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Reportagem
O papel da crítica de cinema permanece importante em meio às mudanças sociais e culturais
Por Patrícia Santos
10/11/2016

O cineasta François Truffaut registrou o que se dizia sobre Hollywood nos anos 1970: todos têm duas profissões – a própria e a de crítico de cinema. Hoje a expressão poderia ser mais verdadeira diante da maior facilidade para se assistir e criar sites próprios sobre o tema. Porém, de acordo com críticos e pesquisadores da área, enquanto as mídias digitais se proliferam, a crítica de cinema está menos presente. As mudanças nesse cenário trazem novos desafios para os críticos profissionais.

A crítica é um gênero de escrita exercido no âmbito jornalístico e acadêmico. Ivonete Pinto, pesquisadora e professora da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), diferencia formas de abordar o cinema: a notícia é baseada em informação sobre o filme, podendo ser produzida por não especialistas em cinema. Já a crítica precisa fazer a conexão com a obra de arte, o texto é reflexivo e inclui uma opinião mesmo que não se escreva em primeira pessoa. Por essa análise, passam os interesses, crenças, formação, portando um embasamento. Já a análise fílmica, para publicações acadêmicas, é sustentada por teorias, e aponta a bibliografia utilizada. Porém, apesar de a crítica jornalística não exigir que se apresente uma base teórica, ela se desenvolve a partir de uma formação em cinema que é essencial ao crítico. Nesse sentido, é preciso ver onde o crítico está escrevendo e qual o seu público, segundo a pesquisadora.

Na análise de Ivonete Pinto, desde o início da história do cinema, o papel da crítica tem sido o de aproximação entre o filme, o diretor e o espectador. Tem ainda a função de divulgação, ao oferecer informações sobre a obra, embora essa não seja sua tarefa principal.

Na visão do crítico de cinema, pesquisador e professor Sérgio Alpendre, também faz parte do papel da crítica pressionar para que o artista faça uma melhor arte, assim como a arte melhor, por sua vez, pressiona o crítico a aprimorar seu trabalho. Esse papel “também é promover uma troca de sensibilidades entre o crítico e o leitor, como entre o artista e o crítico. Concordo com Oscar Wilde quando ele diz que um artista cria uma obra a partir de seu entendimento do mundo e o crítico cria uma obra a partir de seu entendimento da obra do artista. Nesse sentido, a crítica é, também, uma arte, em forma literária”, diz.

No cenário de crescimento de veículos dedicados a cinema – como sites independentes, blogs, vlogs e podcasts –, em vez da crítica cinematográfica, são cada vez mais comuns os conteúdos sobre cinema mais superficiais, dirigidos a um público amplo.

São publicações amadoras, normalmente vistas de forma negativa pelos especialistas. No entanto, elas não podem ser culpadas pela redução do espaço da crítica, de acordo com a professora Ivonete Pinto. Ela pondera que o problema é sistêmico, não afeta apenas a crítica de cinema, mas o modelo de negócios de mídia, com a queda de assinaturas, de publicidade e, entre outras consequências, os cortes de profissionais. Assim, a vinculação aos jornais passou a ser menor e na forma de prestação de serviços, portanto, recebe-se por artigos que “emplacaram” no mês.

Nesse contexto, José Gatti, pesquisador e professor na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), avalia que o mais comum são resenhas promocionais de filmes comerciais, até mesmo nos veículos de grande circulação como as revistas Veja, IstoÉ e Época. “A maioria das pessoas são funcionários de redações, porque o jornalismo está vilipendiado e há poucas chances de exercê-lo. Você cumpre uma meta ideológico-partidária e, no caso do cinema, uma meta comercial, falando dos filmes que estão no Cinemark e não de filmes instigantes, menos interessantes comercialmente”, afirma.

Inácio Araujo, crítico de cinema colaborador da Folha de S. Paulo, acrescenta que o problema da crítica faz parte de um contexto ainda mais amplo, que é o da demanda por uma comunicação acelerada e superficial, seja sobre cinema ou não. Nesse sentido, existe um esforço industrial para valorizar o novo, que se desgasta rapidamente. Pare ele, não há espaço para valorizar as referências do passado – e a crítica, por natureza, é elaborada a partir de referenciais cinematográficos.

Mesmo assim, continua sendo possível fazer crítica em meios jornalísticos. Gatti cita o próprio Inácio Araujo como referência. “Ele põe o dedo na ferida, é capaz de escrever sobre um filme da Marvel e do Godard, e num microespaço”. Faz referência também a suplementos literários como o blog do Instituto Moreira Sales, em que o leitor pode encontrar maior reflexão ensaística.

