to_color?language=pt-br

Hugh Herr sobre a próxima geração de membros biônicos:

https://www.ted.com/talks/hugh_herr_the_new_bionics_that_let_us_run_climb_and_dance/transcript?language=pt-br