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Reportagem
Inteligência artificial a favor da medicina
Por Fernanda Grael
10/02/2016
Um cirurgião sentado em um equipamento robótico controla os braços mecânicos do dispositivo, que carregam uma câmera, pinças e outros instrumentos cirúrgicos – todos com menos de um centímetro. Pela câmera, ele enxerga tridimensionalmente e ampliado o interior do paciente. Com um console, ele controla os instrumentos que realizam a cirurgia, minimamente invasiva, com incisões de um a dois centímetros para passar o braço mecânico para o interior do corpo. Os movimentos realizados são impossíveis para uma mão humana. É assim que o robô Da Vinci opera.

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As pinças do robô Da Vinci comparadas ao tamanho de um pirulito

A cirurgia com o uso de robôs chegou ao Brasil em 2008, e há atualmente 14 dispositivos do Sistema Cirúrgico Da Vinci. O SUS, inclusive, já incluiu a robótica no rol de procedimentos. O primeiro hospital a utilizar essa tecnologia foi o Instituto Nacional de Câncer, o Inca, que em agosto de 2015 completou 500 cirurgias feitas com o auxílio do robô Da Vinci.

Uma cirurgia de retirada de tumores é extremamente delicada e com elevados índices de complicação. Segundo Fernando Luiz Dias, chefe da seção de cirurgia de cabeça e pescoço do Inca e idealizador da cirurgia robótica no instituto, o que mais faz o paciente sofrer são as incisões externas e eventuais acessos cirúrgicos, mais do que a retirada do tumor em si. “A realização das cirurgias robóticas trouxe diversos benefícios aos pacientes, como visão do campo cirúrgico magnificada, possibilidade de execução de manobras cirúrgicas em espaços restritos, e, principalmente, pela diminuição do trauma cirúrgico. Foi possível oferecer aos pacientes procedimentos mais breves, associados a menor incidência de complicações e menor tempo de internação“, completa. Com o uso do robô, se a cirurgia for na cabeça ou pescoço, nem é feito corte, já que o procedimento pode ser feito pela boca; o tempo foi reduzido de quatro a cinco horas para menos de uma hora de cirurgia; e a internação, que era de sete a oito dias foi reduzida para três a quatro dias. Como é mais rápido, mais cirurgias podem ser realizadas em um dia, atendendo maior número de pacientes. Ou seja, embora o equipamento seja caro, ele elimina outros gastos.

“O uso do instrumento robótico permitirá a realização de procedimentos cirúrgicos cada vez mais sofisticados e radicais, sempre associados a menor morbidade e maior efetividade”, completa Dias.

Os robôs na medicina

Até há pouco tempo, os robôs eram vistos como pura ficção científica, algo distante da realidade – e mais ainda da área de saúde. Mas, gradualmente, eles foram surgindo, em formatos primitivos, realizando funções fáceis e repetitivas, nas indústrias automobilísticas.

De acordo com o artigo “Realidade virtual e robótica em cirurgia – aonde chegamos e para onde vamos?”, na década de 1980, os primeiros conceitos de robôs cirurgiões se iniciaram com o trabalho de Scott Fisher, na Nasa, que desenvolveu a ideia de realidade virtual e imagens 3D. Na mesma década, Jacques Perissant apresentou um vídeo de uma colecistectomia (retirada da vesícula biliar) no congresso da Sociedade Americana de Cirurgiões Gastrointestinais e Endoscópicos, causando grande impacto. Também na Nasa, Richard Satava e uma equipe desenvolveram um programa de cirurgia por telepresença (a distância), para fins militares.

No início da década de 1990, foram desenvolvidos diversos sistemas de cirurgia robótica, como o RoboDoc e o Artemis, que podia ser manipulado a distância. Em 1992, novamente para fins militares, os americanos desenvolveram uma tecnologia chamada Darpa, que servia para atender soldados de campos de batalha por meio de telecirurgia robótica. Ela funcionava por meio de um veículo com controle remoto que combinava sensoriamento remoto, robótica e realidade virtual. Alguns anos depois foram desenvolvidos para uso comercial os sistemas cirúrgicos Zeus e o Da Vinci, e em 1997 foi realizada a primeira cirurgia robótica, em Bruxelas.

Treinamento com realidade virtual

Atualmente na Faculdade de Medicina São Leopoldo Mandic, unidade de Campinas, os alunos têm a oportunidade de trabalhar em um laboratório de simulação realística com uso de robôs, e são treinados a lidarem em complicações cirúrgicas, e até a realizarem partos, sendo uma das poucas faculdades no Brasil com esse acesso.

Adquiridos em setembro de 2015, os robôs SimMom e Sim NewB permitem que os alunos treinem um parto, assim como todas as etapas, desde o controle de contrações até os primeiros atendimentos do bebê, como explica o coordenador do curso, Guilherme de Menezes Succi. “Os alunos conseguem fazer os monitoramentos da atividade uterina e fetal, o controle de contrações, a indução do trabalho de parto, até a supervisão de possíveis complicações maternais durante o procedimento. Este robô também possibilita o controle da frequência respiratória, do líquido amniótico e urina, funções cardíacas, acesso vascular, medição de pressão sanguínea e funções das vias aéreas”, diz.

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Aluno da Leopoldo Mandic ao lado do robô SimMom

A tecnologia permite que esses robôs tenham reações como se fossem pacientes reais, por isso conseguem simular complicações cirúrgicas, como casos de feto mal posicionado, hemorragia materna ou parada cardiovascular. “A vantagem da simulação é expor o futuro médico a todas as situações consideradas fundamentais para a formação. Quando o estudante treina somente na vida real, algumas dessas situações podem não ocorrer, já que dependemos do aparecimento espontâneo, ao acaso”, exemplifica Succi.

A realidade virtual é uma tecnologia gerada por computação que permite simular alguma ação da vida em seu ambiente natural. Essa tecnologia está presente desde os anos 1940 em programas para avaliar e treinar pilotos de aviação militar ou comercial, e agora está migrando para o ensino médico. O artigo “Realidade virtual e robótica em cirurgia” destacou também estudos que provam que as habilidades adquiridas por cirurgiões que se iniciam em videocirurgia são desenvolvidas de maneira mais rápida. Isso se deve ao fato de que, além de poderem repetir exaustivamente procedimentos, os alunos são avaliados pelo próprio programa de simulação, fazendo com que erros sejam reconhecidos e corrigidos de maneira mais precisa. Uma das desvantagens dessa tecnologia, porém, é o alto custo.

Succi acredita que, mesmo com o avanço das tecnologias de inteligência artificial na medicina, o papel do médico jamais será dispensado. “A tomada de decisão nas situações imprevistas depende da experiência e senso crítico de um profissional humano”, pondera. Assim, a robótica na medicina é uma ferramenta a favor do médico, e não feita para substituí-lo, contribuindo para garantir, na medida do possível, o bem-estar dos pacientes.