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Artigo
Exposições e museus de ciência no Brasil
Por Marcelo Knobel
Sandra Murriello
10/07/2008

Nas últimas duas décadas a comunicação pública da ciência vem se espalhando no Brasil. Maior cobertura na mídia, web sites, publicações, exposições, materiais, programas e projetos são parte dos caminhos dessa comunicação que, no Brasil, é comumente chamada de popularização. Neste leque de opções, os centros e museus de ciência são instrumentos que também vêm se multiplicando desde os anos 1980. O setor não apenas mostrou a sua expansão em número, como também em pesquisas e reflexões que se expandiram, particularmente desde os anos 1990, com crescente número de teses e publicações na área.

Os centros e museus de ciência e tecnologia são considerados espaços dinâmicos de comunicação e educação que permitem o acesso a um público diversificado. São espaços cujo objetivo é mostrar e demonstrar as idéias científicas utilizando variadas estratégias museográficas, mais centradas nos temas a comunicar que nos objetos. Ainda que mais identificados com os modelos hands-on desde a década de 1960, quando foi criado o Exploratorium em São Francisco, nos EUA, a origem desses espaços é bem mais antiga. Há séculos que existe a intenção de “musealizar” as propostas tecnológicas da época, como o evidenciou a criação do Museu de Arts et Metiers da França em 1794. Atualmente, as propostas apenas baseadas na interação manual estão sendo gradualmente superadas por um modelo de comunicação que apele ao engajamento intelectual do visitante (denominado minds-on). Há também uma clara tendência a fazer com que os museus sejam espaços públicos de debate da atualidade científica e tecnológica. Os museus se perfilam assim no cenário mundial como espaços democráticos e fundamentais para a promoção da cultura científica.

O Brasil é um país com mais de 190 milhões de habitantes e com grandes desigualdades sociais. Evidentemente, o acesso à comunicação da ciência também é desigual. O levantamento encomendado pela Fundação Vitae no ano 20001 indicava a existência de aproximadamente 140 centros e/ou museus de ciência e tecnologia, sendo que mais de 80 deles estavam localizados na região Sul-Sudeste. Além disso, apenas quatro cidades, Rio de Janeiro, Recife, Porto Alegre e São Paulo possuem grandes centros de ciência com uma oferta permanente e um número considerável de visitantes. Em outros lugares há experiências ricas e tentativas corajosas, mas a carência de recursos e a ausência de uma cultura museal constituem um empecilho considerável para muitas idéias e propostas.

De fato, os resultados da última enquete de percepção púbica da ciência e da tecnologia realizada pelo Ministério de Ciência e Tecnologia (MCT) em 20062 comprovam que são pouquíssimos os brasileiros que freqüentam espaços dedicados à ciência e tecnologia. Apesar de quase a metade dos entrevistados (2004 entrevistas) ter participado de algum tipo de evento cultural, apenas 4 % deles revelou ter visitado um museu ou centro de ciências durante o ano anterior à data da entrevista. Esse dado não necessariamente indica uma falta de interesse, mas também de acesso a algum dos canais de comunicação da cultura científica, já que a maioria dos entrevistados sequer tinha informação sobre a existência ou não de espaços museais na sua região. Então, quem acessa esses espaços? Quem os visita? Os escassos dados de público de museus existentes no Brasil mostram que os museus e centros de ciência e tecnologia são visitados principalmente por grupos escolares, parecendo não atrair muito ao resto da população. Nos últimos anos, os estudos de percepção pública de ciências e os estudos de público têm evoluído muito e vêm sendo aprofundados. Cabe destacar a ação do Observatório de Museus e Centros Culturais (OMCC) estrutura interinstitucional em funcionamento desde 2006, que tenta identificar o perfil de visitantes de museus, dado substancial na hora de estabelecer políticas culturais.

Qual o suporte para os centros e museus de ciência e tecnologia? E quem apóia, no Brasil, a comunicação das ciências? Como se criam atualmente centros de cultura científica? Quem investe nessa empreitada? A formação dos cidadãos em cultura científica hoje em dia depende, principalmente, do aporte governamental. O MCT, através do CNPq e Finep, e as agências estaduais de amparo à pesquisa como Fapesp, Fapemig, Faperj, entre outras, têm apoiado cada vez mais iniciativas de desenvolvimento e de pesquisa na área de divulgação científica. Entretanto, vale destacar a criação de um departamento específico voltado para a popularização da ciência e a tecnologia, no âmbito da Secretaria de C&T para Inclusão Social (Secis) do Ministério da Ciência e Tecnologia, que consolidou um espaço concreto de apoio a essas iniciativas, o que para o período 2004- 2007 significou um investimento superior a US$ 22.000.000,00.

Uma das suas linhas prioritárias vem sendo o apoio a centros e museus de ciência, e no plano de ação 2007-2010 se destaca o apoio à criação e ao desenvolvimento desses espaços, tendendo não só a aumentar a quantidade, mas também a melhorar sua distribuição regional. Além disso, a Secis é responsável pela criação e coordenação da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia que tem se consolidado como elemento aglutinador de diversas atividades em torno da questão de popularização e difusão da ciência em âmbito nacional, com o claro foco voltado para a democratização do conhecimento e inclusão social.

