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Artigo
Portal giratório das biotecnologias de rua
Por Wenceslao Machado de Oliveira Jr
10/07/2008

Uma foto aérea de uma metrópole. À mostra, o tecido urbano. Suas formas visuais nos remetem para casas, prédios, avenidas, viadutos, infinitas ruas que terminam e começam umas nas outras. Ao passar do mouse esse tecido se amplia, se abre. À mostra, o tecido fisiológico. Suas formas visuais nos remetem para músculos, veias, fibras que terminam e começam umas nas outras.

http://www.labjor.unicamp.br/comciencia/img/divulgacao/ar_wenceslao/1.jpg
Esboço de imagem para a página de abertura do portal Biotecnologias de Rua

Tal qual numa porta giratória, ao entrar no portal Biotecnologias de Rua, o internauta pode ficar girando num entre dentro e fora, pois, assim como a tela inicial pensada para o portal, as obras e intervenções – escritas, imagéticas, teatrais... – criadas e realizadas pelos integrantes desse projeto de pesquisa, ação e intervenção, financiado pelo CNPq1 também buscam estar num entre, deslocado de qualquer dentro ou fora permanentes. Elas são, em sua maioria, ao mesmo tempo arte e ciência, imagem e palavra, exposição e captura, resultado e matéria-prima, divulgação e questionamento, porto de parada do já pensado e rampa imaginante de novos gestos, objetos, escritos, imagens e sons.

Oriundos de diversas áreas da pesquisa acadêmica, tanto pesquisadores constantes – ligados ao projeto desde seu início – quanto os flutuantes – bolsistas de várias naturezas e convidados esporádicos – todos vinculados à Faculdade de Educação e/ou ao Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp, o diálogo é o que caracteriza nossa maneira de estarmos juntos. Nas tardes de quinta-feira entramos todos na porta giratória: as produções e decisões coletivas. Se fora dessas reuniões conseguimos ver – pelo vidro transparente que as separa – as nossas áreas do conhecimento distintas das demais, quando estamos moldando uma de nossas obras, o vidro – que antes separava – se alarga e se abre ao meio, capturando-nos e às nossas áreas de conhecimento pelo e para o diálogo ali estabelecido.

Se tomarmos o portal Biotecnologias de Rua como mais uma das obras ali criadas e desenvolvidas, temos a porta giratória como imagem a nos dizer do trabalho e do pensamento que vivenciamos nos tempos e ações do projeto.

Em seu processo de produção já produziu muitas obras, além de ressonâncias e reverberações subjetivas em cada um e no grupo. Os muitos textos e imagens, as muitas conversas e decisões, os muitos emails trocados, as muitas propostas abandonadas ao longo do tempo – às vezes após estarem praticamente prontas para serem executadas em linguagem de programação – não são obras descartadas pelo grupo, mas sim relembradas muitas vezes, guardadas como marcas do conhecimento que ali circulou coletivamente.

A longa duração no desenvolvimento deste portal e dos blogs a ele linkados trouxe para nós a experiência de inventar obras que são como roteiros de teatro, coisas que desejam ser outras: textos e imagens que desejam ser blogs, impressos que desejam digitalizar-se. Mais um entre, desta vez, produzido pela espera, pelas idas e vindas, pelos começos e recomeços. Em suma, o portal ainda não existe, mas já é real. Ou ainda não é real, mas já existe.

A intenção dele também remete para um entre lugares. O portal pretende ser ao mesmo tempo um local digital de pesquisa e divulgação científicas.

•  Trazer para as telas da web imagens, sons e palavras escritas atinentes às biotecnologias que se produzem nos e circulam por diversos ambientes sociais urbanos.
•  Capturar as imagens e palavras dos internautas sobre as biotecnologias, capturando assim as biotecnologias por eles produzidas.
•  Mirar essas obras dos usuários da web e encontrar nelas novos materiais para continuar a conversa e as obras gestadas tendo as biotecnologias como um de seus motes.
•  Levar para as telas novas obras produzidas a partir, também, do que ali foi postado e capturado.

Buscamos um fluxo contínuo, ininterrupto em sua visão do alto, mas adensado em miradas mais próximas à cada obra, feito quando estamos nas ruas e a multidão torna-se pessoa por pessoa.

