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O mercado de notícias
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Resenhas
O mercado de notícias
O documentário de Jorge Furtado entrelaça a peça homônima do inglês Ben Jonson, de 1625, com críticas cômicas sobre o início da imprensa.
Kátia Kishi
10/04/2016
“São notícias criadas à moda de hoje (vigarices semanais feitas para ganhar dinheiro). E não poderia haver melhor forma para criticá-las do que criar esta ridícula agência, esse mercado, onde cada época pode ver sua própria insensatez, sua fome e sede de panfletos de notícias que saem às ruas todos os sábados, e que são escritas por quem não sai de casa, sem uma sílaba de verdade”. Este é um dos trechos clamados por um dos personagens da peça inglesa The staple of news, criada por Ben Jonson, considerado o segundo maior dramaturgo do teatro elisabetano, o que não é pouca coisa, já que ele só está atrás de nada menos que William Shakespeare.

O cineasta Jorge Furtado conta que, assim que encontrou o roteiro inglês do século XVII, decidiu, junto com Liziane Kugland, traduzir a peça pela primeira vez para o português. Ao adaptá-la para o cinema, a ideia do diretor foi aproveitar a riqueza e o tom cômico da peça para resgatar as críticas sobre o início da imprensa e entender as práticas atuais da profissão no Brasil.

A peça conta a história de um jovem perdulário inglês que, ao saber por um mendigo sobre a morte de seu pai, resolve esbanjar as riquezas com um negócio inovador, um mercado de notícias. A história se desenrola com seu interesse por tal agência e pelas funções dos repórteres, ao mesmo tempo em que ele tenta conquistar a princesa Pecúnia (sinônimo de dinheiro). Sarcasticamente, todas as suas ações são vigiadas pelas comadres cujos nomes são Tagarela, Expectativa, Censura e Prazeres. Juntas, elas criticam a “qualidade” das notícias adquiridas para “o conto do vigário”.

Apesar de a peça adaptada ser de 1625, a história apresenta uma imprensa que desde seus primórdios sofre influências de posicionamento político, econômico e religioso para vender “notícias”, próximas da realidade ou inventadas, sendo que era (e ainda é) importante para o mercado viciar as pessoas em notícias, mesmo que sejam sensacionalistas. A adaptação desencadeou no documentário que leva o mesmo título da peça, com roteiro e direção de Jorge Furtado, também diretor de Meu tio matou um cara, Ilha das flores, Saneamento básico: o filme, entre tantos outros.

O mercado de notícias foi premiado nos festivais “É tudo verdade” e “Cine Pe” e não se prende apenas na adaptação da peça. Com características próprias de um documentário, Furtado entrevista 13 jornalistas brasileiros sobre vários aspectos da profissão e seus mitos. O cineasta já começa quebrando um dos principais mitos que é a suposta imparcialidade da imprensa, detalhada no decorrer dos depoimentos e também presente quando o diretor comunica os atores da peça que seu viés é falar do bom jornalismo, sendo que foram selecionados jornalistas que ele admira e respeita para comentarem sobre suas experiências e percepções.

É importante essa delimitação que Furtado faz logo no começo de seu filme, para o público compreender seus filtros de informação e justificar uma discussão que se restringe mais aos dilemas do jornalismo impresso com suas transformações para o meio digital do que sobre o jornalismo como um todo. Esse filtro está visível ao se perceber quem são os depoentes, que têm alguma relação com a grande mídia (seja televisão, rádio, impresso ou blog), e sem representatividade de diferentes camadas sociais. Para se ter uma ideia, de 13 entrevistados, apenas duas são mulheres e não há um negro ou indígena entre eles, muito menos comentários sobre as atividades crescentes das mídias alternativas, coletivos de comunicadores ou jornalismo comunitário e fora das grandes capitais. Porém, o viés adotado pelo diretor não desmerece esses debates tão necessários na atualidade.

Os jornalistas selecionados e ouvidos no documentário são Jânio de Freitas, Mino Carta, José Roberto Toledo, Fernando Rodrigues, Bob Fernandes, Cristiana Lobo, Geneton Moraes Neto, Leandro Fortes, Luís Nassif, Maurício Dias, Paulo Moreira Leite, Raimundo Pereira e Renata Lo Prete. Além dos recortes feitos para o documentário, o diretor também disponibilizou as entrevistas completas com uma mini biografia de cada entrevistado no site do longa-metragem.

O filme divide os temas e os trechos das entrevistas e da peça como retrancas de uma reportagem, tendo reflexões sobre conceitos ligados à profissão e sobre o que faz um jornalista. Com ideias, às vezes, radicais, utópicas e contraditórias, o jornalista aparece como prestador de um serviço de curadoria, ainda mais nos tempos atuais, que sofrem uma enxurrada de informações. Mas, como ressaltado por um dos entrevistados, esse serviço pode se distorcer em negócio ou pilantragem, como já era visto no surgimento da imprensa londrina retratado na peça.

Os depoimentos também levam a questionamentos sobre a forma com que os entrevistados se posicionam sobre o jornalismo, como se ele fosse a revelação de tudo aquilo que os outros desejam esconder e, se assim não for, segundo eles, se trata de propaganda e não de jornalismo. Ora, se a prática jornalística tem como principal motivador prestar um serviço de informar com qualidade (fazendo a mencionada curadoria), por que a informação só deve ser sobre aquilo que alguém quer ocultar? Toda a mídia deve funcionar como os folhetins de fofoca que vasculham histórias de celebridades? Claro que a investigação faz parte da função do jornalista, que é o que se chama de apuração ou checagem de dados para avaliar a qualidade das entrevistas e informações, mas não são só notícias polêmicas de política que se pode considerar jornalismo. Existem outros assuntos, que não envolvem diretamente as influências políticas e econômicas, que também são jornalismo, como eventos culturais e até mesmo notícias sobre resultados de pesquisas acadêmicas.

Outros desenlaces abordados no documentário são a notícia como mercadoria, a relação dos jornais com partidos políticos, a censura dos editores e donos dos jornais e as qualidades das fontes que sempre têm algum interesse ao transmitir uma informação. As reflexões apontam para um jornalismo que declare em seu editorial seus posicionamentos, pois se um veículo ou profissional se diz sem viés, é provável que tenha muitos que não queira declarar, não sendo, assim, honesto com o consumidor das notícias.

O documentário também comenta casos do mau jornalismo, como o sensacionalismo no caso da “escola Base” em São Paulo, em 1994, em que os jornais acusaram de pedofilia, sem provas, pessoas inocentes; o episódio da “bolinha de papel no candidato José Serra” nas eleições de 2010; e a mirabolante história de que existiria um quadro de “Picasso no INSS” de Brasília. Esses exemplos demonstram a ideia do jornalismo viciado em declarações e sem apuração, principalmente no jornalismo político. Um “antijornalismo” que muitas vezes permite que o jornalista faça a matéria sem nem ao menos sair às ruas e conhecer o contexto de suas histórias. Apesar do recorte enviesado, o documentário é leve e quebra muitos mitos da profissão, sendo indicado para jornalistas e estudantes de comunicação, mas também para todos que consomem notícias, principalmente para os que ainda são iludidos de que existe ou existiu algum veículo imparcial. Afinal, o documentário traz o lema do Pasquim: “Se você não está em dúvida é porque foi mal informado”.

 

O mercado de notícias
Diretor: Jorge Furtado

Gênero: documentário
Casa de Cinema de Porto Alegre
Ano: 2014

94 min

 

Trailer