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Reportagem
Desafios velhos e novos na popularização da ciência
Por Patrícia Santos
13/05/2016
É conhecida a afirmação de que cientistas devem se engajar na popularização dos temas de ciência. Também é comum que se mencionem barreiras para isso, como tensões entre pesquisadores e meios de comunicação, imprecisões nas publicações que saem na mídia ou, ainda, falta de motivação e de capacitação dos pesquisadores ou dos comunicadores. Estudos recentes sobre o assunto se aprofundam na análise.

Em artigo de 2014, John Besley relata a pesquisa feita com 431 filiados à American Association for the Advancement of Science (AAAS) nos EUA. Ele aponta que os participantes têm visões positivas sobre engajamento do público nas questões de ciência, uma percepção que, em sua análise, deve ser incentivada, mostrando o potencial dessa contribuição. Isso é também uma maneira de recrutar mais cientistas para tais atividades. Para Besley, as organizações que cobram o envolvimento dos pesquisadores devem fornecer orientações sobre como isso pode ser feito, para que o tempo dedicado a essas atividades seja mais eficaz, uma das preocupações apontadas pelos entrevistados.

Um estudo mais amplo corrobora a visão favorável à divulgação, mas também aponta preocupações que a interação com a mídia (em referência especificamente a meios jornalísticos) pode influenciar no “fazer ciência”. O artigo, de 2012, de Hans Peter Peters, relata o estudo com 1354 pesquisadores biomédicos na França, Alemanha, Japão, EUA e Reino Unido, além de 45 entrevistas com profissionais de relações públicas da mesma área, na França, Alemanha e Reino Unido. Os resultados indicam que o relacionamento com a mídia faz parte da rotina desses pesquisadores, já que 59% disseram ter tido esse contato nos três anos anteriores, sendo 30% seis ou mais vezes, e, segundo o autor, isso tem sido crescente nas últimas décadas.

Os pesquisadores participantes do estudo veem seus contatos com a mídia de maneira positiva, e isso tem menos a ver com o conteúdo e a qualidade das publicações, e mais com o impacto esperado para o reconhecimento e apoio ao trabalho, segundo o autor.

Os motivos para rejeitar ou aceitar contato com a mídia divide as opiniões: uns temem críticas dos pares (42%), enquanto outros acham que melhora sua reputação entre colegas (39%). Para Peters, essa ambivalência provavelmente tem a ver com condições em cada caso – características do cientista e do tipo de veículo, por exemplo. Outro dado do estudo é que 31% dos respondentes disseram participar de treinamento de comunicação como workshops, sendo 11% para mídia de massa.

Outra questão analisada foi o uso antecipado de critérios da mídia na comunicação pública, e também em processos internos e decisões sobre a pesquisa. A maioria dos entrevistados (64%) disse ter colegas que tomaram decisões por conta de critérios de mídia, como escolher ou evitar certas questões, métodos de pesquisa, colaboradores, acelerado ou atrasado uma publicação.

Junto com outros dados analisados, Peters conclui que a “medialização” da ciência é forte e se dá na interação entre cientistas e organizações com a mídia, conforme eles antecipam os critérios usados pelos veículos de comunicação para gerar notícias. Isso permite legitimar a ciência por meio da comunicação pública, uma vez que a ideia, em geral, é demonstrar a importância da pesquisa para a sociedade e para os financiadores. Pode haver diferenças em cada contexto, e de campos de pesquisa, o autor ressalta.

O artigo chama a atenção para as consequências dessa antecipação dos critérios de mídia pelas fontes científicas: ênfase na utilidade prática imediata da ciência, prejuízo para a lógica e autonomia científica, foco no caráter competitivo e enquadramento organizacional dos resultados. Segundo Peters, uns podem achar que essa visão não causa danos, mas ela cria a expectativa de que a ciência seja estruturada, correta. No entanto, os processos envolvidos e as controvérsias, na prática, podem se opor à legitimidade defendida na comunicação.

