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Artigo
A rainha Jinga – África central, século XVII
Por Marina de Mello e Souza
09/04/2008

Uma das personagens mais conhecidas da história centro-africana é a chefe de Matamba chamada pela crônica portuguesa e missionária de rainha Jinga. Nascida em torno de 1580, na chefatura do Ndongo, filha do principal chefe da região, que tinha o título de ngola a kiluanje, morreu em 1663, depois de uma longa vida ocupada em grande parte em guerrear com os portugueses. Estes haviam se instalado na ilha de Luanda e em algumas fortalezas ao longo do rio Cuanza a partir de 1571, quando Paulo Dias de Novaes chegou para ocupar a donataria que D. Sebastião havia lhe atribuído. A ilha de Luanda e as terras vizinhas eram freqüentadas pelos portugueses sediados em São Tomé, desde meados do século XVI, e por essa época os povos que ali viviam começavam a se tornar mais independentes do domínio exercido pelo mani Congo, chefe do estado mais poderoso da região e aliado dos portugueses desde o final do século XV.

Quando os portugueses chegaram para se instalar no Ndongo, este era chefiado por um irmão de Jinga, que resistiu às tentativas de ocupação de suas terras, seja pela guerra, seja pela imposição de tratados de vassalagem. A região era habitada por povos ambundos, agricultores e organizados em torno de linhagens, que foram duramente combatidos pelos portugueses, aliados aos imbangalas, povos guerreiros vindos do interior e do sul, que àquela altura perambulavam pela costa. Diante da superioridade militar dos portugueses fortalecidos pelos exércitos imbangalas, os ambundos cederam importantes porções dos territórios que até então ocupavam.

O primeiro contato de Jinga com os portugueses, registrado por estes, ocorreu em 1622, quando ela foi enviada a Luanda na qualidade de embaixadora de seu irmão, chefe maior do Ndongo. Do contato com o então governador de Angola, João de Sousa, resultou um tratado de paz que de fato não vigorou, e o batismo de Jinga, que ao aceitar a religião dos brancos recebeu o nome cristão de Ana de Souza. Ela causou uma forte impressão no governador e demais autoridades portuguesas, comportando-se como chefe de estado habilidosa. De seu lado, também deve ter ficado impressionada com o que viu em Angola: construções de pedra, grandes embarcações no porto, mercadorias variadas, comportamentos faustosos e ritualizados cercando o poder. Tudo indica que viu seu batismo como uma forma de construir relações pacíficas com os brancos. Mas estas não ocorreram, pois os capítulos do tratado de paz firmado entre ela e o governador não foram seguidos por nenhuma das partes.

Naquele início de século, a política portuguesa estava fundada na guerra contra as populações nativas, visando tanto a conquista de territórios que ampliasse os limites da jovem colônia com sede em Luanda, como a aquisição de escravos a serem negociados nos circuitos atlânticos, nos quais a demanda por essa mão-de-obra era crescente. O soldo dos soldados e o pagamento dos governadores e demais funcionários coloniais tinha que ser garantido por esse comércio, pois de Lisboa não chegavam recursos suficientes para arcar com os gastos necessários à conquista em curso e sua manutenção. Dessa forma, os limites territoriais do Ndongo e o controle que até então o ngola mantinha sobre as populações locais, foram encolhendo, com chefes se tornando subordinados ao governo português.

Quando em cerca de 1624 o ngola morreu, talvez envenenado a mando de Jinga, esta começou a se articular para ocupar a chefia do Ndongo. Nomeada tutora de seu sobrinho, designado o sucessor do ngola falecido, logo Jinga conseguiu eliminar também seu sobrinho, mas não foi reconhecida pelos portugueses como legítima chefe do Ndongo. Para esse lugar, eles apoiaram um outro candidato, que aceitou o avassalamento a Portugal, tornando-se o Ndongo uma chefia subordinada a Luanda. A estratégia seguida por Jinga foi procurar apoio entre grupos imbangalas, que perambulavam em terras ao sul do Ndongo, inclusive tornando-se esposa de um chefe, e dessa forma sacerdotisa do maji-a-samba, cerimônia que envolvia a confecção de um ungüento que dava invencibilidade aos guerreiros, e na qual eram feitos sacrifícios humanos.

Enquanto os conquistadores brancos estendiam suas alianças entre chefes ambundos e imbangalas, mantendo o Ndongo como estado subordinado à Coroa portuguesa, Njinga tornou-se a maior opositora de sua presença na região, sempre reivindicando ser a verdadeira ngola do Ndongo. No início dos anos 1630 ocupou Matamba, uma chefatura situada a nordeste do Ndongo, limítrofe do Congo e do Dembo, composto de chefaturas ambundas, aliadas do Congo e com crescente presença portuguesa. De Matamba intensificou sua resistência à penetração territorial dos portugueses, tornando-se importante aliada dos holandeses, que mesmo antes de ocupar Luanda, de 1641 a 1648, mantinham uma presença intensa na região da foz do rio Congo. Para lá Jinga mandava escravos, desviando dos mercados portugueses essa mercadoria cobiçada. Antonio de Oliveira Cadornega, português que viveu em Angola nessa época, relata com detalhes em seu livro História das Guerras Angolanas esse período marcado por guerras de conquista, no qual Jinga não se dobrou diante das forças militares portuguesas, às vezes sendo derrotada, mas também impondo a elas muitas derrotas. Também período no qual o quilombo de Palmares vicejava no nordeste brasileiro, certamente abrigando entre os quilombolas muitos ambundos e imbangalas, aprisionados na região de Angola e direcionados para os engenhos controlados seja por portugueses, seja por holandeses.

