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Artigo
O mundo além das prateleiras
Por Matheus Pichonelli
10/12/2016

Éramos mais felizes quando não sabíamos o tamanho exato do mundo? Na tradição oriental, enquanto Confúcio buscava educar o homem por meio do conhecimento por considerar que todo mal brotava da ignorância, Lao-Tse preferia que as pessoas permanecessem ingênuas e simples, como crianças.

Mudei de casa há mais ou menos dois meses. No novo quarto, comecei a organizar numa das estantes abaixo da TV os CDs que andavam escondidos embaixo de um armário do antigo apartamento. Ao fim da tarefa, fiz uma peneira entre os CDs avulsos e as capas vazias, organizei o que ficou de pé em uma ordem mais ou menos lógica e voltei a ouvir canções que andavam, se não esquecidas, distantes do meu radar dos últimos anos, quando descobri sites, programas e aplicativos de música.

Nos primeiros dias na casa nova, me sentia como se tivesse aberto uma passagem para um período anterior à chegada da internet em casa. Depois das músicas foi a vez de organizar os DVDs, e depois dos DVDs, os livros. 

Lembrei, então, como era ler, ouvir músicas ou assistir filmes por escolha própria, baseado em desejo, memória afetiva ou interesse em novas descobertas, e não a partir de sugestões criadas por algoritmos ou conteúdo compartilhado por pessoas com quem tenho uma predisposição em seguir.

Eu poderia levar meses, anos, para percorrer tudo o que havia naquelas prateleiras finalmente organizadas, mas era menos angustiante pensar que no dia seguinte aquelas prateleiras não precisariam ser atualizadas ou substituídas com enxurradas de novidades, como acontece quando abrimos o aplicativo de filmes ou vídeos e passamos mais tempo escolhendo um título do que assistindo qualquer coisa – e mais preocupados com a sensação de estar perdendo alguma série do que concentrado na escolha.

Ter acesso a tanto conteúdo era algo impensável mesmo para quem, ainda ao final do colegial, já substituíra as folhas de papel almaço e as cartolinas pelas poderosas impressoras coloridas. Mesmo na faculdade, era difícil imaginar outra ponta de lança das novas tecnologias que não estivessem na sala de informática – onde, a pretexto de terminar ou imprimir algum trabalho, aproveitávamos o tempo e a internet gratuita, ainda cara para instalar em casa, para enviar e-mails para amigos, para a namorada ou atualizar o status no Orkut.

Minha geração, nascida entre o fim dos anos 1970 e começo dos 1980, sentiu o impacto de todas as mudanças nas formas de comunicação até poder carregar o mundo em uma tela sensível de smartphone dentro do bolso.

As mudanças nas formas como nos comunicamos alteraram também as formas como sentimos e pensamos, e a(s) consequência(s) disso ainda é(são) uma (muitas) incógnita(s).

Aparentemente nos tornamos uma sociedade mais conectada com o mundo e, portanto, mais ágil, mais crítica, menos propensa a provincianismos.

Antes disso tudo, quando próximos de completar 30 anos, tudo o que meus pais poderiam almejar era um emprego fixo, uma boa casa, num bom bairro, de preferência com piscina. Não faz muito tempo, todas as vivências estavam circunscritas num limite espacial. Eles não viviam naquele bairro; eles eram aquele bairro, onde produziam, multiplicavam e cultivavam suas redes de relacionamento mais ou menos como tentamos organizar nossas prateleiras físicas de conteúdo audiovisual.

Na época – friso de novo, não faz muito tempo – compartilhamento de conteúdo era colocar a cabeça para fora da janela e avisar a vizinha de quintal que estava pronta a torta. Ao menos nos bairros das pequenas e médias cidades, onde eu nasci e me criei, era assim que compartilhávamos informação e conteúdo, sobretudo receitas.

Aqueles bairros tinham um som e um cenário muito próprios. Ouvia-se rádio pela manhã (aos domingos, a Fórmula 1). Os jornais (geralmente locais, feitos por quem desenvolvia na cidade afetos e referências locais) eram colocados debaixo dos tapetes. As cadeiras se espalhavam pelas ruas. O toque de telefone era quase um sinal de emergência. Um chamado com a importância do valor do interurbano.

