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Reportagem
De onde viemos? A origem mitológica da vida no mundo
Por Juan Mattheus
10/12/2016

Adão nasceu do barro e morou no Éden. Tupã desceu à Terra e criou tudo o que conhecemos, assim como fez Gaia na Grécia. A humanidade sempre teve a necessidade de compreender suas origens. A questão é complexa e envolve filosofia, religião e ciência, entre diferentes povos.

De acordo com o teólogo da Escola Superior de Teologia (EST), Mário Antônio Sanches, os mitos precisam de pessoas que acreditem neles para que sejam aceitos, por isso são expressões da verdade para as comunidades onde foram gerados. “O mito responde também às mesmas perguntas: como?  por quê?  de que  modo? No esforço de elaborar um sentido para as coisas, na busca de desvelar a realidade e revelar sua dimensão transcendente. Usualmente, o mito perde a sua força quando a comunidade que acreditava nele desaparece, ou não crê mais”, ressalta Sanches.

O surgimento da vida ao redor mundo

Seguindo a ideia de Sanches, é possível usar os gregos como exemplo de povo que não crê mais na mitologia de seus antepassados. A religião predominante atualmente é o cristianismo, sobretudo o ortodoxo. Os gregos antigos atribuíam a origem da vida à Gaia, a mãe Terra, e ao Caos. A partir deles a vida foi criada.

A ideia de que a ordem e a desordem também se uniram para dar criação à vida, existe nas tradições de origem judaica/cristã. De acordo com o que é ensinado aos seguidores, “No princípio criou Deus os céus e a terra. E a terra era sem forma e vazia”, e partir daí tudo foi tomando forma e seu lugar, inclusive os seres vivos.

Sanches também exemplifica a questão ao falar da criação a partir da destruição. Segundo a mitologia chinesa, tudo veio da morte de um ser chamado Panku, e de cada parte de seu corpo uma característica da Terra foi formada, como, por exemplo, dos olhos vieram o sol e a lua; dos cabelos as árvores e plantas; e das pulgas surgiu a humanidade.

A origem da vida nas Américas

Antes de serem colonizados e terem sua cultura quase apagada pelos conquistadores europeus, os povos ameríndios também possuíam – e possuem até hoje – suas próprias concepções acerca da origem da vida. Uma das divindades mais conhecidas pelo povo brasileiro, Tupã (também chamado de Iamandu ou Nhanderu) é o deus Sol e realizador de toda a criação. O mito conta que Tupã desceu em um monte na região de Aregúa, Paraguai, e de lá criou toda a vida existente no planeta. Da argila, fez o homem e a mulher, e os deixou com os espíritos do bem e do mal.

O uso da argila é um elemento muito comum entre todas as histórias da origem da vida entre os povos da América. Para os incas, o grande criador foi o deus chamado Viracocha (Apu Kun Tiqsi Wiraqutra no dialeto inca), que criou os homens da argila e neles pintou vestes coloridas para separar uma nação de outra. 

Já para o povo maia, os seres humanos foram modelados também pela argila, de início, mas os deuses viram que ela amolecia quando molhada, tornando-se fraca. Com isso, as divindades misturaram seus sangues às espigas de milho, o que gerou quatro homens. Das carnes e ossos desses deuses foram modeladas também quatro mulheres, uma para cada um dos homens criados.

Os mitos podem ditar as regras atuais?

Para a filósofa da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC/Paraná), Vanessa Ruthes, a resposta sobre a origem da vida, principalmente a humana, ajuda a responder muito sobre quem somos e sobre o que podemos. "Questões como o aborto, tecnologias reprodutivas, polêmicas como a utilização de embriões, dependem dessa resposta para serem discutidas".

Segundo Ruthes, existem diferentes posturas acerca do início da vida, e cada uma se fundamenta em perspectivas divergentes, que tentam responder quando a vida humana inicia. "Por exemplo, para alguns, ela inicia na concepção, para outros, na formação do sistema nervoso central. Não há uma resposta verdadeira, mas sim perspectivas de análise".

A filósofa também argumenta que é possível haver uma integração entre os discursos científicos e culturais acerca da origem da vida. "Cada discurso parte de um fundamento epistemológico e ético. Há a possibilidade de aproximações se houver flexibilidade entre eles", finaliza Ruthes.