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Artigo
A ciência brasileira aos trancos e barrancos
Por Rogério Cezar de Cerqueira Leite
10/05/2016
A história recente da ciência no Brasil é desalentadora, para dizer o menos. E o pior é que as perspectivas para o futuro não são, sob qualquer aspecto, mais animadoras. A trôpega e tardia história das instituições responsáveis pelo fomento à pesquisa no Brasil revela o pouco ou nada do valor atribuído à pesquisa pelas sucessivas administrações federais e estaduais, como também pela população.

O Brasil foi um dos últimos países da América Latina a instalar suas universidades, o que ocorreu apenas na década de 30, com a criação da Universidade de São Paulo (USP). Enquanto um século antes inúmeros países do mesmo continente, como também da América do Norte, já haviam instalado várias universidades.

Os tropeços do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, a começar pelo seu acidental início, são testemunhos do descaso com que a União trata a pesquisa científica. Foi este depoente que coordenou o capítulo de Ciência e Tecnologia do plano de governo de Tancredo Neves. E lá não havia previsão para a criação de um ministério para o setor.

Ao assumir o poder, o vice de Tancredo, José Sarney, criou o Ministério de Ciência e Tecnologia. Aparentemente, o fez para acomodar seu conterrâneo e antagonista político Renato Archer. Apesar da origem espúria do ministério, Archer foi um excelente administrador.

Em seguida veio um político bisonho, Luiz Henrique. Depois ocorreu uma infeliz sucessão de políticos, quatro ao todo. Nenhum merece ser lembrado. Culminou com um fisiológico Roberto Cardoso Alves, que propôs a extinção do MCT, substituído por uma secretaria do Ministério da Indústria e Comércio Exterior –  dirigida por um esquecível engenheiro, Décio Leal.hoverboard

Aí veio Fernando Collor, com o que a ciência voltou às mãos de intelectuais: José Goldemberg, Edson Machado e Hélio Jaguaribe. Mas o status, o reconhecimento, continuava o mesmo, o de secretaria, ligada à Presidência.

Com a queda de Collor e posterior eleição de Fernando Henrique Cardoso, a esperança de reconhecimento da pesquisa se avoluma, principalmente com o restabelecimento do Ministério da Ciência e Tecnologia e da escolha de José Israel Vargas, um intelectual respeitado, para dirigi-lo. Regozijou-se a comunidade acadêmica com o aumento do percentual do PIB atribuído ao setor de Ciência e Tecnologia.

Mas logo percebeu-se que era uma farsa, pois esse aumento era devido a uma engenhosa concessão às montadoras de veículos, supostamente como pagamento de tecnologia comprada pelas filiais brasileiras. Uma burla que, uma vez denunciada, provocou a queda de Israel Vargas.

Seguiram Luiz Carlos Bresser-Pereira e Ronaldo Sardenberg. Todavia, a atuação do MCTI continuou marginal devido ao orçamento diminuto e pouco prestígio no interior do próprio governo federal. O governo do suposto intelectual Fernando Henrique foi talvez o menos bem-sucedido tanto no que diz respeito ao ensino superior quanto à Ciência e Tecnologia, sem uma única iniciativa relevante em ambos.

Durante a administração PT, após um início conturbado com um político na direção do MCT, acontece o período de atuações melhor reconhecidas, iniciando-se com Eduardo Campos, seguido hoverboard dos acadêmicos Sergio Rezende, Aloysio Mercadante, Marco Antonio Raupp e Clelio Campolina Diniz, com significativo aumento de recursos financeiros.

Voltou recentemente (2015) o MCTI às mãos de políticos, e agora recentemente temeu-se que dele se apossará uma seita pentecostal. Creio, entretanto, que essa ameaça não foi mais que um ardiloso artifício, o bode fedido para ser retirado oportunamente.

Depois disso, qualquer um é aceito. Em resumo, Ciência e Tecnologia ainda não é aceito como um valor de sobrevivência pela comunidade política e população brasileiras. Nossos cientistas e técnicos têm que descer de suas torres de marfim e fazer um grande esforço para convencer não mais apenas empresários, mas também políticos profissionais e administradores, assim como a população em geral, de que pesquisa é essencial para o bem-estar social.

Rogério Cezar de Cerqueira Leite é físico e professor emérito da Unicamp. Integra o conselho editorial do jornal Folha de S.Paulo. É membro do Conselho de Ciência e Tecnologia da Presidência da República e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social. É presidente do Conselho de Administração do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM).