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Drones e abelhas - Carlos Vogt
Reportagens
Da guerra à paz, uma incursão pelo mundo dos drones
Erik Nardini
As vantagens do monitoramento ambiental por veículos aéreos não tripulados
Aline Meira Bonfim Mantellatto
Regulamentação do uso civil de drones no Brasil gera debate entre pesquisadores
Sarah Schmidt
Substitutos, armas de guerra ou brinquedos espaciais: os drones na ficção
Paulo Muzio e Tiago Alcantara
Mercado de drones está aquecido e cheio de inovações
Viviane Lucio
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Os drones estão chegando: uma perspectiva de direitos e responsabilidades
Anselmo José Spadotto
Para evitar os 'inconvenientes' da guerra, use drones
Alcides Eduardo dos Reis Peron
Uso de drones no monitoramento da Amazônia
Eristelma Teixeira de Jesus Barbosa Silva
Entre satélites e marimbondos: drones em favor da pesquisa e preservação do patrimônio arqueológico
Paulo Zanettini
Drones, mediação vertical e classe alvo*
Lisa Parks
Resenha
Teoria do drone
Patrícia Santos
Entrevista
Geraldo Adabo
Entrevistado por Thais Marin
Poema
Planimetria
Carlos Vogt
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Entrevistas
Geraldo Adabo
Fiscalização de fronteiras, monitoramento agrícola, levantamento de informações em áreas atingidas por desastres ambientais, busca por focos do mosquito da dengue, vigilância de locais com grande concentração de pessoas, captação de imagens para o cinema e a televisão. Estas são apenas algumas das possibilidades de uso dos veículos aéreos não tripulados (VANTs), popularmente conhecidos como drones, adotadas no Brasil. A ComCiência entrevistou o professor Geraldo Adabo, engenheiro eletrônico e coordenador do projeto do sistema VANT do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), para saber mais sobre o mercado brasileiro de drones e as iniciativas do instituto na fabricação desses veículos que têm ocupado cada vez mais nosso espaço aéreo.
Thais Marin
03/06/2016
Qual é a posição do Brasil em relação ao mercado mundial de construção de drones?

É sabido que esse mercado é emergente em todo o mundo, tendo-se obtido expressivos desenvolvimentos na área militar, especialmente nos países mais desenvolvidos. Entretanto, na indústria voltada para o mercado comercial, o paradigma é diferente, pois busca-se a redução de custos e o aumento da eficiência com redução de riscos. Mas como a regulamentação aeronáutica desses sistemas está se estabelecendo agora em todo o mundo, não se observa grandes disparidades internacionais, até o momento. Porém, nos Estados Unidos e na Europa, a evolução tende a ocorrer rapidamente. Por outro lado, o Brasil possui demandas muito expressivas, devido à sua grande extensão territorial e vocação para agricultura. Essas demandas podem acelerar o desenvolvimento da nossa indústria de VANTs, que ainda é pequena.

Como é feito o processo de certificação e registro dos drones? Quais são os pré-requisitos?

Atualmente, existe a possibilidade de obtenção do Certificado de Aeronavegabilidade para Voo Experimental (Cave), através da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil). O objetivo é viabilizar o desenvolvimento de um sistema que se pretende seja um produto comercial no futuro. Os pré-requisitos são relacionados com a segurança do voo, principalmente. Acredito que brevemente será publicada a regulamentação, aplicável aos usos comerciais e corporativos, que será o divisor de águas para as atividades industriais e de prestação de serviço com VANTs no Brasil.

Em termos da regulamentação do uso de drones, como o Brasil se insere no cenário internacional? Estamos atrasados?

Através da Anac e do Decea (Departamento de Controle do Espaço Aéreo), o Brasil tem participado dos fóruns internacionais que buscam regulamentar essa atividade no contexto global. É sabido, no entanto, que outros países já possuem sua regulamentação e estão, portanto, avançados em relação ao Brasil.

Quanto de tecnologia nacional é utilizada nos drones construídos no país?

Atualmente, partes da tecnologia utilizável podem ser consideradas commodities, como acontece nos demais setores da tecnologia mundial, inclusive na indústria aeronáutica, onde o Brasil tem destaque. Há que se refletir na área de VANTs o mesmo que ocorre na indústria aeronáutica nacional, onde o nosso know-how está principalmente em concepção, projeto, integração, testes, certificação e fabricação dos produtos. Entretanto, há sistemas que são específicos para uma aplicação ou inovações que foram obtidas e resultaram em novos equipamentos e poderão ser industrializadas se houver demanda de mercado compatível com os investimentos necessários. Em suma, o percentual de tecnologia nacional nos futuros produtos comerciais nacionais dependerá muito da força do mercado interno enquanto demandante dessa tecnologia.

Quais são os principais desafios tecnológicos para a construção de drones hoje no Brasil?

O primeiro obstáculo hoje ainda é a regulamentação aeronáutica, embora tudo indique que brevemente isso deixará de ser um entrave. A partir daí, eu entendo que haverá uma corrida contra o tempo envolvendo provedores e usuários da tecnologia, quando se revelará a potencialidade real do mercado interno. Nesse momento, surgirão outros desafios, como recursos humanos especializados na proporção e disponibilidade necessárias, investimentos em empresas, criação de novos negócios, entre outros.