Para olhar de perto, escolhemos a via das imagens como modo privilegiado, tanto de captura quanto de pesquisa. Por isso, um dos ambientes do portal será o que temos chamado de muro de pichações, um local onde os internautas postarão e criarão imagens que toquem, imaginem, deformem a biotecnologia ou um dos seus temas.

Permeando essa perspectiva de fluxo contínuo, de giro ininterrupto entre o que se faz e o que se divulga, temos três idéias centrais do projeto. A primeira delas é a de que a biotecnologia é uma produção discursiva, em imagens e palavras, por isso a designarmos no plural, biotecnologias. A segunda é a a posta na arte como local e processo de subjetivação capaz de mobilizar aspectos e discursos comumente ausentes da divulgação científica. A terceira é a da rua como lugar onde as falas, discursos e imagens acerca dos assuntos que cruzam a vida social circulam de maneira muito diversa, com misturas e contaminações tantas vezes imprevisíveis, mas que também contém locais – ambientes sociais – onde se adensam certos temas e preocupações. O portal e os blogs foram pensados como sendo uma rua digital por onde circulam os temas biotecnológicos. Mais do que circular, as biotecnologias estariam sendo produzida ali, em sua pluralidade de sentidos e imagens. Daí a presença dos blogs zoológico, pet-shop, igreja, supermercado e clínica médica. No entanto, estes não foram os únicos ambientes sociais que enumeramos como locais de adensamento de algum dos temas da biotecnologia. Barbearia, salão de beleza, granja, academia de ginástica, banca de jornal entre outros foram elencados, mas abandonados ou aglutinados em algum dos blogs que estão efetivamente sendo desenvolvidos.

Outros motivos, relativos às pesquisas e produções do projeto ou de algum dos integrantes do projeto, levaram à presença dos blogs calçadão, cinema, terminal de ônibus e museu. Vinculados às obras de algum dos integrantes do projeto, esses blogs irão divulgar as pesquisas e intervenções já realizadas em momentos anteriores no projeto e expandir tais divulgações/divagações no contato com os internautas e na criação de postagens que buscam captar desses ambientes uma atmosfera, um perfume capaz de inebriar as biotecnologias, dispersando-as e multiplicando-as.

O blog do bar foi escolhido porque concluímos que este seria o ambiente social onde a fluência das falas seria maior, tanto pelas regras de convivência nele serem menores quanto pelas suas substâncias etílicas. Ele é também uma marca de nossa perspectiva de que as biotecnologias e as subjetividades se formam e deformam em narrativas localizadas em muitos dos interstícios da sociedade, todos eles mediando de alguma forma as perspectivas éticas, estéticas, cômicas, tensas, enfim, micro e macropolíticas nas quais as biotecnologias nos jogam cotidianamente.

Neste sentido, de estabelecer um diálogo na web tomando essas narrativas e imagens provenientes das biotecnologias que circulam pelas ruas como foco, alguns desses blogs terão um dos grandes temas da biotecnologia no centro das postagens e mobilizações: clonagem (zoológico, pet-shop e igreja); transgênicos (supermercado); células tronco (clínica médica e terminal de ônibus). Em outros blogs, no entanto, não há centralidade de nenhum desses temas, de modo a permitir o entendimento das muitas misturas e contaminações possíveis entre esses mesmos grandes temas da biotecnologia.

Para que o diálogo – interação ou interatividade – se estabeleça, postaremos, em cada um destes blogs, arquivos e imagens diversos que apresentem e problematizem os temas da biotecnologia em suas variadas aparições nesses ambientes sociais.

Os blogs, então, se apresentarão ao público de maneira muito diversa, uns trazendo às telas produtos de pesquisas e imagens feitos nos próprios ambientes sociais que lhes dão nome, outros mostrarão produtos de pesquisa bibliográfica e imagética gerados pelos próprios integrantes do projeto. Em todos eles estarão presentes imagens selecionadas ou criadas pelos integrantes do projeto, buscando tocar nos caminhos da arte para gerar mobilizações subjetivas para além das formas imagéticas habituais da divulgação científica.

