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Artigo
Em paz com vida. Pequeno ideário
Por Carlos Rodrigues Brandão
10/12/2016

A primeira ideia

Todos os seres que existem partilham conosco a Experiência da Vida, em qualquer uma das suas dimensões. Todos eles possuem todo o seu sentido e todo o seu valor em si mesmos. Possuem isso pelo simples fato de existirem e de partilharem, como tudo o mais que existe e é vivo, da Experiência da Vida.

Tudo o que existe entre nós no Círculo do Dom da Vida, vale o que é, em si mesmo, porque participa do mistério do Existir na Vida com tudo o mais que é vivo e existe. A Vida é um valor absoluto em si mesmo. Ela é a morada e a guardiã de outros valores e tudo o que existe vivo entre nós participa dos direitos desse valor universal outorgado pela Vida a tudo o que existe como uma sua Experiência: como um Ser Vivo. 

A segunda ideia

Tudo o mais que venha a ser ou ter um sentido ou um valor atribuído ao que existe, deve derivar desse primeiro fato e fundamento universal. Um fato também natural, presente e individualizado em cada um e em todos os Seres da Existência.

Esse é um princípio de interações de valor essencial e fundador de todos os outros. Ele pode ser sintetizado assim: "isto existe e está vivo”. Ou, de maneira mais ampla e mais generosa: “isto existe e participa da Vida por criar entre outros seres as condições para a sua existência”. Logo, é um Ser Vivo, ou um Cenário de Vida, e participa com tudo o que existe e vive da Rede da Existência do Dom da Vida.

Se "isto existe", em qualquer dimensão da existência do que vive e é vivo, então "isto" é um Sujeito da Vida e participa de todas as teias e redes que geram, fazem interagir e transformam tudo-o-que-existe e o-todo-do-que-existe.

A terceira

Nas redes das teias do-que-existe, tudo o que existe como Experiência da Vida, é e possui um duplo valor em si-mesmo.

Primeiro: porque participa da Existência como uma unidade de uma de suas experiências e a comparte com tudo-o-que-existe no todo do que existe.

Segundo: porque participa da Vida em suas redes e teias e, assim, é um elo indispensável no complexo de unidades diferenciadas da partilha de tudo o que é vivo, compõe e sem cessar transforma o Todo da Vida.

Isto não quer dizer que o que existe como um Ser da Vida ou como um Cenário de Vida no/do Universo ou na/da nossa Terra, participa apenas da vida interior do todo da vida orgânica. Quer dizer que aquilo que vive e é vivo participa de maneira íntima e completa de uma dupla Rede do Existir: aquela que constitui a rede da dimensão da energia e da matéria, e aquela que configura a dimensão da energia e da matéria realizadas como Vida na e como a Biosfera: a esfera do existente na Terra e no Universo em que o existir é Vida.

A quarta

A Vida cria e continuamente recria na Terra e a Terra. A Terra não é apenas fonte de Vida. A Terra é viva!

A todo o instante e de infinitas formas a Vida recria a Terra de que é uma parte, um momento e uma dimensão múltipla, porque sem cessar ela participa daquilo que re-elabora e re-estabelece a trama e a teia das condições naturais de sua própria Existência. Uma vez surgida e existente no Planeta, a Vida participa dos processos de orientação dos destinos da Terra. E ela participa deles no sentido em que gera e re-genera continuamente a possibilidade de reprodução e de realização ascendente da própria Vida.

A Vida não apenas existe na Terra que a acolhe como casa e nave errante no Cosmos. Ao existir na Terra, com a Terra e como a Terra, a Vida de algum modo torna toda a Terra também um Ser Vivo. Um ser planetário vivo e cheio de vida unitária e múltipla.

A Vida inaugura o tempo cósmico em que as interações, intercomunicações e interconexões de/entre tudo-o-que-existe - da mínima partícula de um átomo ao todo o Universo - transformam-se em alguma modalidade de Relacionamento. A Vida é viável porque ela transforma os eixos, as teias e as redes de tudo o que a ela se relaciona e com ela se intercomunica, em um processo complexo de sair-de-si-mesmo-em-busca-do-outro. A partir daí "tudo são trocas", e só se preserva na Vida e como uma experiência da Vida, aquilo que existe em interação na Teia das Trocas da Vida.

A quinta

Tudo o que existe está situado dentro, está situado entre e está situado em algum tipo de relacionamento com. Está, assim, participando da Teia da Existência de uma maneira ou de outra, e de uma experiência única, irrepetível, intransferível e irreversível. 

Tudo o que vive e é vivo vive as suas relações como uma complexa trama de alternativas e de escolhas de relacionamentos inter-individuais, inter-pessoais e até mesmo inter-subjetivos com os outros seres de criação, sustentação, equilíbrio, conflito e harmonia do mistério da Vida.

Cada Ser-da-Vida não existe isolado um momento sequer de sua existência. Isolado da Rede de Energia da Vida qualquer Ser da Vida não prossegue no interior da Trama da Vida e, portanto, não existe. Até Deus não conseguiu existir sozinho.

Assim, o que é vivo e existe como um elo da Teia da Vida existe apenas nas, entre as e através das relações de trocas que a cada momento estabelecem, transformam e recriam tudo o que envolve a realidade da vida com e nos seus círculos da Vida e da Existência.

