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Entrevistas
José Mindlin
Um prédio está sendo construído especialmente para abrigar uma parte que Mindlin doou para a USP de sua vasta biblioteca. Um pedaço considerável de uma coleção particular, construída ao longo de toda uma vida, em breve se tornará público. Seus herdeiros concordaram plenamente: filhos, netos e bisnetos de um amante dos livros, eles têm suas próprias bibliotecas.
Por Simone Pallone
10/11/2008

Dizer que se gosta de livros ou literatura é muito pouco para José Ephin Mindlin, bibliófilo, advogado, empresário, membro da Academia Brasileira de Letras, sem contar suas aventuras como jornalista, editor e livreiro. Aos 94 anos, sua paixão pelos livros não é menor do que a que tinha aos 13, e que o levou a colecioná-los, principalmente obras raras. Sua biblioteca contém hoje mais de 35 mil títulos, obtidos após muita peregrinação por sebos do mundo inteiro, aquisições em leilões, trocas e alguns presentes. Com um problema de visão que o impede de ler, Mindlin tem se dedicado com mais afinco a escrever, e vai lançar, no início de 2009, seu quarto livro, Paixão por livros, pela Ediouro. Em uma conversa com a revista ComCiência, José Mindlin conta um pouco sobre sua vida entre os livros e sugere medidas para estimular a leitura no Brasil.

ComCiência – O senhor começou a colecionar livros a partir dos 13 anos e juntou em sua biblioteca mais de 50 mil livros, dos quais muitos exemplares raros, garimpados em sebos do mundo inteiro, ou adquiridos em leilões. Em seu livro Uma vida entre livros, o senhor cita outros colecionadores, também apaixonados por obras raras. Essa prática se manteve?
José Ephin Mindlin
– A pessoa que estuda a literatura do século XIX pode fazer um conjunto quase completo, ao passo que com uma variedade de interesses como eu, a biblioteca não tem limite de crescimento possível, o que aliás é uma vantagem, porque se eu conseguisse reunir todos os livros sobre alguns assuntos, perderia o interesse. No meu caso, o interesse se manteve durante todos esses anos, e agora decresceu, em parte porque a biblioteca é bastante ampla e, segundo, por causa desse problema de visão. Eu não posso ir a uma livraria porque não posso ler os títulos dos livros que estão expostos. É um absurdo completo. Eu comecei sem ter idéia de formar uma biblioteca. Comecei a frequentar os sebos aos 13 anos, comprando os livros que me interessavam. No começo, eu lia quase todos os livros que comprava. Mas isso é um processo muito cruel de crescimento, os livros vão se empilhando e de lá pra cá eu não consegui mais comprar só livros que eu tinha certeza de ler logo. Compramos muito mais livros do que conseguimos ler. Também a compra de livros, a busca por exemplares, sendo das primeiras edições, ou de livros autografados, tudo isso representa tema de interesse, e a ilusão de que vou ler permanece. Mas acredito que outros vão ler os livros que eu não li. Tive a sorte de os meus filhos e netos, todos gostarem de leitura e de livros, de modo que entendem muito bem a minha obsessão. Eles cresceram no meio de livros.

ComCiência – E como o senhor avalia a sua relação com os livros e a literatura, e a dos seus descendentes que cresceram nesse ambiente de leitura?
Mindlin
– Todos se interessam, têm a sua biblioteca, mas mais limitada a determinados temas, especialmente na questão de literatura. Eles não têm a preocupação que eu tenho de ter edições revistas pelos autores, ou exemplares com anotações manuscritas, a questão da história dos livros, exemplares que passaram por vários escritores. Há livro que tem história. Com exceção de uma filha, Diana, que está perigosamente próxima da minha forma de encarar o livro, os outros são todos leitores, também têm pilhas de livros que compraram e não leram, mas não têm a preocupação com o livro raro. Se você perguntar como eu defino o livro raro, eu diria que é simplesmente o livro que a gente deseja e não encontra.

ComCiência - Mas o senhor encontrou vários.
Mindlin
– Eu encontrei muitos, mas acho que há muito mais livros que não encontrei. Além disso, trata-se de um interesse que se renova sempre, que se amplia. Biblioteca completa não existe, nem biblioteca pública, como a Biblioteca do Congresso ou a Biblioteca Nacional francesa ou a britânica; são milhões de livros, mas há muito mais livros que eles não têm do que o que eles têm. E isso é estimulante, porque se a pessoa chegasse ao ponto de dizer “bom, agora não tem mais o que comprar”, seria muito frustrante. O tamanho da minha biblioteca se explica também pelo fato de que eu não abro mão dos livros que fui acumulando. Há coisas que hoje me interessam menos, mas estão aí para filhos, netos e bisnetos encontrarem e lerem. Muita coisa que hoje simplesmente não se encontra. Eles já fazem isso. Os bisnetos ainda são crianças, mas também já lêem e têm as suas bibliotecas. Agora, sobre a minha relação com o livro, eu digo em Uma vida entre livros: “num mundo em que o livro deixasse de existir, eu não gostaria de viver”.

