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Desastres ambientais no Brasil - Carlos Vogt
Reportagens
Desastres ambientais no Brasil e no mundo: características semelhantes, maneiras de agir distintas
Carolina Medeiros
Impactos econômicos, socioambientais e as mazelas da mineração
Erik Nardini
Romprimento da barragem Fundão: tecnologia poderia evitar a tragédia
Tiago Alcantara
Fragilidades em estudos de impacto ambiental prejudicam real avaliação de riscos
Tamires Salazar
Oceanos: contrastante império de riqueza e poluição
Tassia Biazon
Artigos
Os impactos das mudanças climáticas globais
Ana Maria Heuminski de Avila e Chou Sin Chan
Novas configurações míticas para a Idade Antropoceno da supremacia dos plásticos: a deusa do mar e as sereias vigilantes
Elizabeth Doud
O estudo de impacto ambiental e as atividades minerárias no estado de São Paulo
Andréa Mechi e Djalma Luiz Sanches
Os desastres em uma perspectiva antropológica
Renzo Taddei
Objetividade e sensacionalismo na cobertura jornalística de mudanças climáticas e meio ambiente
Rubens Neiva
Resenha
Desafios na gestão de desastres
Kátia Kishi
Entrevista
Marilene Ramos
Entrevistado por Sarah Schmidt
Poema
Decreto
Carlos Vogt
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Resenhas
Desafios na gestão de desastres
Em Urbanização e desastres naturais, a geógrafa Lucí Nunes levanta dados sobre catástrofes na América do Sul, relacionando os eventos com o crescimento populacional
Kátia Kishi
10/03/2016
Os desastres naturais estão inscritos na história da Terra e da humanidade, e isso fica bastante perceptível nos estudos paleontológicos e também de antropologia que analisam os mitos que cercam as histórias de diversos povos pelo mundo afora. No caso da América do Sul, os estudos de curiosas crenças contribuem para compreensão de muitos eventos naturais. Os incas, por exemplo, acreditavam ser a fúria do deus Pachacamac a causa dos tremores de terra, ou do terrível Waconera, que se alimentava de crianças e gerava as secas para além da costa andina. O povo tupi-guarani, por sua vez, também se refere a deuses para explicar fenômenos ambientais. Entre outros, Tupã é o responsável pelas manifestações meteorológicas (se apresenta na forma de trovão), e Iara, a mãe das águas, além de afogar os homens que encanta, promove a formação de neblinas e altera cursos de rios.

Catástrofes naturais continuaram a ser tratadas como castigo dos deuses também após a colonização europeia na América do Sul. O padre José de Cevallos atribuiu o forte terremoto seguido de tsunami como um castigo para a população libertina que vivia em Lima, Peru, em 1746.

Além de elementos culturais que mostram como somos “viciados” em porquês, esses mitos são relembrados pela geógrafa Lucí Hidalgo Nunes em seu mais recente livro, Urbanização e desastres naturais, para apontar o quanto as catástrofes castigam o planeta. Para ela, é preciso melhorar nossa adaptação a esses eventos, já que alguns podem ser evitados ou ter prejuízos minimizados com adequada gestão.

O cerne do livro é o grande impacto dessas calamidades, como terremotos e inundações, nos espaços urbanos, que cada vez ocupam e modificam mais áreas – reflexo da globalização para atender as demandas comerciais, tendo como consequência perdas econômicas e de vidas. A autora destaca uma maior incapacidade de gestão desses eventos na América Latina, onde não há auxílio adequado às vítimas, sendo até inexistente um banco de dados padronizado e completo para os estudos, demonstrando “o distanciamento entre as conquistas científicas e tecnológicas dos reais problemas que afligem a sociedade”.

Com levantamento e análise de dados entre os anos 1960 até 2009, a obra se divide em quatro partes, sendo os dois primeiros capítulos mais fluídos e de base para a compreensão do que são os diferentes desastres naturais, seus indutores e consequências e sobre o ambiente natural da América do Sul. Além disso, aborda aspectos socioeconômicos e relações internacionais que interferem na administração eficaz das catástrofes – e o leitor não precisa ser, necessariamente, profundo conhecedor da área para entender o texto.

Em alguns momentos, porém, são necessários conhecimentos básicos de geografia e atualidades para compreensão de eventos citados. Um exemplo é quando, ao trazer as características da região banhada pelo oceano Pacífico, menciona-se a importância da atividade pesqueira, devido às águas frias vindas da corrente de Humboldt. Não explica, entretanto, como a corrente fria traz do fundo do oceano grande quantidade de plâncton, o que atrai peixes para a região.

Os últimos capítulos são muito densos, embora o uso de tabelas e gráficos tente facilitar a leitura. Na pesquisa sobre os desastres naturais no decorrer de cinco décadas na América do Sul, Nunes constatou o registro de 863 desastres, sendo 78,4% deles de caráter hidrometeorológico e climático (seca, extremo de temperatura, inundação, movimento de massa seca, movimento de massa úmida, incêndio, tempestade), 14% geofísicos (abalos sísmicos e vulcanismo) e 7,5% biológicos (epidemia).

As calamidades foram avaliadas também conforme o número de vítimas fatais, de pessoas afetadas, e os prejuízos econômicos gerados. Nunes, no entanto, destaca um problema na análise, uma vez que os dados não são precisos e completos. Outros problemas que atrapalharam a pesquisa foram a falta de consenso sobre algumas definições, deficiência de registro e questões políticas que exageram os números para obter mais benefícios externos ou ocultam os impactos das tragédias – como pode ter ocorrido durante os períodos ditatoriais que muitos países da América Latina viveram.

Entre as descobertas da pesquisa, a autora destaca que as inundações são as principais desencadeadoras de tragédias naturais, seguindo uma tendência mundial, e são as que mais afetam pessoas e trazem prejuízos para a América do Sul, muito embora os fenômenos geofísicos gerem mais mortes, principalmente na Colômbia e no Peru (problema que se agrava em regiões muito povoadas e com grande circulação de pessoas).

Nunes alerta sobre o aumento de calamidades nos últimos anos em todo o mundo, com pico em 2000, apontando a suscetibilidade e vulnerabilidade humana perante os eventos. A autora destaca a necessidade de mais estudos e observação sobre esses fenômenos, até mesmo para evitar associações equivocadas. No terremoto de 2010, no Haiti, por exemplo, foi um erro relacioná-lo às mudanças climáticas, já que a causa foi a movimentação sísmica.

A geógrafa também conclui que “É fato que as novas calamidades irão acontecer, até nas sociedades mais preparadas, porém em algumas nações, como as da América do Sul, o desafio real é fazer com que elas sejam menores, e suas superações, mais céleres”.

O livro é uma importante contribuição para embasar novas políticas públicas transnacionais para gerenciar tragédias que transpõem limites territoriais. A autora, além da experiência no Instituto Geológico de São Paulo, é professora e pesquisadora na Unicamp e membro da Academia Real de Ciências Ultramarinas da Bélgica, por sua atuação em climatologia.

O livro está disponível em formato físico ou e-book, porém, para leitura pelo computador ou dispositivo móvel, é necessário o download de um aplicativo que pode apresentar falhas, como o armazenamento parcial de marcações e notas.

Urbanização e desastres naturais – abrangência América do Sul

Autora: Lucí Hidalgo Nunes

Oficina de Textos

Ano: 2015

112 p.