Fico imaginando qual seria a nossa reação, naquele bairro onde pais, avós e filhos repetiam rotinas, se alguém contasse que, num futuro muito próximo, poderíamos conhecer o amor das nossas vidas por meio de aplicativos que nos aproximariam até mesmo a partir de visões políticas. E que poderíamos construir intimidades, puxar conversa, ouvir a voz e mandar nudes para pessoas que – pasmem – jamais pisaram em nosso bairro, mais ou menos como o sobrinho de Clara, a protagonista de Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, quando apresenta à família de Recife a namorada do Rio. Clara, de certa forma, representa uma forma de vivenciar experiências dividida entre o assombro e o encanto diante do novo mundo que se ergue na alegoria de um novo padrão de habitação – vigiado, supostamente seguro, no entanto mais asséptico, sem contato com o desencontro das ruas e enclausurado na falsa ideia de paraíso das varandas gourmet.

Para um nativo digital, o mundo não está no bairro, mas na potência da conexão. É ela que produz afetos, diminui distâncias e escancara, ou deveria escancarar, janelas. Os efeitos, de imediato, são as mudanças de referências. Sai o padre, o chefe e o delegado locais e entram os gurus de redes sociais que nos explicam, em textões ou sentenças em 140 caracteres, a origem da vida e o sentido da morte. A plateia do professor pop é agora uma multidão digital. Ele compete com a youtuber. Com o apresentador dito politizado e seus milhões de seguidores. E não tem nada que não possamos fazer em casa, da montagem da estante à receita da torta, que não nos ensinem pelo YouTube.

Em algumas horas atualizamos tudo o que (não) precisamos saber sobre a vida de qualquer pessoa sem precisar de perguntas indiscretas àquele primo da cunhada que encontramos por acaso na fila do banco. Tudo porque um gênio contemporâneo percebeu que era possível transformar aquele aviso pela janela de que a torta estava pronta no botão “compartilhar” – e nossos gostos e subjetividades expressas no botão “curtir”, o dispositivo que colocou abaixo tudo o que até então sabíamos sobre propaganda, aquela bala de canhão disparada em horário nobre para atingir as moscas chamadas público-alvo específico.

Antes que este texto chegue à linha final, é possível que muitas das novidades tecnológicas citadas aqui já tenham sido destronadas por outras novidades e atualizações de sistemas. Mas a transição entre o mundo analógico e o mundo digital, que nos transformou em sujeitos passivos dos algoritmos mas ativos no posicionamento, parece, mal e mal, estabelecida – ou na fase final do loading.

Os impactos disso começam a ser sentidos e estudados, e podem servir como peças-chaves para a compreensão de algumas de nossas crises ainda não nomeadas como sofrimento. A econômica, por exemplo. Aqui, o caso Uber serve como exemplo evidente dos desafios: um aplicativo capaz de localizar o automóvel mais próximo coloca o cliente em contato direto com o motorista e solapa na base um serviço tão antigo quanto o automóvel. O corte de intermediários (a central de rádio, o aluguel do ponto, o dono do automóvel) reduziu os custos de operação e causou celeuma entre taxistas que mal aceitam pagamentos por cartão. Ao mesmo tempo, está longe de conferir uma remuneração justa a quem resolve aderir ao serviço como motorista sob o atrativo de que agora é o patrão de si e faz o horário que quiser, quando quiser.

O encurtamento de distâncias, a facilidade de comunicação e as ferramentas de trabalho incorporadas às máquinas de uso pessoal prometem alterar a dinâmica do trabalho. Não é à toa que mobilidade se tornou uma palavra-chave dos dilemas contemporâneos, sobretudo quando temos ao fundo uma discussão complexa sobre aquecimento global e descarbonização da economia.

Muitos já não precisam se deslocar até uma sede para bater ponto na empresa. Podem se organizar e enviar trabalhos e relatórios de casa. Podem se graduar, inclusive, sem precisar transportar os próprios corpos para uma sala de aula armada apenas de lousa e giz (os laboratórios de informática, imaginamos, viraram peças de museu).

E os donos de lojas, que empregam atendedores e pagam aluguel do espaço na rua principal, nunca estiveram tão ameaçados pelos programas que colocaram o cliente a um clique do produto sobre o qual ele já pesquisou, já pediu referências, já mediu os prós e os contras.

