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Artigo
A involução da vida do ponto de vista de um homem comum que julga o envelhecimento uma crueldade
Por Sergio Albergaria
10/12/2016

De “amebas originais” evoluímos para “amebas virtuais”, o que, convenhamos, é um significativo avanço, ao menos em direção à mediocridade qualificada dos tempos atuais de mesmices e vazios intelectuais. A evolução é oportunista e aleatória? Pois ora se é! Veja-se o Brasil de 2016.

“A vida evoluiu para melhor?”, é a pergunta que se coloca.

Caso adote os acontecimentos deste ano de 2016 como exemplo, a resposta parece óbvia: a vida involuiu, regrediu, retrocedeu, ou evoluiu para pior, se é possível falar em “evolução” como um avanço e “para pior” como significado de retrocesso, o que resulta em algo paradoxal como avanço rumo ao retrocesso.

Não vislumbro outra definição para o que aconteceu no Brasil, nos EUA e em boa parte do mundo em 2016, exceto um paradoxo político-social em que a vida se transformou numa contradição segundo a qual para evoluir instalou-se a involução, ou seja, o avanço do retrocesso, o progresso do arcaico, o crescimento da regressão.

Em apenas um ano miserável a vida evoluiu não em direção ao futuro, mas rumo ao passado dos tempos mais sombrios e estagnados da humanidade. E essa involução fará estragos futuros consideráveis no conhecimento científico e na sua prática, de magnitude e consequências imprevisíveis e incalculáveis.

Não se lerá aqui uma teoria científica da vida, mas esta na visão de um ser humano comum, sem apelos a aspectos científicos, metafísicos, transcendentais ou religiosos.

Fosse este um texto científico talvez começasse por dizer que a vida tem origem na matéria, e que é feita de reações químicas acidentais entre átomos e moléculas.

Talvez afirmasse que a vida surgiu por geração espontânea no meio aquático, repleto de minerais e substâncias químicas nos primórdios da Terra. Quiçá introduzisse a análise da complexidade de todo o cosmos.

Todavia, esta não é, nem poderia ter a leviandade de pretender-se, uma crônica científica sobre a vida e sua evolução, e sim a narração delas pelo olhar de um homem comum que ultrapassou os sessenta anos de idade e ingressou num estágio em que a aposentadoria é uma estupidez e o envelhecimento uma crueldade.

Penso que evoluir para melhor implica necessariamente envolvimento com a vida, por exemplo, com a imensidão e o furor de uma sinfonia de Beethoven, ou com a suavidade e o lirismo melódico de uma valsa de Strauss, ou a leveza de Schubert, ou de Chopin; ou com a serenidade luxuosa de Mozart; ou com a estrutura soberba e singela, o ritmo contagiante e a harmonia sinuosa de um samba de Cartola, de Nelson Cavaquinho ou de Paulinho da Viola; ou a virulência contundente, a eloquência crítica contagiante e a sensibilidade pungente de Chico Buarque; ou a articulada e meticulosa construção poética de Caetano Veloso e a alegria perfumosa de Gilberto Gil; sem falar nas dores de Lupicínio Rodrigues (porque sofrimento amoroso também é vida) e no alegre descompromisso do “deixa a vida me levar” de Zeca Pagodinho.

Não há como a ciência dar conta de explicar e compreender a evolução da vida sempre em direção ao melhor nos dribles desconcertantes de Mané Garrincha, no avançar suave da “elegância sutil de Bobô”, na matada no peito e no gênio de Pelé, na folha seca de Didi, na regência da bola pela batuta do maestro Dicá, no elástico tortuoso de Rivelino, na formação política das pernas de Sócrates, na eficiência pragmática de Zico, na flexibilidade anarquista de la zurda de Maradona.

A vida é o encantamento e o envolvimento da poesia de Carlos Drummond, Manuel Bandeira, Thiago de Mello, Mario Quintana, Manoel de Barros, Cecília Meireles, Cora Coralina, Adélia Prado, Ana Cristina Cesar, Torquato Neto, Chacal, Cacaso, Paulo Leminski, Waly Salomão.

Desse encantamento e desse envolvimento os raciocínios científicos mais elaborados das teses que tentam explicar e compreender a vida e a sua evolução não conseguem dar conta. Porque apesar do dinamismo da ciência, ela ainda é incapaz de entender a dinâmica da vida em evolução rumo ao melhor da humanidade que ocorre nos detalhes, na singeleza do belo, na simplicidade do mínimo, na modéstia dos pequenos gestos.

