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Artigo
Edward Said e uma perspectiva para a literatura de viagens no Brasil
Por Alexsander Gebara
10/06/2006

Em 1978, o crítico literário Edward Said lançava o livro Orientalismo, que se tornou, nas décadas posteriores, um trabalho fundamental em várias áreas do conhecimento. Um dos objetivos principais era demonstrar como o conjunto de enunciados sobre o “Oriente” produzido na Europa estava referenciado em uma instituição discursiva que dá nome ao livro, e que exercia sua influência, tanto nas instâncias políticas e científicas de produção de textos, como também na esfera da literatura. Nas palavras de Said, o “Orientalismo” seria uma instituição organizada para “negociar com o Oriente ... fazendo declarações a seu respeito, autorizando opiniões sobre ele, descrevendo-o e colonizando-o”. Além disso, o autor ainda sugeria que a autoridade do discurso orientalista era tal que “ninguém que pensasse, escrevesse, ou atuasse sobre o Oriente podia fazê-lo sem levar em conta as limitações ao pensamento e à ação, impostas pelo orientalismo”.i

A constituição de um discurso orientalista seria, dessa forma, um exercício de violência epistemológica sobre o “outro” apresentado nestas enunciações. As definições de discurso apresentadas por Said são assumidamente credoras das concepções expressas por Michel Foucault em Arqueologia do Saber e, portanto, a violência epistemológica a que se refere é parte integrante de toda e qualquer enunciação. Neste caso, entretanto, reforçada pela idéia de um sistema de produção de conhecimento sobre o “outro”, que se encontrava organizado e auto-referenciado.

Apesar de Said procurar desconstruir a suposta isenção “científica” sobre a qual estava assentado o discurso orientalista, vinculando-o à diversas esferas de legitimação ideológica de dominação colonial, imperial e cultural entre outras, os enunciados analisados pelo autor são considerados como europeus. Os orientais, assim, surgem colocados numa posição de sujeição, quer material, quer discursiva.

A grande importância do texto de Said deriva não apenas da influência direta de suas concepções em trabalhos subseqüentes, mas também das criticas que incitou. Em especial, pode-se mencionar estudos que procuram questionar a idéia de que o conteúdo das representações ocidentais sobre o “outro” é essencialmente europeu, enfatizando o contexto de contato cultural no qual esses textos foram produzidos e questionando o sentido do fluxo (Europa – Oriente) de conhecimento e representações, implícito no esquema interpretativo de Said. Uma nova agenda de pesquisas vem sendo proposta com objetivo de interpretar “como o subalterno pode ter exercido um papel constitutivo mais do que reflexivo no discurso e na subjetividade imperial doméstica.”ii

Essa mudança de enfoque, procurando avaliar os textos produzidos por europeus como resultado do processo de contato cultural e resistência às aspirações de dominação européia fizeram Mary Pratt colocar, por exemplo, uma questão segundo ela um tanto “herética”, qual seja: “no que se refere à representação, como se falar de transculturação das colônias para a metrópole?”.iii Ou mesmo o trabalho de Paul Gilroy, que se propõe refletir sobre o próprio espaço da constituição da “modernidade européia”, deslocando-o para fora das fronteiras da Europa Ocidental e representando-o como um navio em curso no Atlântico, enfatizando, assim, o caráter relacional da produção do conhecimento.iv

Pode ser interessante pensar nas representações de viajantes estrangeiros no Brasil dentro dos moldes de análise do discurso proposto por Said. Entretanto, é preciso também notar as diferenças existentes entre os corpos discursivos sobre o “Oriente” e o “Brasil”. Sem esta precaução, seria possível falar, por exemplo, num “brasilianismo” no mesmo sentido ou com o mesmo peso conceitual do “orientalismo” proposto por Said. Entre as diferenças importantes, vale ressaltar o volume de textos muito menor sobre o Brasil e também a menor amplitude da influência intelectual na Europa dos viajantes e dos temas relacionados à América do Sul em relação àqueles sobre o “Oriente”.

A despeito dessas diferenças de dimensão, há também certas aproximações possíveis entre o corpo de representações produzidas na Europa sobre o Oriente e o Brasil. Em especial, ressalte-se a característica da auto referenciação. Os mais diversos viajantes, imbuídos de variados objetivos encontram-se com freqüência referenciados uns nos outros, através de incontáveis citações, produzindo, ou reproduzindo, desta forma, certos padrões de representação. Ou seja, para produzir um enunciado sobre o Brasil, quase sempre era levado em conta o que já havia sido dito sobre a região visitada, fazendo valer assim uma certa autoridade discursiva existente sobre o Brasil, tal como Said sugeriu para o caso do Oriente. Esta dinâmica pode ser vislumbrada no decorrer do século 19, quando se multiplicaram as viagens e os viajantes estrangeiros em terras brasileiras, após a vinda da corte portuguesa para o Brasil e em especial após a independência. Como resultado, é possível perceber certos padrões recorrentes na imagem do Brasil constituída nesses textos, como no caso do “Brasil como natureza”, por exemplo. Mesmo que as concepções de natureza fossem bastante divergentes a associação entre a região tropical americana e o predomínio da natureza é um traço comum entre grande parte dos relatos de viagem.