Tudo isso coloca em risco sistemas consagrados de produção, geração e manutenção de emprego e desafia governos nacionais, sobretudo em países cujo PIB, em muitos casos, não é superior ao faturamento de gigantes da tecnologia que estão em todo lugar e não estão em lugar algum. Das dez maiores marcas da atualidade, as sete primeiras são ligadas à tecnologia.

Até aqui, a democratização da informação não é acompanhada pelo ajustamento das distâncias entre ricos e pobres. Pelo contrário, seguimos desiguais. Nos países mais ricos, os filhos se ressentem porque não terão uma casa com piscina, emprego para toda a vida e dois carros, a exemplo dos pais. Os padrões de consumo provavelmente serão mais modestos. Ao mesmo tempo, será cada vez mais plausível enquadrar o universo num aparelho do tamanho de uma casca de noz.

A tecnologia desafia, portanto, todas as cartilhas que imaginávamos consagradas até pouco tempo, e isso tem alterado a lógica de hierarquias que atravessaram imunes a modernidade. Aparentemente está aqui a causa de tanto desconforto em um mundo de referências simbólicas desarticuladas.

Um dos desafios da ordem do dia é lidar com a ansiedade de uma época em que não nos falta informação, mas sim capacidade de articular ideias, compreender contextos, filtrar o que é verdade, o que é mentira e o que é pós-verdade num mundo em que dividimos, no mesmo grupo de WhatsApp da família, atenções com notícias de portais confiáveis e pegadinhas sobre a próxima capa da revista que vai provar a ligação do papa com as Farc, o partido político odiado e o vírus da Zica na mesma corrente.

Em parte como consequência dessa aceleração e ansiedade, esta época tem produzido formas de sintomas que não cabem nas velhas cartilhas sobre certo e errado, crime e pecado, ordem e desordem.

Para o bem ou para o mal, as redes revolucionaram a capacidade de mobilização – seja para articular a reunião de uma multidão para pedir o retorno de militares ao poder, seja para deixar claro que as violências naturalizadas por estruturas hegemônicas já não são toleradas porque as vozes que se rebelam contra elas estão unidas.

Tudo isso tem ajudado a delimitar inclusive o rosto de ideias que dificilmente estavam em pauta naquele mundo delimitado pelo bairro onde morávamos – quando tudo o que sabíamos poderia dormitar tranquilamente como as referências contidas na estante de livros, CDs e DVDs/VHS, um espaço delimitado do conhecimento por uma condição física.

Descobrimos, assim, que aquela tia racista é uma multidão. Que aquele vizinho xenófobo agora é presidente dos EUA. Que aquele primo homofóbico tem bandeiras políticas. E que aquele amigo misógino já não arrota e bate no peito entre os seus, mas sim diante de um público de seguidores igualmente desorientados e desconfortáveis com um mundo que se desorganizou, alterou alguns status e agora pena para se reorganizar.

Em qualquer roda de conversa, muitos se perguntam se não era melhor viver como antes: uma vida sem tantas referências, regrada, repleta de contenções, de sabedorias identificáveis no paletó do professor ou na ladainha de domingo do padre.

Os antigos, que encerraram o turno sem perceber que a velha máquina de escrever tinha ficado obsoleta após a chegada do PC 386, costumam recorrer a uma velha ordem para lembrar de um tempo em que sentiam ter o controle das coisas, inclusive geográfica. E muitos dos filhos começam a manifestar uma certa propensão a um certo servilismo voluntário. Alguns já saem nas ruas com os hinos decorados à espera de entidades místicas e morais que reprimam e tomem conta da desordem contida em um mundo que soube desconstruir referências e não conseguiu colocar nada no lugar. Aqui mora o perigo: nada mais tentador do que ouvir ordens de quem jura saber o caminho; trocamos, assim, qualquer liberdade pela sensação de segurança contida nas respostas prontas.