A empresa de consultoria Pricewaterhouse Coopers acabou de divulgar relatório em que estima em mais de US$ 127 bilhões o valor do emergente mercado mundial de drones. Segundo o relatório, a maior demanda vem da área de infraestrutura, seguida pela agricultura, transportes e segurança, entre outras. Quais são as principais demandas do mercado brasileiro?

São muitas as demandas nacionais, mas creio que a mais natural é a agricultura, pela extensão territorial brasileira e sua notável vocação agrícola. Entretanto, acredito que a área de infraestrutura deverá ser a primeira a se beneficiar efetivamente dessa tecnologia, devido à natureza tipicamente tecnológica envolvendo os setores elétrico e de óleo e gás, por exemplo. Em seguida vem a área de segurança pública e patrimonial. Mas certamente caminharemos para aplicações em transportes e diversas outras.

Quando e como se iniciou a atuação do ITA na fabricação de VANTs?

Através de sua história, o ITA se consolidou como referência e liderança tecnológica do setor aeronáutico, desde o seu protagonismo na criação da Embraer até os dias de hoje, atuando como laboratório de inovações e reconhecido como referência na área de manufatura aeronáutica. Há mais de dez anos, diversos grupos de trabalho dentro do ITA iniciaram pesquisas e desenvolvimentos na área de VANTs, tendo ao longo desse tempo criado soluções para finalidades específicas, umas mais voltadas para a obtenção de resultados de impacto acadêmico e outras mais voltadas para a geração de soluções que possam atender demandas do mercado.

O ITA está em processo de certificação de um sistema de VANT desenvolvido em parceria com a Chesf (Companhia Hidroelétrica do São Francisco) para o monitoramento de 20 mil quilômetros de linhas de transmissão de energia. Quais são as vantagens do uso de VANTs nesse tipo de atividade?

Dentro desse esforço, já foram cumpridas duas fases de desenvolvimento do projeto, de acordo com a metodologia da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica): a primeira, de pesquisa aplicada, e a segunda, de desenvolvimento experimental. Ao final da fase 2, obteve-se a validação do protótipo experimental que integrou as diversas soluções desenvolvidas no contexto da execução do projeto. Do ponto de vista operacional, a inspeção aérea de linhas de transmissão é realizada com helicópteros tripulados, que é uma atividade de alto custo (aeronave e pilotos) e alto risco devido à natureza da operação, que requer voo em altitude próxima ao solo. Junto com a Chesf, temos buscado uma solução de relativo baixo custo para o sistema não tripulado. Além disso, tratando-se de robótica aérea, as operações serão padronizadas, de modo a se repetirem periodicamente com os mesmos parâmetros de voo e imageamento, a fim de criar séries históricas de imagens e relatórios de manutenção para cada ativo da companhia. As necessidades de ações de manutenção serão identificadas automaticamente por programas que processam dados de imagem, passando depois pela validação do especialista da Chesf. Aumentando-se a eficiência e melhorando-se a efetividade do processo de manutenção, colabora-se para o aumento da disponibilidade das linhas e, consequentemente, com o fornecimento de energia elétrica aos consumidores.

Quais os diferenciais técnicos dos equipamentos projetados para essa parceria?

A solução aeronáutica desenvolvida levou em consideração os requisitos operacionais, ou seja, voo em baixa altitude e baixa velocidade, para priorizar a qualidade das imagens, e missões de longas distâncias, devido à extensão do sistema elétrico. A captura de imagens se dá no espectro visível, para observação geral da linha e seu entorno, e no espectro infravermelho, para identificação de pontos quentes que indicam a iminência de falhas dos componentes da linha. Foi desenvolvida uma solução específica para a comunicação entre a estação de controle e a aeronave para as condições de operação.

http://comciencia.br/imagens/entrevista/Delta_e_Beta.jpg
VANTs desenvolvidos pelo ITA para o projeto em parceria com a Chesf:
a aeronave Delta V (esquerda), em fase de certificação, tem 25 kg, e a aeronave Beta (direita), tem 50 kg.
Imagens: Julian Bareiro

De que maneira os alunos do ITA participam desse projeto? 

Os alunos do ITA, tanto em nível de graduação como de pós-graduação, participam do projeto através de estudos de temas específicos, cujos produtos são: trade-off studies, simulações, sistemas e implementações práticas. Geralmente, os trabalhos dos alunos são desenvolvidos no contexto de bolsas de iniciação científica, trabalhos de graduação, teses acadêmicas ou dissertações do mestrado profissional.

Quais as próximas fases do projeto ITA-Chesf?

A próxima será a fase 3 (cabeça de série), que contempla melhorias no sistema já desenvolvido, atualizações tecnológicas, melhoria da confiabilidade dos sistemas, tudo visando à pré-industrialização do sistema. Serão realizados testes exaustivos no ambiente operacional da Chesf para ganho de maturidade do sistema, melhoria de desempenho e inserção tecnológica na companhia. A fase seguinte será a produção de um lote pioneiro com a participação efetiva do setor industrial.

Há outros projetos envolvendo VANTs sendo desenvolvidos pelo ITA atualmente?

Há várias iniciativas no ITA envolvendo VANTs, seja pelos estudos teóricos e ensaios aerodinâmicos de soluções inovadoras ou pela implementação e ensaio de novas leis de controle de voo das aeronaves ou ainda para desenvolvimento de sistemas avançados de guiamento e controle de aeronaves associados ao apontamento de câmeras. Há ainda esforços na área de multirotores. Em suma, há diversos grupos no ITA envolvidos com pesquisas complementares na área de VANTs.