Abaixo seguem alguns exemplos:

•  Pet-shop : contaminação entre imagens de animais de estimação na arte ocidental e de animais domésticos criados por transgenia ou clonagem (pesquisas feitas em livros de arte, revistas, jornais, internet).

http://www.labjor.unicamp.br/comciencia/img/divulgacao/ar_wenceslao/2.jpghttp://www.labjor.unicamp.br/comciencia/img/divulgacao/ar_wenceslao/3.jpghttp://www.labjor.unicamp.br/comciencia/img/divulgacao/ar_wenceslao/4.jpghttp://www.labjor.unicamp.br/comciencia/img/divulgacao/ar_wenceslao/5.jpg

•  Clínica médica : conversa entre uma figura liofilizada e um computador feito com peças de videogames (imagem criada no projeto e trecho de notícia retirada de jornal).

http://www.labjor.unicamp.br/comciencia/img/divulgacao/ar_wenceslao/6.jpg

Supercomputador militar feito com peças de videogame bate recorde mundial (09jun08)

'Papa-léguas' foi fabricado com peças de PS3, a um custo de US$ 133 milhões. Supermáquina é capaz de realizar 1,023 quadrilhão de cálculos por segundo.

•  Supermercado : anúncio de produto biotecnológico (imagem-propaganda criada no projeto e chamada retirada de jornal)

http://www.labjor.unicamp.br/comciencia/img/divulgacao/ar_wenceslao/7.jpg

Supermercados recebem primeiros produtos com transgênicos identificados no rótulo (15jan08)

•  Calçadão : o primeiro rascunho do blog aponta a contaminação de três universos presentes nos calçadões: muro, rua e vitrine (imagem criada no projeto)

http://www.labjor.unicamp.br/comciencia/img/divulgacao/ar_wenceslao/8.jpg

A intenção nestas imagens e postagens é tanto apresentar aos internautas as maneiras com que o projeto lida com os temas da biotecnologia – em imagens e palavras, em arte e ciência, quanto mobilizar esses internautas a conversar conosco, a produzir imagens e frases escritas, bem como híbridos dessas linguagens, de modo a nos apresentar como esses temas circulam pelas ruas e corpos.

Para mobilizar a participação do máximo de internautas, criaremos maneiras de solicitar e incentivar a entrada nesses ambientes virtuais (blogs) das próprias pessoas que transitam pelos “ambientes sociais” ali nomeados, de modo que comentem e tensionem o que lá foi postado.

Nosso desafio é construir um ambiente virtual que seja ao mesmo tempo um local de divulgação das pesquisas e ações culturais realizadas no projeto Biotecnologias de Rua e, ao mesmo tempo, um local onde futuras pesquisas se realizarão no mesmo projeto ou em outros.

Tomando a pesquisa como uma forma de produção cultural, nossas próprias postagens nos diversos blogs ou mesmo no blog do projeto constituem somente mais um dos ambientes sociais onde a biotecnologia é produzida.

As ações do projeto seriam, assim, também produtoras de biotecnologias ao serem colocadas na rua, seja nas peças e exposições, seja nos pôsteres ou artigos, seja no portal da internet. E como nossas ações se dão na interface entre ciências e artes e na interface entre pesquisa e divulgação científica, temos em todas as intervenções do projeto um movimento giratório onde aparece um tipo de d ivulgação científica onde arte e imagem jogam um papel central.

Wenceslao Machado de Oliveira Jr é professor da Faculdade de Educação da Unicamp, onde é pesquisador do Laboratório de Estudos Audiovisuais – Olho. Estuda as interfaces entre educação, imagem e geografia. Contato: wences@unicamp.br.

Leia mais:

Exposição propõe novas sensibilidades para desmistificar ciências
http://www.comciencia.br/comciencia/?section=3&noticia=376

Dado ou incerto: teatro movimenta vida, tempo e biotecnologias
http://www.comciencia.br/comciencia/?section=3&noticia=416

Labjor – Unicamp
http://www.labjor.unicamp.br/projetos/index.htm

Notas

1 O projeto Biotecnologias de Rua é coordenado por Carlos Vogt e foi aprovado pelo Edital MCT/CNPQ 12/2006 – Difusão e popularização da C&T. Número do processo: 553572/2006-7. Fazem parte da equipe permanente do projeto os pesquisadores Wenceslao Machado de Oliveira Júnior, Antonio Carlos Rodrigues de Amorim e Elenise Pires de Andrade, vinculados à Faculdade de Educação da Unicamp e Susana Dias, Germana Barata, Flavia Natércia e Carolina Cantarino, do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) da Unicamp.