Além do apoio do setor governamental, investimentos sociais privados de fundações ou empresas também existem e são muito procurados pelas instituições que precisam de aportes econômicos para levar à prática suas idéias. Entre elas, cabe destacar a Fundação Vitae, que teve um papel fundamental na ampliação e melhoria de centros de culturais, principalmente na área científica e tecnológica. Com apoio a projetos de distinto porte, a Vitae apoiou diversos projetos que hoje estão bastante consolidados. Infelizmente a Fundação Vitae fechou, mas o legado deixado pela preocupação com a formação dos profissionais de centros e museus de ciência, bem como o investimento realizado durante a sua operação, são evidentes no setor. Nos últimos anos, o Instituto Sangari também tem apoiado o desenvolvimento de centros de ciência e de exposições no Brasil. Além de uma parceria com o Museu Exploratório de Ciências da Unicamp, o Instituto Sangari tem uma parceria com o Museu de História Natural de Nova York, e está trazendo e adaptando exposições americanas, e participando da concepção de novas exposições. A primeira exposição foi Darwin (2007), que já esteve em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, seguida pela exposição Revolução Genômica (2008), que também viajará pelo país. Estão previstas ainda mais oito exposições até o ano 2011.

Mas há outros tipos de apoio que também são necessários para o desenvolvimento e crescimento dos centros e museus de ciência. As redes de colaboração e comunicação entre instituições e pesquisadores são imprescindíveis, ainda que nem sempre sejam canais de suporte econômico. Estes espaços permitem a cooperação, o intercâmbio de experiências e de recursos entre seus membros. Em nível nacional, a Associação Brasileira de Centros e Museus de Ciências (ABCMC) reúne as instituições da área, e publicou em 2005 um Guia com a apresentação das mesmas organizadas por regiões3

No âmbito latino-americano a Rede Pop (Rede de Popularização da Ciência e da Tecnologia), como o seu nome o indica, nucleia centros e programas da América Latina e o Caribe. Esta rede recebe apoio da Unesco e começou a atuar em 1990 realizando até agora 10 reuniões. Da análise desses encontros4 concluiu-se que das suas quatro áreas prioritárias de ação – jornalismo científico, materiais didáticos, museus e centros de ciência e ensino não-formal - as duas últimas são as que maior presença têm nos eventos, indicando um crescente interesse no setor.

Um novo museu brasileiro

Na perspectiva de criar novos espaços para a comunicação da ciência e da tecnologia, a Universidade Estadual de Campinas vem desenvolvendo, desde 2005, seu próprio museu5. As iniciativas para a consolidação do Museu Exploratório de Ciências - Unicamp começaram em 2003. Em pareceria com o LNLS e com o Instituto Sangari, e apoio da Fundação Vitae e Fapesp, o Museu Exploratório de Ciências inaugurou, em 2005, a sua primeira exposição itinerante, a NanoAventura. Em 2006, foi inaugurada a Oficina Desafio que propõe desafios tecnológicos para jovens de 12 a 18 anos nas escolas e comunidades, tendo recebido o apoio da Finep e do Instituto Sangari.

Atualmente o museu está prestes a inaugurar sua sede no próprio campus da Unicamp, incluindo a sua primeira exposição permanente “O Tempo e a Construção do Espaço”. Este novo museu espera operar como um espaço de comunicação e discussão da cultura científica e tecnológica que possa ser útil à sociedade brasileira.

Marcelo Konbel é pesquisador associado do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor), Núcleo de Desenvolvimento da Criatividade (Nudecri), Unicamp, e coordenador do Museu Exploratório de Ciências

Sandra Muriello é pesquisadora pós-doc do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor), Núcleo de Desenvolvimento da Criatividade (Nudecri), Unicamp - sdrnano@yahoo.com.br

Notas:

1 Cury, M. Estudo sobre centros e museus de ciências. Subsídios para uma política de apoio. São Paulo: Fundação Vitae, 2000. Disponível on line:http://www.abcmc.org.br
2 Ministério Ciência e Tecnologia. Percepção Pública da Ciência e Tecnologia. Enquete 2007. Disponível on line: http://www.mct.gov.br
3 ABMC. Centros e museus de ciências do Brasil. Rio de Janeiro: ABCMC, UFRJ, Casa da Ciência, Fiocruz, Museu da Vida, 2005. Atualmente uma nova coleta de informações está sendo organizada, com informações atualizadas, que permitirá acompanhar o crescimento do setor.
4 Bentancourt Mellizo, J. La Red Pop a través de sus reuniones. Ciencia, tecnología y vida cotidiana. Reflexiones y propuestas del nodo sur de la Red Pop. http://www.redpop.org
5 Murriello, S., Contier, D., Knobel, M., Taves.S.J. “O nascimento do Museu de Ciências da Unicamp, um novo espaço para a cultura científica”. In: Vogt, C.A (org) Cultura científica: desafios. Fapesp, Edusp, p.198-231, 2006.