Tendência de segmentação

Ao mesmo tempo em que as publicações dedicadas ao cinema aumentam, cresce também o interesse pela atuação profissional, segundo Ivonete, que participou da fundação e foi vice-presidente da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine), além de sócia fundadora e ex-presidente da Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (ACCIRS).

Para que a filiação seja aceita, as entidades avaliam o que o interessado já publicou, o tempo em que exerce a atividade, sua formação em história e linguagem cinematográfica, mesmo que seja autodidata, entre outros elementos que diferenciam o crítico do comentarista para as associações.

Com a mudança na relação entre empresas e profissionais, esses críticos atuam em outras funções, como curadoria de festivais, produção de catálogos e programação de salas de cinema. A pesquisa e a docência são caminhos comuns, como é o caso de Inácio Araujo, que ministra em São Paulo um curso de história do cinema, que está na 18ª turma. Sérgio Alpendre também vê essa tendência: “não existe mais crítico de cinema profissional. O que existe são acadêmicos e jornalistas (eu, por acaso, sou os dois), e críticos amadores (o que procuro ser com a Interlúdio). Por isso tantos críticos enveredam para a academia. A pesquisa e o magistério são os únicos caminhos possíveis para o pensamento no Brasil. Talvez nem isso num futuro próximo”.

Outra tendência, na visão de Ivonete Pinto, é a publicação da crítica em novos formatos como é caso dos podcasts – publicações em áudio. “Nesse caso, as coisas estão num limbo de interpretação. Isso é crítica? Num sentido mais amplo, eu diria que sim. Tem um certo nível de profundidade no comentário? Será que o público-alvo está apreendendo da mesma forma?”, questiona. A pesquisadora aponta que as associações de críticos não têm ainda uma posição sobre a filiação desse tipo de comentarista.

Formação, produção e crítica

A sobrevivência da crítica de cinema tem relação com um contexto em que a arte se insere. Isso tem relação com estruturas correlacionadas a ela, e acontecido de maneiras diferentes em cada sociedade, de acordo com Ismail Xavier, professor associado da USP, autor de artigos e livros sobre cinema. Em parte da entrevista à Revista Brasileira de Estudos do Audiovisual (Rebeca) em 2014, ele analisa a relação entre produção de cinema, formação especializada e desenvolvimento da crítica.

Xavier relata que no início do século XX, os cineclubes formavam pessoas, geravam debates e produção teórica sobre cinema, juntamente com os periódicos. “A maioria dos teóricos ou eram críticos que publicavam em periódicos ou eram cineclubistas”, diz. Esse núcleo foi para as cinematecas nos anos 1930 (anos 1950 no Brasil) e, mais tarde, nas universidades, nos anos 1960-70. No Brasil, havia uma relação forte entre o movimento estudantil, o cineclubismo dentro da universidade, e o universo da cultura cinematográfica. O curso de cinema da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP é uma extensão desse percurso cineclubismo-cinemateca-universidade, segundo o professor.

As publicações sobre cinema também são espaços fundamentais de formação do meio cinematográfico e, por consequência, de críticos. No Brasil, referências frequentemente citadas são as revistas Clima (1941), Contracampo (1998) e Cinética (2006). Hoje essa relação também se dá entre as publicações nos meios digitais e o chamado “novíssimo cinema brasileiro”, a proliferação de festivais e de cursos.

Já os estudos cinematográficos – que utilizam ferramentas teóricas para analisar linguagens, efeitos, aspectos sociais, culturais, entre outros, a partir do cinema – são outro espaço a ser mais explorado, na visão de José Gatti, que é também membro fundador da Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual (Socine). “Este campo de pesquisa se aproxima mais da filosofia do que da ciência, que tem sua metodologia científica definida, até mesmo em disciplinas das ciências humanas, como a sociologia, a psicologia. Por isso, o melhor que já foi produzido nos estudos de cinema é no campo do ensaio”, avalia.

Para Gatti, é essencial, sobretudo, exercer a crítica dos meios de comunicação audiovisual. “O campo do audiovisual tem uma importância política tremenda, não apenas quanto à estética, entretenimento, comercial, industrial, sociológica. Que textos estão sendo veiculados na tela? Que espaço está sendo permitido para que grupos se expressem? É democrático? Tem que ser democratizado? Estas são questões fundamentais que têm a ver com a nossa história, momento político, com o audiovisual e com o nosso cinema também”.