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Reportagem
Pesquisa e exploração dos aromas amazônicos
Por Rodrigo Cunha
10/09/2007
Em 1925, já é bicentenário o tradicional mercado do Ver-o-Peso, à beira de um dos rios que cercam a primeira capital da Amazônia, Belém do Pará. As barracas que exalam o cheiro do peixe fresco à venda estão bem próximas daquelas onde as mandigueiras vendem ervas aromáticas, banhos de cheiro e perfumes. Suas ancestrais haviam aprendido com os índios a manipular essências de inúmeras plantas como o breu branco e o cumaru. Centenas de quilômetros a oeste dali, caboclos recendendo a suor e cachaça descarregam na recém instalada usina de Juriti Velho os troncos de pau-rosa que acabaram de derrubar. A essência do óleo essencial extraída nessa usina paraense segue para Manaus, de onde parte de navio para destinos como Estados Unidos e Europa. Em 1921, quatro anos antes do início daquela primeira produção industrial em Juriti Velho, o perfumista Ernest Beuax apresenta à estilista Coco Chanel, em Paris, algumas fragrâncias, entre as quais ela escolhe uma para associar à sua grife. Batizada de Chanel nº 5, ela tem como uma de suas matérias-primas a essência do pau-rosa amazônico e se tornaria o perfume mais famoso do mundo, usado por celebridades como a atriz Marilyn Monroe e a rainha da Inglaterra.

Em 2001, mais de dois milhões de árvores do pau-rosa já haviam sido derrubadas para atender à demanda do mercado internacional de perfumes. Um projeto coordenado por Lauro Barata, do Laboratório de Química de Produtos Naturais, da Unicamp, é apresentado em evento na Argentina a representantes da indústria de perfumaria da França, da Alemanha e dos Estados Unidos. Essa pesquisa conta com uma técnica inovadora que possibilita extrair a essência do óleo de pau-rosa a partir de suas folhas, dispensando a derrubada da árvore em risco de extinção. Outro projeto coordenado por Guilherme Maia, à época pesquisador do Museu Paraense Emílio Goeldi e atualmente na Universidade Federal do Pará, chegava a mais de mil espécies catalogadas no Banco de Dados das Plantas Aromáticas e Frutos Tropicais da Amazônia. O grupo de Maia apresenta estudo sobre a viabilidade econômica de exploração sustentável da pimenta-longa, que a exemplo do pau-rosa, também gera um óleo essencial de grande demanda no mercado internacional. Enquanto isso, a empresa brasileira Natura aprende com as vendedoras do Ver-o-Peso informações sobre plantas aromáticas da Amazônia, lança a sua linha Ekos e as essências brasileiras atingem mercados de sete países latino americanos e a França de Coco Chanel.


Pimenta-longa.
Foto: Maria das Graças Zoghbi / Museu Goeldi


Embora muitas das plantas catalogadas no Goeldi figurassem nas barracas do mercado popular do Ver-o-Peso, de toda a biodiversidade amazônica, apenas o pau-rosa, o cumaru e a copaíba eram, até então, explorados comercialmente pela indústria de perfumaria. A Natura acrescentou a essa lista a flor d’água, a madeira em flor, o breu branco, a priprioca, a pitanga e o maracujá. Segundo a pesquisadora do Goeldi, Maria das Graças Zoghbi, que participou dos estudos para o Banco de Dados do museu, são muitas as etapas para a indústria do perfume lançar um produto a partir das plantas aromáticas, e é o mercado que define o melhor momento para isso. “Um bom exemplo é a Cyperus articulatus (priprioca), cujo óleo essencial, analisado em 1980 por perfumistas de uma empresa da Suíça no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia e utilizada em perfumes regionais há mais de 30 anos, foi lançado no mercado de fragrâncias somente em 2004”, revela. Antes do estudo de viabilidade econômica, há a avaliação olfativa por especialistas em detectar “cheiros interessantes”, a análise do rendimento do óleo essencial em diferentes métodos de extração e a análise da segurança do óleo em relação à saúde humana.