Enquanto isso, no Brasil, as iniciativas que envolvem pesquisadores na popularização da ciência têm aumentado, mas ainda são incipientes. Uma medida importante para registrar essas ações é de 2012, quando o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) incluiu uma área para as atividades de popularização da ciência no currículo Lattes, plataforma online para atividades acadêmicas amplamente utilizada no Brasil. Outra medida do órgão é o financiamento de projetos de pesquisa que incluam ações de popularização, por meio de editais para os Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs).

Em nível estadual, a Fapesp é outra instituição que subsidia a divulgação científica ligada a projetos de pesquisa, por meio dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepids). Há ainda as bolsas do Programa José Reis, que apoiam pesquisa e produção jornalística sobre questões da ciência.

Carlos Eduardo Lins da Silva, consultor de comunicação da Fapesp, afirma que a fundação tem outras formas de engajar cientistas na divulgação científica, como por meio dos conselhos editoriais de seus veículos, como é o caso da revista Pesquisa Fapesp. Assim, pesquisadores opinam na definição de pautas, entre outros processos de produção. Não há dados sobre a evolução dessa participação e, apesar de estimar que o engajamento dos cientistas tem sido crescente, Lins da Silva vê lacunas na divulgação, que podem ser preenchidas. “Ainda há muito a ser feito nas mídias sociais como Facebook, Twitter, entre outras. Essa é uma área que nós temos que investir mais”, diz.

Engajados online

Nos blogs, pelo menos, muitos cientistas já se sentem em casa, e esse talvez seja o meio mais consistente de engajamento em publicações abertas ao público. Uma amostra das páginas brasileiras pode ser encontrada na rede Science Blogs Brasil. Criada em 2008, a plataforma se autodenomina um condomínio de blogs de ciência, e conta com publicações que abordam todas as áreas da ciência.

Nesse tipo de engajamento, no entanto, o diálogo com o público não é o objetivo principal. Essa foi a conclusão do artigo de Isaltina Gomes e Natália Flores, de 2016, ao analisar 1.329 posts de 43 blogs de cientistas brasileiros. As autoras identificaram maior tendência para essas publicações serem usadas como espaço para o cientista colocar-se como protagonista, exprimir sua autoimagem, seu perfil opinativo e subjetivo, mais do que para divulgar temas científicos. "O cientista se posiciona como divulgador da ciência, para divulgar a pesquisa, mas se coloca como protagonista também. Opinando, falando sobre o sistema científico, sobre o papel do cientista. A questão da divulgação é menor", explica Gomes.

Para as autoras, o impacto dessa atuação seria maior como ativismo, atuando politicamente em prol da ciência. A pesquisadora observa: “no fundo, os blogs de divulgação são direcionados aos pares, às pessoas que convivem com a ciência. Mas esse engajamento é muito bem-vindo, porque chegará até as pessoas que têm algum controle sobre as políticas de ciência no país, e aí é uma contribuição".

Para Marcelo Knobel, professor da Unicamp com diversas atuações em divulgação científica, a tendência é que essas atividades sejam cada vez mais parte da cultura na ciência. Ele vê a necessidade de mais incentivo institucional, com ações integradas aos projetos de pesquisa. 

Na visão do professor, há, em geral, pouco engajamento dos cientistas brasileiros na divulgação para o público. Uma possível razão para isso é o excesso de especialização na formação do cientista e falta de contato com a área de comunicação, o que leva à necessidade de formação mais ampla. "Durante a minha graduação, como físico, como acontece também com químicos biólogos, ninguém tem uma aula sequer de ética, sociologia, ou de qualquer outra coisa que possa ampliar os seus horizontes no que se refere a essas questões do debate público. Então os cientistas, em geral, vão reproduzindo padrões, e não têm esse conhecimento. O que a grande maioria dos grupos acaba fazendo é 'como a gente vai se livrar desse problema?' Então o grupo, como um todo, não se engaja nesse processo, o encara como uma obrigação".