De “amebas originais” evoluímos para “amebas virtuais”, o que, convenhamos, é um significativo avanço, ao menos em direção à mediocridade qualificada dos tempos atuais de mesmices e vazios intelectuais.

A evolução é oportunista e aleatória? Pois ora se é! Veja-se o Brasil de 2016. Aqui, neste ano, o processo evolutivo manteve a vida, e com maior oportunidade de passar adiante seus genes, casualmente aos animais humanos anódinos cujas mutações foram mais favorecidas pelo ambiente em que são obrigados a viver de modo idiota, medíocre, manipulados por uma mídia cafajeste e com transformações ocorridas ao acaso das conveniências da elite minoritária e sem ter como objetivo a melhoria das condições de sobrevivência da maioria da população, essa coisa abstrata e indefinível chamada vulgarmente de povo.

A vida dessa espécie fútil evoluiu para melhor. Hoje os medíocres, os frívolos, os reacionários, os conservadores, os retrógrados, os preconceituosos, os discriminadores, os fascistas de todo gênero, se expõem e se mostram com muito maior facilidade e frequência, dado o ambiente propício para o seu desenvolvimento e crescimento.

O trabalho, por outro lado, não dá satisfação de vida. O trabalho, no modo como concebido e praticado pelo sistema capitalista, não satisfaz a necessidade do viver, porque é alienação e exploração humana, mediante uma obsessão produtiva histérica, uma glorificação do trabalho incessante e insano.

O trabalho, do ponto de vista do sistema capitalista, é uma distração durante o exercício das tarefas, um método eficiente e eficaz de abstração que aliena o ser humano da sua realidade e o retira da visão de si mesmo. É um instrumento capaz de distrair o ser humano de sua capacidade de transformação pessoal e social; de aceitar passivamente sua falta de poder; e de ter como única bússola de vida a imorredoura esperança em dias melhores.

Vivemos para trabalhar ou trabalhamos para viver? No mundo do deus mercado vivemos para pagar boletos, faturas, dívidas, obrigações contratuais, compromissos financeiros. Muitos se aprisionam a crediários e prestações infindáveis para preencher pelo consumo o vazio da vida, repleta da acumulação de bens inúteis e desnecessários, que nos tornam reféns de obrigações supérfluas assumidas pelo sequestro de nossa vontade. É a zona de conforto do cativeiro em que nos aprisionamos.

A vida, como a concebida no mundo corporativo/competitivo moderno, não é investimento. É gasto. Porque a vida se desgasta pouco a pouco. Não dá para poupar vida, porque, sinto muito, não há outro jeito, a vida tem que ser vivida. Caso contrário, a morte é antecipada.

Gastamos tempo demasiado de vida na busca de comprar para ter, para possuir. Compramos pensando em ganhar a propriedade de algo e, no entanto, perdemos o pertencimento dos dois bens mais valiosos pelos quais deveríamos zelar como nossas únicas legítimas propriedades privadas: a vida e a liberdade, nossa e de todos os nossos semelhantes.

Desperdiçamos demais, jogamos fora demais, preenchemos e contaminamos a vida com montanhas de sucatas, acumulamos detritos de coisas supérfluas das quais não precisamos, porque simplesmente não sabemos viver com o suficiente, com apenas o necessário. Não nos satisfazemos apenas com aquilo que de fato é importante. E nessa volúpia de adquirir, ter e possuir, a vida vai pouco a pouco se esvaindo, se perdendo de si mesma.

Qualidade de vida não é a medida da quantidade das coisas que alguém tem ou possui, da mesma forma que o nível de vida não pode ser medido pela régua do consumo predador. Como se pode conceber e resignar-se ao fato de que comida se transforme em mera mercadoria? Comer, alimentar-se, é um direito humano à vida, inalienável. Como aceitar que a saúde, a educação, a informação, a comunicação, se transmudem em meros objetos de negócios? Todas elas são direitos humanos inegociáveis.

De mercadoria em mercadoria, de negócio em negócio, a vida se perde e perde-se a vida.