Priprioca.
Foto: Maria das Graças Zoghbi / Museu Goeldi


Além de não passar por todas essas etapas, o mercado do Ver-o-Peso tem outras finalidades além de proporcionar aos seus compradores aromas que possam deixar o corpo ou a casa mais agradáveis ao olfato. As mandingueiras vendem seus produtos como se fossem verdadeiras poções mágicas para arranjar namorado (pega rapaz, comigo ninguém pode, agarradinho a ti, venha a mim), para manter o amado (carrapatinho, pega-não-larga) ou como afrodisíaco (sexo-de-boto-tucuxi). E entre eles também figura uma versão barata do perfume mais famoso do mundo, um perfume caseiro feito com as cascas do tronco do pau-rosa e outras ervas aromáticas, que não sai por mais de dez reais. O professor Barata, da Unicamp, conhece a receita: “Um litro de álcool de cereais para cada 200 gramas de casca e raízes moídas, deixando maturar por um período de um a dois meses. No final, basta filtrar e você tem um perfume caseiro”, conta. Mas esse conhecimento está longe de por em risco o mercado da indústria internacional de perfume, em que a Chanel responde por apenas 2% do óleo de pau-rosa comprado aqui. “O pau-rosa caseiro existente no mercado do Ver-o-Peso é uma imitação de má qualidade que tem pouco valor olfativo”, avalia Barata.

Segundo ele, as empresas da indústria do perfume apenas gerenciam a sua fabricação, mas quem os cria são as poucas e famosas Maison de Parfumerie (Casas de Perfumaria), como Givaudan, Firmenich, Symrise, Takasako, e outras menores e também importantes no mercado, como Mane e Robertet. E a maioria delas não usa o conhecimento tradicional para desenvolver seus perfumes. “O que as perfumarias fazem é se inspirar em aromas de plantas específicas, de flores ou frutas, para recriar um aroma”, diz o pesquisador da Unicamp. É o que fez, por exemplo, Roman Kaiser, perfumista sênior da maior empresa de perfumaria do mundo, a suíça Givaudan, que esteve no Brasil em 2003 como convidado do II Simpósio Brasileiro de Óleos Essenciais. “Ele captou os aromas das orquídeas da Amazônia e de outros cantos do mundo, para recriar perfumes para seus clientes”, conta.

Para Barata, o Brasil tem muita pesquisa científica nessa área, mas pouca pesquisa tecnológica que leve a novos produtos. Isso porque aqui os pesquisadores estão concentrados no meio acadêmico e não nas empresas. “É o contrário do que acontece na Europa e nos Estados Unidos. No exterior, 80% dos pesquisadores estão dentro das empresas, e aqui, 90% estão fora. Em conseqüência, não há muita pesquisa e desenvolvimento de novos produtos e muito menos inovação ao nível da empresa”, critica. “É uma situação que tem que mudar. O Brasil está formando 10 mil doutores por ano e eles estão ou subempregados ou desempregados. A única maneira de empregar esses doutores é encaixá-los nas empresas para gerar riqueza”, sugere. Zoghbi, do Goeldi, destaca que o espectro de atuação das instituições acadêmicas de pesquisa é maior que o das empresas, cabendo a estas investir em tecnologia de análise e reprodução de óleos essenciais em laboratório. Mas a partir do conhecimento científico gerado no Goeldi, duas outras espécies além da pimenta-longa já estão sendo exploradas comercialmente, uma delas por uma empresa da região amazônica. E na Universidade Federal do Pará e na Universidade Federal Rural da Amazônia, há pesquisas sobre a possibilidade de exploração comercial também da pimenta-de-macaco e da catinga-de-mulata.