Com a expulsão dos holandeses de Luanda pelas tropas afro-luso-brasílicas comandadas por Salvador Correia de Sá, Jinga ficou sem seus principais parceiros brancos. A partir de então, buscou com empenho cada vez maior estabelecer a paz com os portugueses, que pelo seu lado também a buscaram com mais vigor, privilegiando o bom fluxo das mercadorias por meio de acordos com os chefes locais em detrimento das guerras de conquista, que produziam escravos mas eram por demais dispendiosas. No processo de estabelecimento da paz com os portugueses foi central a atuação dos missionários capuchinhos, que desde 1645 atuavam na região de Angola, a partir da ação direta de Roma, por meio da Propaganda Fide, órgão voltado para a evangelização dos povos gentios, que passou a rivalizar com a atuação dos missionários ibéricos nos espaços de expansão dos impérios europeus.

Para Jinga, a associação entre o catolicismo e a paz estava presente, como já mencionado, desde o seu primeiro contato com os portugueses, na embaixada de 1622 a Luanda. Para os portugueses de Luanda, o batismo era condição do avassalamento dos chefes locais, que pelos ritos do undamento, passavam a reconhecer a autoridade da Coroa portuguesa inclusive com o pagamento de tributos, apesar de manterem a soberania em seus territórios, contando com a ajuda dos conquistadores portugueses para isso. Mas essa não era a única situação conhecida, pois os chefes do Congo, reconhecidos como cristão desde o primeiro batismo em 1491, mantinham sua independência e eram eles que protegiam a ação dos missionários que atuavam em seus domínios. Para os chefes congoleses o catolicismo era uma forma de legitimação do seu poder e não de submissão à Coroa portuguesa.

Em 1656 foi finalmente firmado um tratado de paz entre a Jinga e o embaixador do governador português de Luanda, Luiz Martins de Sousa Chichorro, com a ajuda fundamental do padre capuchinho Antonio de Gaeta, que deixou um relato sobre sua experiência junto à Jinga, transformado em livro pelo padre Francesco Maria Gioia da Napoli e publicado em 1669 com o título: La maravigliosa conversione alla santa fede di Cristo della regina Singa, e del suo regno di Matamba nell'Africa Meridionale. Junto com a paz, Jinga voltou a aceitar os ensinamentos católicos e ordenou uma série de mudanças para seu povo, proibindo certas práticas tradicionais como o sacrifício de crianças e introduzindo novos ritos como a adoração do crucifixo, as procissões e missas.

Desse momento até sua morte Jinga tornou a capital de seu reino um centro de disseminação do catolicismo, permitindo a construção de igrejas e a ação dos missionários, que frequentemente entravam em choque com os sacerdotes tradicionais, destruindo altares e proibindo ritos importantes no sistema de crenças locais. Antonio de Gaeta, com a saúde debilitada pelas repetidas febres, foi substituído por João Antonio Cavazzi da Montecúcculo, também capuchinho enviado pela Propaganda Fide, que esteve ao lado de Jinga até seus minutos finais e deixou um dos mais importantes relatos sobre as regiões do Congo e Angola no livro Descrição histórica dos três reinos do Congo, Matamba e Angola, publicado em 3 volumes em 1687, já depois de sua morte.

As práticas católicas e os missionários não ficaram presentes por muito tempo depois da morte de Mocambo, ou D. Bárbara, irmã que Jinga fez questão de tornar sua sucessora e que morreu logo depois dela, em 1666. Os chefes que assumiram o poder em Matamba depois disso afastaram-se do catolicismo e retomaram as tradições ambundas e imbangalas, apesar de continuarem a ser importantes fornecedores de escravos para os mercadores portugueses e seus emissários. O tempo das guerras também já havia passado, e elas só voltariam com vigor no século XIX, quando Portugal fez nova investida de ocupação territorial, em outro contexto histórico, dando início a outra fase da presença colonial em Angola.

A rainha Jinga de Matamba, no entanto, continuou viva no imaginário da região, sendo ainda hoje das mais importantes heroínas de Angola, apropriada com sentidos atualizados pela historiografia nacional, que nela vê a primeira angolana a resistir à dominação portuguesa. Também no Brasil ela esteve presente desde os tempos coloniais, quando súditos seus devem ter aportado como escravos em terras americanas, sendo personagem de festividades nas quais reis negros são celebrados, como as coroações de reis do Congo. Os cortejos que os acompanham, compostos por figuras da sua corte e de embaixadas vindas de outros lugares, muitas vezes incluem a rainha Jinga, por vezes aliada, por vezes inimiga do rei do Congo, nessas festas que recriam um passado africano entre os negros brasileiros.

Marina de Mello e Souza é professora de História da África Departamento de História da Universidade de São Paulo e autora de Reis negros no Brasil escravista e África e Brasil africano, além de artigos sobre o catolicismo na África central e o catolicismo negro no Brasil.