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Reportagem
Romprimento da barragem Fundão: tecnologia poderia evitar a tragédia
Por Tiago Alcantara
10/03/2016
O dia 5 de novembro de 2015 marcou o Brasil após o rompimento da barragem de rejeitos da mineradora Samarco, de propriedade das empresas Vale e da anglo-australiana BHP. O desastre ambiental liberou uma enxurrada de lama � estimada entre 50 e 60 milhões de metros cúbicos � e destruiu o distrito de Bento Rodrigues, na cidade de Mariana, região central de Minas Gerais.

A estimativa � da consultoria Bowker Associates, especializada na gestão de riscos relativos às construções desse tipo. Os relatórios são assinados pelo geofísico e doutor em planejamento ambiental pela Universidade da Califórnia, David Chambers.

De acordo com um relatório da ONU, os rejeitos continham materiais tóxicos. A Samarco nega essa informação. Após o rompimento, o governo de Minas Gerais estima que mais de 320 mil pessoas foram atingidas de alguma forma pelo rio de lama.

Vários questionamentos foram levantados pelo público leigo nos quase cinco meses desde a catástrofe. Um dos mais relevantes � se haveria tecnologia suficiente para prever ou evitar esse tipo de catástrofe.

A resposta, talvez chocante, � que o rompimento da barragem do Fundão era não s� previsível, como poderia ser evitado. A afirmação � do próprio Chambers, em entrevista � ComCiência. “Nós temos a tecnologia para a construção de barragens que são muito mais seguras do que o tipo feito na barragem do Fundão. Precisamos colocar as considerações de segurança na frente de considerações financeiras�, comenta o pesquisador norte-americano.

De acordo com o geofísico, represas do tipo jusante (como aquelas construídas para barragens de abastecimento de água) são as mais seguras. Construções como as realizadas pela Samarco são feitas apenas para cortar o custo de operação.

Reação � tragédia

Se não foi utilizada de maneira preventiva, a tecnologia também tem papel importante para remediar a situação. At� janeiro deste ano, a lama havia percorrido mais de 600 km, fazendo do rompimento o maior acidente com barragens dos últimos 100 anos.Extruder Machine

O coordenador do Grupo de Estudos de Meio Ambiente e Sociedade do Instituto de Estudos Avançados da USP (IEA), Pedro Jacobi, explica que a resposta para um acidente de tais proporções deve unir tecnologia instrumental e social.

“A tecnologia tem a capacidade de verificar o impacto de um desastre na qualidade de água e ambiental, em termos regionais. Esse � um primeiro aspecto, mas a tecnologia voltada ao uso social também foi importante, toda a articulação que houve na sociedade civil para mobilizar diferentes especialistas que se organizaram rapidamente para dar uma resposta aos problemas causados pelo grau de contaminação dessa água�, comenta o pesquisador do IEA.

Mestre em planejamento urbano e regional pela Harvard University e doutor em sociologia pela USP, Jacobi acredita que seja fundamental recorrer � pesquisa e � utilização de novos métodos que estejam “além dos caminhos da natureza� para reverter os danos causados ao ambiente nesse tipo de desastre.

Economia e danos ambientais

O caso da mineração � emblemático não apenas pelo desastre de novembro de 2015. A atividade retrata de forma interessante a ligação entre a demanda por tecnologia e seus impactos no meio ambiente. Sem minerais raros, como tântalo, tungstênio e estanho, seria praticamente impossível fazer aparelhos eletrônicos funcionarem nos moldes atuais. Isso mesmo, boa parte dos smartphones, tablets, notebooks e outros produtos semelhantes precisa dos resultados dessa atividade para existir.

David Chambers � o pesquisador responsável pelo estudo sobre a barragem do Fundão � e a especialista em gerenciamento de riscos ambientais Lindsay Bowker comentam os riscos da conservação de rejeitos no relatório “The risk, public liability & economics of tailings storage facility failures� (O risco, responsabilidade civil e economia de acidentes em instalações de armazenamento de rejeitos, em tradução livre).

“A métrica da mineração moderna j� est� bem mapeada: maior produção da mina � necessária em função das notas baixas do minério, um século de declínio de preços � compensado pelo declínio de custos por tonelada�, explicam os pesquisadores.

Ainda de acordo com o relatório, essa métrica demanda um desenvolvimento contínuo, por meio de economia de escala. Ou seja, quanto mais eficiente � a operação (melhor e maior tecnologia), também � mais profunda a pegada deixada pela atividade no planeta.

Por outro lado, Jacobi comenta o aspecto econômico de dependência pela tecnologia. "� indiscutível que vivemos em uma sociedade que demanda recursos naturais. Os recursos foram explorados durante anos de forma insustentável, hoje tornou-se necessário que eles sejam explorados de uma forma mais sustentável, mas � uma equação difícil de ser realizada � pelas próprias características da forma de exploração�, afirma o pesquisador do IEA-USP.

O coordenador do grupo de estudos sobre o meio ambiente ainda argumenta que os especialistas em mineração deverão focar em formas de usar novos aparatos e técnicas para que a atividade seja realizada de forma mais sustentável, mesmo que isso diminua a lucratividade. "Quando voc� tem uma grande parcela da população dependente desse tipo de exploração, a soma � extremamente problemática�, afirma Jacobi.

Novo código de mineração

Os especialistas ainda apontam que este � um momento chave para que a sociedade pressione os legisladores. H� mais de cinco anos em discussão na Câmara dos Deputados, o novo Código de Mineração deve ser finalmente votado.

“Minha recomendação inclui tornar a construção de barragens como a do Fundão a montante ilegal e obrigar as empresas a publicar uma garantia financeira para as falhas catastróficas de barragens�, aponta Chambers. O geofísico diz ainda que essas duas medidas podem ajudar a reduzir o risco de falha desse tipo de construção ao mesmo nível das barragens de abastecimento de água, que chega a ser at� dez vezes menor.

O especialista em planejamento urbano da USP acredita que seja preciso que o Estado tenha maior poder de regulação sobre atividades com risco tão alto contra o meio ambiente. O déficit de controle e recursos humanos para que seja feita essa fiscalização torna a questão ainda mais complexa. “Se a sociedade civil não se mobiliza, o risco � ainda maior�, alerta Jacobi.

No dia 2 de março, foi realizado um acordo entre Samarco, Vale, BHP Billiton com a União e os estados de Minas Gerais e Espírito Santo. Dentre os principais pontos estão o repasse de R$ 4,4 bilhões por parte da Samarco para recuperação do meio ambiente e atividade econômica nas regiões afetadas.

"Este dia � um marco para todos os envolvidos, uma vez que um acordo � sempre melhor do que uma disputa judicial. Ele permitir� acelerar as medidas de remediação do meio ambiente e indenização dos afetados, complementando todas as ações iniciadas pela Samarco desde o primeiro momento", comentou Murilo Ferreira, diretor-presidente da Vale.

O Ministério Público Federal questiona o acerto extrajudicial feito pelas empresas com o governo. Em nota oficial, afirma que “o acordo prioriza a proteção do patrimônio das empresas em detrimento da proteção das populações afetadas e do meio ambiente�.