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Agroecologia e meio ambiente* - Calos Vogt
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Plantas não convencionais são utilizadas como alternativa na alimentação
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Reportagem
Plantas não convencionais são utilizadas como alternativa na alimentação
Por Juan Mattheus
10/10/2016

Você possivelmente já deve ter ouvido falar de plantas como taioba, serralha, onze horas e, um dos símbolos da Amazônia, a vitória-régia, certo? Elas podem ser consideradas o que pesquisadores chamam de plantas alimentícias não-convencionais, ou melhor, as pancs.

Dentre os pesquisadores das pancs está o biólogo do Instituto Federal do Amazonas (Ifam), Valdely Kinnup, que desde a infância as consome e que tem na família uma tradição na agricultura. Kinnup conta que o pai sempre teve grande conhecimento da flora local (na região Sudeste) e que, sempre que possível, trazia algum tipo diferente de planta para comer ou tratar enfermidades.

“Um exemplo de uma planta que consumo desde criança, é a serralha, bastante comum em Campinas. Em um evento de agricultura orgânica que participei, preparei uma salada de serralha e as pessoas adoraram, simplesmente pelo fato de eu picar e esfregá-la com a mão para tirar o gosto amargo. É bastante comum no Sudeste, mas quase não é consumida”, explica Kinnup.

Sobre a descoberta de novas espécies de pancs, o engenheiro agrônomo Harri Lorenzi afirma que a lista aumenta, pois todos os dias se está fazendo análises bromatológicas, químicas, nutricionais. "Hoje, essa lista já pode chegar acima de 900 espécies, que podem ser consideradas comestíveis e aproveitáveis para consumo humano”, explica.

Livro de receita não convencional

Do interesse dos dois pesquisadores surgiu o livro Plantas alimentícias não convencionais no Brasil. O livro traz 1.053 receitas ilustradas e foi escrito em parceria de Kinnup com Harri Lorenzi, que é diretor do Instituto Plantarum. O instituto Plantarum é um centro de referência em pesquisa e conservação da flora brasileira, localizado em Nova Odessa, interior de São Paulo.

As receitas do livro são criações nossas. É fruto de um trabalho de etnobotânica econômica de 50, 100 e, até mesmo, de duzentos anos atrás. As informações nós trouxemos a partir de literatura, de trabalhos clássicos muito antigos, baseados em registros de naturalistas que passaram por aqui nos séculos XVII e XVIII”, explica Kinnup.

Como exemplo de pancs, Kinnup surpreende com os mais variados usos que deu para um dos símbolos do Brasil, a vitória-régia (ou victoria amazônica). “Usam-se as flores para fazer geleia, salada e enfeitar pratos. Outro uso dela é o milho – as sementes que estão dentro de um fruto grande que ela possui, similar ao milho – porque ele estoura e vira uma pipoca. E, claro, se pode se fazer pipoca, é possível fazer farinha, mingau e outros produtos a partir dessas sementes", explica Kinnup.

Tesouro nacional

A biodiversidade brasileira é tema de muitos estudos e admirada pelo mundo, entretanto, pouco é feito para dar o real valor ao que oferece. Em seu artigo "Plantas alimentícias não-convencionais (pancs): uma riqueza negligenciada", Kinnup aborda o potencial alimentício do país. "Quais são as espécies de frutas e hortaliças nativas produzidas em larga escala? Quais passaram por pesquisas? Existem programas governamentais efetivos que incentivem ou, ao menos, não criem empecilhos para o cultivo e manejo de espécies alimentares nativas? Essas são apenas algumas questões inquietantes referentes à forma mais básica de uso, a alimentação", questiona o pesquisador.

A ideia das pancs é trazer a diversificação no consumo de verduras e legumes, ou seja, deixar de importar produtos caros como o aspargo, do Chile e da França, ou mesmo legumes não comuns na Amazônia, como brócolis e couve-flor, que chegam com preços altos ao mercado.

Para o coautor do livro, Harri Lorenzi, nos últimos 40 anos, o cardápio das pessoas vem se restringindo a um pequeno número de plantas. "A cada dia, menos plantas são ofertadas no mercado, isso é péssimo, pois estamos limitando a quantidade de nutrientes que o nosso organismo pode aproveitar. Uma das razões para escrever o livro foi mostrar que muitas outras plantas podem ser consumidas sem risco".

Lorenzi ainda complementa dizendo que nem todas as pancs precisam ser cultivadas. Na verdade, o grande interesse é que são plantas espontâneas, urbanas. "As pancs não são um novo grupo que se pensa em cultivar – lógico que algumas podem ser cultivadas – mas o grande lance de serem úteis, é que já estão disponíveis. O mais importante não é colhê-las, e sim conhecê-las, para não cometer erros e consumir coisas inadequadas”, explica Lorenzi.

Resgate do conhecimento tradicional

Desde de 2011, a Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (Apta), implementa trabalhos de difusão do conhecimento das pancs. Esse trabalho é realizado na região do Vale do Paraíba, abrangendo 39 municípios paulistas, onde predominam pequenas e médias propriedades agrícolas, com características de agricultura familiar. Nesses locais são realizadas visitas técnicas, que possuem como foco o sistema de produção agroecológico. Práticas ecológicas de manejo do solo como cultivo mínimo, consórcios, adubação verde, compostagem e plantas companheiras são repassadas aos participantes.

Parcerias com universidades, escolas municipais e colégios técnicos são realizadas, estudantes fazem estágios e vivências na unidade, sendo abordados desde aspectos botânicos e técnicos de cultivo das hortaliças, produção de substratos orgânicos e mudas, identificação de pragas e doenças, a preparo de caldas alternativas e biofertilizantes.

Os projetos têm o objetivo de promover políticas públicas focadas na pesquisa participativa agrícola e desenvolver novos modelos de sistemas de produção de base agroecológica, considerando as especificidades regionais. A intenção é estimular as famílias rurais a permanecerem no campo, com qualidade e respeito ao seu conhecimento, com geração de renda e produção diferenciada.