Não é preciso retornar a representações seiscentistas, à Lery, ou Staden. Basta que se recue até as primeiras décadas do século XIX, quando Ferdinand Denis propunha a idéia de que a literatura brasileira deveria diferenciar-se das suas congêneres européias através da tematização da natureza; quando Rugendas representava a natureza “sublime” em seus quadros; ou quando Von Martius sugeria que a característica principal da história brasileira era a mistura de raças, utilizando o índio associado à natureza como um dos símbolos importantes de sua representação.

É certo que cada um desses autores e representações tem suas especificidades. Mesmo os naturalistas diferem em suas concepções de natureza, desde a estruturação e esquematização racionalista dos seguidores da classificação lineana, até o organicismo sublime de Humboldt. Isso, entretanto, não invalida a idéia de discurso proposta por Said. Não é preciso que todas as representações concordem para que se constitua um discurso, mas que exerçam influência umas nas outras, mesmo que pela negação ou diferenciação.

Mas, como na crítica às concepções de Said articuladas acima, há um outro lado para esta questão. A representação do Brasil/natureza e a utilização do índio como símbolo da nação, presentes desde o início do programa do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), na década de 1830, e ao longo do século XIX na literatura indigenista, podem ser analisadas, a despeito de seus diversos matizes, como tendo servido à um projeto ideológico de uma importante parcela da elite imperial que procurava criar uma identidade diferenciada da antiga metrópole portuguesa e, conseqüentemente, a legitimação da soberania desse novo e singular império tropical. Isto mostra, ao menos, que a representação do Brasil/natureza não deve ser analisada como unicamente imposta por um corpo de textos estrangeiros ou respondendo apenas a demandas européias de identificação do Brasil. Não se trata de procurar estabelecer a origem e a “cópia” desse padrão de representação. Parece ser mais produtivo ao historiador notar as possíveis relações entre elas.

Pode-se mencionar como exemplo o relato que Richard Burton escreveu sobre sua viagem pelo rio São Francisco em 1867. No interior de seu livro, Burton não escreveu uma linha sequer sobre a população indígena do Brasil, entretanto, sua capa apresenta um índio com feições europeizadas acima da legenda The aboriginal indian (tupy) of Brazil. Sabe-se que Burton conhecia boa parte da literatura indigenista brasileira, uma vez que o autor,em outros momentos, propunha na Europa a tradução de textos da própria revista do IHGB, e de autores românticos como José de Alencar.v Entretanto, além da questão sobre de onde veio esse índio, parece ser interessante questionar-se a quem essa imagem se refere, e a quem ela serve ideológica e politicamente.

É aqui que o texto de Said volta a ter implicações importantes. É preciso, segundo ele, procurar o conteúdo político mesmo nas manifestações culturais, que aparentam ser ideologicamente isentas. Perceber quais as intencionalidades originais de um autor ou texto são exercícios além dos limites da disciplina histórica, mas analisar e refletir os usos ideológicos de diferentes representações não é apenas possível, como extremamente desejável.

No caso das representações do Brasil, uma análise nestes moldes talvez venha a demonstrar que o fluxo de produção de representações é multi-direcional, e que para ler os viajantes que aqui estiveram é preciso contextualizar seus textos não apenas em relação a outros viajantes europeus ou às realidades descritas, mas também à produção de imagens e identidades realizadas pelos próprios ideólogos do império em constituição.

Alexsander Gebara é doutorando em história social na USP.

Notas

i Said, Edward. Orientalismo. São Paulo: Cia das Letras, 1990. Pode-se notar que a tradução brasileira saiu apenas 12 anos após a publicação original do livro.

ii Williams, Patrick, and Chrisman, Laura. (eds.) Colonial discourse and postcolonial theory: A Reader. New York: Columbia University Press, 1994. p. 16.

iii Pratt, Mary L. Olhos do império, relatos de viagem e trasnculturação. Bauru: Edusc, 1999, p. 31.

iv Gilroy, Paul. The black Atlantic, modernity and double consciousness. London: Verso, 1993.

v De fato, sua mulher Isabel Burton traduziu o poema “Iracema” anos mais tarde.