O que dizer do lixo humano dos indigentes nas ruas das grandes cidades dos países capitalistas? O que considerar diante da fome dos miseráveis, ou da exclusão dos pobres, dos negros e dos povos indígenas? O que falar sobre as crianças famintas, abandonadas, violentadas, aprisionadas, exploradas, desamparadas, desumanizadas? O que asseverar sobre a violência contra as mulheres pelo machismo, e a apologia à misoginia desenfreada? O que dizer da perseguição aos homossexuais, bissexuais, transexuais e transgêneros? O que expressar diante da nova diáspora dos povos árabes em seu êxodo suicida da crueldade da guerra e da opressão mortal do fundamentalismo religioso? O que manifestar perante a segregação do povo palestino nos guetos modernos dos campos de refugiados, apátridas expulsos da sua própria pátria? “A vida evoluiu para melhor?”

O avanço da vida para melhor proporcionou uma tecnologia de guerra que no primeiro conflito mundial estima-se que matou no mínimo 15 milhões de pessoas, e na Segunda Guerra Mundial causou entre 40 a 72 milhões de mortes de pessoas, mais de 60% delas civis que morreram simplesmente porque eram judeus, ciganos, homossexuais, deficientes, comunistas. A tecnologia de guerra avançou tanto que pelas armas nucleares quase exterminou com a vida no planeta, exemplo de avanço para pior, em direção à morte e não para preservação da vida.

Depois dos primeiros testes nucleares e das duas bombas atômicas jogadas pelos norte-americanos sobre o povo japonês, o estrago no meio ambiente foi tamanho que começaram a surgir movimentos sociais ambientalistas em defesa da sobrevivência do planeta, na prevenção de danos ambientais e na expansão do conceito de desenvolvimento sustentável, como tentativa de impor limites ao crescimento econômico alimentado pelo uso crescente e inescrupuloso de recursos naturais.

A realidade era alarmante: poluição, desmatamentos, aquecimento global, esgotamento de recursos não renováveis, escassez de alimentos, deterioração do meio ambiente, extinção de espécies animais.

O papel desempenhado pelo capitalismo tecnológico e seu impacto no meio natural foi tão danoso que tornou necessário evoluir para melhor para preservar a vida, dando origem a novas ciências, como a ecologia, que passaram a estudar, compreender em maior profundidade o meio ambiente e a traçar novos paradigmas para os processos industrial e social, de forma a preservar a vida dos habitantes e do próprio planeta.

Por fim sobreveio a evolução (ou revolução) da microeletrônica e da informática. Surgiram os computadores domésticos, de mão e portáteis com acesso à internet, e uma parafernália de coisas e aparelhos com o propósito de facilitar a vida, aproximar a população mundial e tornar mais livre o ser humano.

Todavia, nem mesmo a informatização de tudo pode tornar melhor a evolução da vida se no final desse processo o homem continuar a ser escravo de coisas, bens e aparelhos, e pior, monitorado e vigiado por eles, do que resulta a perda irreparável dos dois bens maiores da vida humana: seu tempo e sua liberdade.

A ciência é legítima se existe para investigar, compreender e interferir no mundo com a finalidade de melhorar as condições de vida da população e de garantir a sobrevivência da raça humana e do planeta. A ciência apartada da vida cotidiana do homem comum perde a legitimidade para agir e a razão de existir.

No século XVIII o Iluminismo inaugurou a renovação do pensamento e das artes, após séculos de obscurantismo. Com a Revolução Industrial a civilização avançou até alcançar o culto ao capital e a partir deste deu início à dominação e à exploração do homem pelo homem. Depois o capital mudou de roupa: passou a vestir os trajes do conhecimento e da informação.

O domínio dos meios de produção da nova propriedade privada mudou de mãos: os executivos – a nova classe social detentora do conhecimento e da informação – passaram a exercer o poder e o controle sobre o novo capital e ditar as regras da vida e da morte.

Essa nova classe social, sustentada em títulos acadêmicos e no domínio do conhecimento tecnológico/eletrônico, dominou a cena e concentrou sobre si os holofotes da ciência e da tecnologia a ponto de estabelecer novos padrões éticos e valores morais.

Hoje são os responsáveis pelo império da cultura vulgar, da mediocridade política e da corrupção em todos os níveis da vida cotidiana.

“A vida mudou para melhor?”

Antonio Sergio Albergaria Pereira é escritor, cronista e articulista. É autor de Dez contos de solidão – A vida humana no atacado (Editora Komedi, 2008). Foi repórter e redator do Diário do Povo de Campinas e assessor jurídico no poder judiciário de São Paulo.