Iniciativas emergentes

Ainda que falte formação, incentivos e conteúdos, há quem procure novas formas de driblar essas dificuldades para promover a participação de cientistas na divulgação. Em Campinas (SP), o evento “Chopp com Ciência” está em sua 11ª edição e semanalmente tem levado a bares da cidade assuntos como células-tronco, ondas gravitacionais, vigilância e privacidade, entre outros. Trata-se de um happy hour com um cientista convidado para uma conversa, “sem Power Point”, como faz questão de destacar o grupo de cientistas-divulgadores que organiza os encontros.

Há mais eventos desse tipo, e até de maior abrangência, como o festival internacional de divulgação científica “Pint of Science”. Com origem inglesa, propõe bate-papos com cientistas em locais descontraídos como bares e cafés. Esse ano, os encontros serão realizados de 23 a 25 de maio em 12 países. A programação no Brasil acontecerá nas cidades paulistas de Campinas, Ribeirão Preto, São Carlos e São Paulo, além das capitais Rio de Janeiro e Belo Horizonte.

Há ainda outro tipo de engajamento de cientistas, que traz à tona demandas já reconhecidas em países com experiências de democratização da ciência, a chamada governança responsável. O termo quer dizer a coordenação de diferentes atores sociais de forma horizontalizada no mesmo diálogo: cientistas, pacientes, escolas e mídia, por exemplo. De acordo com Paulo de Freitas Castro Fonseca, pesquisador na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), essa necessidade está presente nos EUA e Europa e vem se consolidando como responsable research innovation. Refere-se especialmente a tecnologias emergentes, aquelas que estão começando, ou a ponto de entrar no mercado, mas ainda não estão totalmente disponíveis.

Um exemplo é a nanotecnologia, que nos anos 2000 motivou iniciativas que incluíssem uma governança mais responsável, evitando os erros cometidos no passado, como aconteceu, por exemplo, no caso dos transgênicos.

“Houve grande abertura por parte dos governos, especialmente da Comissão Europeia, para pesquisadores da área de ciência tecnologia e sociedade (CT&S) e de comunicação em ciência, para desenvolverem iniciativas que, de fato, buscassem, dessa vez, com a nanotecnologia, um debate com as populações, uma comunicação aberta”, conta Fonseca. A proposta não é discutir questões técnicas com leigos, mas as linhas de pesquisa, os riscos envolvidos, a percepção do público sobre a tecnologia e sua pertinência.

Nesse contexto participativo, o modelo de déficit da divulgação científica para lidar com o público ficou para trás. Essa perspectiva considera que as pessoas rejeitam as inovações porque não têm conhecimento suficiente sobre o assunto. “Essa foi a visão de comunicação da ciência que imperou a partir dos anos 1970 e 1980, mas hoje é considerada ultrapassada, sobretudo na Europa”, afirma o pesquisador.

Quanto ao Brasil, a análise de Fonseca é que as atividades de comunicação da ciência, em geral, permanecem baseadas no modelo unidirecional, de transferência dos especialistas para as pessoas. Essa visão mostra um distanciamento do debate sobre preceitos mais eficazes de comunicação. No entanto, isso não quer dizer que os cientistas não estejam abertos a outras possibilidades de comunicação mais interativas. Segundo a pesquisa de Fonseca, feita a partir do caso do INCT em nanoestruturas de carbono, há abertura para promover, por exemplo, a avaliação de tecnologias com a participação do público.

Na governança antecipatória, a pesquisa inclui novas dimensões. “Não é simplesmente informar o que é a nanotecnologia e como pode resolver problemas, mas promover exercícios de participação da sociedade civil. Por meio dessa interação os cientistas podem se tornar mais reflexivos e mais conscientes das suas próprias responsabilidades. São tecnologias que devem contribuir substancialmente para a cura do câncer, para a questão energética e diversos desafios. Mas, por outro lado, oferecem riscos, e não são poucos”, afirma o pesquisador.