Pimenta-de-macaco.
Foto: Maria das Graças Zoghbi / Museu Goeldi


Conhecimento tradicional

Se os perfumistas da indústria internacional apenas se inspiram nos aromas que parecem ser tradicionalmente familiares à população amazônica, a comunidade científica da região, por sua vez, também não faz uso dessa tradição. “A pesquisa com plantas aromáticas realizadas no Goeldi prescinde, ou seja, abre mão do conhecimento tradicional associado. As plantas são selecionadas no campo através do esmagamento das folhas, caules ou flores e da avaliação olfativa por parte do pesquisador. Essa seleção pode ser facilitada também pelo conhecimento das famílias botânicas reconhecidamente produtoras de óleo essencial”, afirma Zoghbi, que esteve em várias das 40 expedições de campo que levaram à coleta de 811 plantas e 773 óleos essenciais e aromas estudados na etapa final do Banco de Dados.


Coleta de campo, à esquerda em área de restinga e à direita em área de igapó.
Foto: Maria das Graças Zoghbi / Museu Goeldi


Barata, da Unicamp, por outro lado, diz ter tido suas lições com um ribeirinho de 80 anos que sempre viveu dos produtos da floresta e é produtor tradicional de óleo de pau-rosa. “O que eu aprendi com o sr. Raul Alencar foi que o óleo de folhas podia ser industrialmente produzido, porque ele o fazia sem que houvesse qualquer mudança importante nas características físico-químicas do óleo”, diz. Segundo ele, cientistas como o químico checo naturalizado brasileiro Otto Gottlieb já haviam demonstrado em 1958 que era possível extrair óleo das folhas, linha de pesquisa seguida por pesquisador brasileiros como o paraense Guilherme Maia. “Entretanto, todas essas experiências eram apenas de cunho científico e não tecnológico”, completa.

Em 2000, com recursos do Banco da Amazônia, Barata pôde comprovar tecnicamente numa experiência piloto e, mais tarde, industrial, que era possível conseguir industrialmente o óleo das folhas de pau-rosa. Essa pesquisa recebeu em 2005 o prêmio Samuel Benchimol de Tecnologia, concedido pelo CNPq em parceria com o Sebrae e o Banco da Amazônia. Mesmo com o apelo ambiental de não precisar derrubar a árvore e com o atrativo econômico de poder vender o óleo a US$ 80/kg – acima do rendimento que a venda de gado ou de madeira pode proporcionar –, as empresas brasileiras ainda não aderiram a esse filão. “Recentemente, encontrei um técnico da Chanel em congresso na França e ele me disse que a empresa estaria produzindo óleo de pau-rosa sustentável na Guiana Francesa. Isso mostra que se não fizermos alguma coisa rápida para produzirmos o óleo no Brasil, será mais um produto que estaremos perdendo, como já aconteceu com a borracha e a castanha do Pará”, alerta.

A brasileira Natura, que soube explorar de maneira rentável o conhecimento tradicional, teve que repartir os benefícios com a comunidade local. Após ação no Ministério Público do Pará sobre entrevistas que a empresa teria realizado com barraqueiras do Ver-o-Peso, a cada uma das quais deu uma remuneração de R$ 500 por cessão de direitos de imagem e som, a Natura teve que firmar em 2006 um contrato com a Associação Ver-as-Ervas, que representa os barraqueiros, para repassar um percentual sobre as vendas dos produtos à base de priprioca, breu branco e cumaru. Antes dessa ação, porém, a empresa já investia na compra de toda a produção de uma comunidade de Boa Vista, a 70km de Belém, além de conceder ajuda aos moradores. Além disso, Barata, da Unicamp, acredita que a empresa foi mal assessorada no episódio. “Entendo que o conhecimento do perfume tradicional de priprioca não pertence aos barraqueiros do Ver-o-Peso, mas a todos em Belém e no interior do Pará. O conhecimento dos perfumes tipo ‘banhos de cheiro’ está disseminado por todo o estado (veja artigo de Lauro Barata sobre o assunto). As caboclas cheirosas do Pará sabem muito bem como preparar o perfume tradicional de priprioca, D. Lucy, minha mãe, sabia, as vizinhas dela também”, conclui.