O mundo que se encantou com a derrubada de muros e implosão de janelas agora está apavorado com o que viu: a diversidade. Mais que isso: está apavorado com a ideia de que, para que todos tenham espaço, será preciso ceder o lugar em algum momento. A diferença é que já não estamos/somos o bairro, estamos/somos o mundo. Isso muda inclusive a forma como rimos: se antes o sujeito desenquadrado dos padrões hegemônicos de comportamento ou sexualidade estava desamparado, hoje ele se reúne, se articula, luta por um lugar de fala que desarticula, por sua vez, as narrativas hegemônicas que produziram e naturalizaram exclusão e sofrimento.

O embate, é, então, inevitável.

Éramos, então, mais felizes quando não sabíamos o tamanho exato do mundo?

A resposta é tão distante quanto antiga. Na tradição oriental, enquanto Confúcio buscava educar o homem por meio do conhecimento, por considerar que todo mal brotava da ignorância, Lao-Tse preferia que as pessoas permanecessem ingênuas e simples, como crianças.

O embate atravessa as discussões contemporâneas toda vez que alguém, abalado pelas contestações das posições de conforto, se ressente com a chamada ditadura (sic) do politicamente correto, que agora patrulha e condena quem até pouco tempo vivia num reino em que até o riso e a palavra eram ingênuas, não tinham maldade – nem serviam como ameaça de uma ordem remanescente de 300 anos de escravidão.

Hoje, diante de discursos de ódio, é muito fácil identificar a limitação do argumento de quem não sabe o que diz ou reproduz. Essa figura sempre existiu. De uns tempos para cá, ganhou confiança (e candidatos competitivos) para transformar o ódio e o preconceito em matéria-prima para as saídas milagrosas de um tempo de incertezas e ansiedades agudas.

Talvez tenhamos sempre sido assim. A diferença é que hoje estamos dispostos a contra-narrativas que não tinham espaço nas páginas limitadas de edições limitadas pelo papel. Já não dormimos confiantes de que era certa a narrativa definitiva segundo a qual a repressão a determinado protesto foi “pacífica”, segundo as forças de segurança, quando qualquer participante pode postar em suas redes os vídeos que desmentem a versão oficial. Em junho de 2013 essa capacidade de dobrar narrativas oficiais ficou mais clara. E deixou claro, em contrapartida, a dificuldade de se dormir em paz.

O erro é imaginar que essa paz existia em algum lugar do passado e foi quebrada. Quando alguém ainda preso ao mundo pré-Guerra Fria tenta explicar como as coisas antigamente funcionavam numa suposta ordem, é sempre bom desconfiar dos chamados custos dessa suposta ordem. Desconfio que havia mais silêncio, provavelmente menos embates entre grupos, sobretudo nas relações assimétricas desenvolvidas dentro de casa, a começar pela relação entre marido e mulher. Isso não significa que, naquela vida domesticada, as pessoas eram mais felizes. Eram apenas mais quietas. Mais amedrontadas. Mais propensas a somatizar sofrimento e enlouquecer no confinamento do lar, das injustiças e das relações desiguais que não tinham, ou quase não tinham, por onde desaguar.

Hoje observamos fluxos resultantes dessa articulação. Somos o tempo todo confrontados em nossa posição. Em nosso conforto. No século XXI, esse indivíduo narrado através de suas posses – o que é, o que tem, o que conquistou – é desconstruído e despossuído, para usar uma expressão do filósofo Vladimir Safatle, por essa possibilidade de encontro: quanto mais percebe o mundo alargado, menor sua segurança e condição. Esse indivíduo sabe que o mundo não se organiza a partir da sua prateleira de saberes. Mas saber da sua incapacidade de absorver tanta informação, exposta o tempo todo em tempo tão ágil, é a prova quase visual de sua insuficiência.

Para Safatle, assumir essa contingência é uma forma de ação, em detrimento de quem espera ou teme a solução política que lhe é externa. A outra opção é vedar os olhos, bocas, narinas e orelhas e reproduzir, no escuro do quarto, a falsa sensação de controle ensaiada quando para estar no mundo bastava sair pelo bairro. Por sorte ou azar, Mark Zuckerberg também já providenciou o botão para bloquear divergências e fazer do mundo, virtual apenas no nome, um palanque contínuo daquela velha opinião formada sobre tudo.

Matheus Pichonelli é jornalista, escritor, cronista e articulista. É autor do livro de contos Diáspora (Edições Inteligentes, 2005). Mantém um blog no Yahoo Brasil e uma coluna na CartaCapital.com.br