Somos a e somos da Vida, porque estamos sempre e a cada instante vivenciando trocas com o ar, com o fogo, com a água, com a terra, com a luz das estrelas e o calor do sol, com o passar do vento, com o sopro da Via Láctea, com a energia do nada, com o amor da fonte-das-origens chamada nas diferentes línguas humanas de nomes como: Deus, e criador tanto de uma pessoa humana quanto de um colibri.

A sexta

No circuito dos Dons da Vida e, mais ainda, nos Círculos da Vida em que a consciência reflexa se transforma em uma consciência reflexiva, e onde a natureza se transforma, também, em cultura, e em que a Vida passa da associação coletiva para a organização social da Vida, tudo o que existe tem um sentido e se reproduz como uma experiência, porque sai de si mesmo em direção ao Outro. Sai de si em busca dos outros de seu círculo de Vida e de Sentido da Vida.

Está vivo o que troca: aquele que recebe do Outro porque antes deu a ele algo de Si Mesmo. Assim sendo ...

... o Eu de cada "coisa", o Eu de cada ser vivo existe apenas como e na relação de troca, isto é: no relacionamento. O Eu de cada Ser Humano não existe nunca como uma unidade-em-si; ele existe sempre como um momento individualizado das redes e teias de inter-conecções e de atribuição cultural de sentido a tais interações e suas tessituras de e entre seres, símbolos, saberes, sentidos, significados e sensibilidades.

O Eu de cada uma/um de Nós é sempre um eixo e um elo em que a Vida é tornada consciência reflexiva de/sobre si–mesma. Um ser em que a Experiência da Vida sente e sabe que sente; e se sente sabendo e se sabe sentindo. E sente um sentimento porque sabe o que sente e sente o que sabe, tornando as suas relações com qualquer outra forma de existência uma interação que envolve pelo menos um Eu e um Me. A existência de uma das muitas formas pelas quais a Vida cria, reinventa e recria o diálogo:  a vivência humana é a mais provavelmente complexa. O Homem não apenas vive, mas tem consciência da Vida, de Sua Vida e da inter-Existência da Vida na Terra, da qual ele participa como um momento e um elo.

A sétima

Nós, Seres Humanos - uma das muitas experiências de realização da Vida na Terra - habitamos uma esfera especial de existência, de partilha e de diálogo.

De uma maneira qualitativamente diferente da de outros seres com quem compartimos a vivência do existir-como-Vida-na-Terra, as nossas trocas em nossos relacionamentos com o que e existe, com o que é vivo e também entre nós, Seres Humanos da Vida, são realizadas, como vimos já, no trânsito da consciência reflexa, que um alface e um beija-flor possuem, para a consciência reflexiva e auto-reflexiva. Aquela que nós possuímos ao nos pensarmos, por exemplo, em nossas relações com um pé de alface ou um beija-flor.

Sabemos já também que ao lado de um Eu que todos os seres vivos possuem no momento da individualidade de viver-em-relação, nós possuímos e somos também um me que nos sente e que nos sabe. Somos a possibilidade de criação de uma Esfera de Vida realizada espiritualmente como Consciência no Planeta Terra. Somos a aurora da passagem da Biosfera para a Noosfera.

Esta simples possibilidade, porventura já em plena realização no curso da História da Vida e de uma de suas dimensões: a História da Humanidade, alarga de uma maneira inimaginável, a nossa responsabilidade para com tudo o que é vivo e para com o Todo da Vida, aqui na Terra e, quem sabe? Em todo do Universo.

A oitava ideia 

Somos seres destinados ao amor, à harmonia e à paz.

Somos uma experiência natural e culturalmente voltada para a colaboração e não para a competição. Para a solidariedade e, não, para a solidão.  Para a busca solidária de caminhos e de soluções para os nossos dilemas comuns e, não, para a procura egocentrada de ganhos em detrimento dos outros: outras Pessoas, outros Grupos Humanos, outros Povos, outros Seres da Vida.

Está em nossas mãos nos empenharmos juntos na aventura de re-aprendermos, re-escrevermos e re-vivermos outras maneiras de sentir e de ser, outros valores, outros modelos e outros sistemas de relacionamentos com a Natureza de que somos parte e partilha, com o Meio Ambiente e com a Vida presente nela.

Está em nossas mãos estendermos direitos essenciais da esfera social do Humano à toda a esfera existencial da Vida; daquilo que é Vivo e existe como um momento de realização da Vida. Está em nossas mãos estendermos o círculo dos direitos e também dos afetos e dos sentidos de Vida a tudo o que é vivo.

Está em nossas mãos o destino da Vida e o de Nós próprios, Seres Humanos na Terra. Podemos seguir o caminho do medo, da expropriação, do interesse fundado no ter, na utilidade, na competição, na concorrência e no primado da barbárie (entre Nós) e da destruição (para com a Vida).

Ou podemos buscar e descobrir à nossa frente o caminho do amor (o oposto do medo, mais do que do ódio ou do desprezo), da sustentabilidade, da generosidade fundada no Ser, da gratuidade, da cooperação, da solidariedade da Paz entre Nós e da extensão da Paz à Vida e à harmonia dos Cenários da Vida na Terra.

Está em nossas mãos o sabermos passar de Senhores do Mundo e nos destruirmos, destruindo em pouco tempo o que resta de Vida e de Cenários da Vida em nosso Planeta, a Irmãos do Universo, estabelecendo uma relação amorosa e complexa de Paz e de Concórdia entre nós e entre Nós e a Vida.