ComCiência – É possível dizer que o senhor tem uma relação completa com os livros. Admira-os, coleciona-os, aprecia a edição, a história do livro, é um leitor inveterado, já publicou, comercializou, escreveu. De todas essas atividades relacionadas ao livro, qual lhe dá mais prazer?
Mindlin
– Agora, por conta desse problema de visão, eu estou escrevendo mais. Eu ainda escrevo à mão. Consigo escrever, mas não consigo ler o que escrevo. A minha secretária é que tem que transcrever, mas eu tenho projetos. No começo do ano, deve sair um livro, Paixão por livros, pela Ediouro, uma grande editora do Rio de Janeiro, que me convidou para escrever um livro sobre a importância da leitura e do livro, que estimulasse não leitores a passarem a ser leitores. Não é um texto grande, nele eu falo da minha experiência e parece que deu certo. Quem leu o boneco disse que o livro desperta o interesse mesmo.

ComCiência – O seu primeiro livro já desperta o interesse, sua escrita é bem fluida.
Mindlin
– Eu comecei a trabalhar como redator do Estado de S. Paulo com 15 anos e meio. Eu aprendi a escrever com simplicidade, com clareza, sem floreios e a leitura é fácil. Eu fiz Uma vida entre livros, Memórias esparsas de uma biblioteca, e publiquei recentemente Reinações de José Mindlin por ele mesmo. Isso porque eu vi na casa de uma neta, memórias de infância de escritores adultos. Eu li dois ou três deles, e me perguntei se seria capaz de fazer uma coisa do gênero. E fiz. Foi um desafio. Eu mandei o livro para minha neta dizer se conseguiu ler, se achou bom ou não. Ela gostou do livro e fiquei tranquilo. É um livro pequeno, não podia ser um calhamaço para a pessoa que não lê. Agora, o que eu posso fazer é escrever mais.

ComCiência – Sobre a leitura, o brasileiro lê hoje uma média de 4,7 livros por ano. O que o senhor acha que poderia ser feito para aumentar esse dado?
Mindlin
– É mais do que eu imaginava como média, porque o Brasil tem uma parte de analfabetismo mesmo, outra de analfabetismo funcional, dos que sabem ler e escrever mas não lêem efetivamente. Se você considerar isso, pode ter talvez 30 milhões, no máximo 40 milhões de pessoas que lêem. É pouco. As medidas para ampliar o número de leitores num país, como um todo, residem em mais bibliotecas públicas. Dificilmente, a biblioteca particular cobre um grande território.

ComCiência – Mas poderia haver novos atores influenciando. A iniciativa privada, por exemplo, poderia participar? O senhor, pela Metal Leve, apoiou publicação de livros, há empresas que apóiam programas que levam livros a comunidades carentes...
Mindlin
– É uma questão de exemplo e de ter o cuidado de falar de leitura como fonte de prazer e não como uma obrigação, ou seja, que tem que ler o livro. Quando falo do livro, digo: eu acho que você vai gostar de ler livro. Mas é uma escolha individual, o que eu acho importante, outros podem não achar, não há regra para isso. Em casa, a forma inicial para se começar o incentivo é na infância. Quanto mais crescida é a criança ou o jovem, mais difícil é despertar o interesse, mas se consegue também. Eu brinco sempre que uma boa maneira de despertar o interesse por um livro é deixá-lo à mão na mesa, fora da estante, e se a criança ou o jovem pegar no livro, a gente diz “esse você não vai entender, deixe para ler mais tarde”. Pode ter certeza que no dia seguinte ele já está lendo escondido o livro. Mas eu não precisei fazer isto, as crianças tinham sua pequena biblioteca e têm liberdade de mexer nos livros. Mesmo as obras raras nunca foram proibidas de se tocar. Você tem que despertar a paixão. A paixão não tem regra, como ela surge, como ela cresce.

ComCiência – O senhor falou sobre a ampliação de bibliotecas. A freqüência ainda é baixa, uma pesquisa sobre o Indicador Nacional de Alfabetismo Funcional (Inaf) de 2001, revelou que apenas 13% dos entrevistados freqüentavam bibliotecas com freqüência, sendo que a maioria das pessoas não tem uma boa biblioteca em casa. O que se poderia fazer para atrair mais pessoas para as bibliotecas públicas?
Mindlin –
Em primeiro lugar, afastar a idéia de que ler é uma obrigação, de formação, de que a pessoa que não lê está no caminho errado. Eu costumo dizer que quem não lê não sabe o que está perdendo, mas pode viver sem ler também. Tem que dissociar a idéia de leitura e obrigação na escola também, o professor tem que mostrar que o livro é uma fonte de prazer. Falta nas escolas o diálogo entre o professor e os alunos sobre a leitura. O exercício da leitura em voz alta, que é um dos principais caminhos para fazer surgir e desenvolver o hábito e interesse por leitura, por exemplo. Para isso, seria preciso que os professores lessem, e infelizmente o nosso problema, no Brasil, está mais nos professores do que nos alunos.

ComCiência – Ainda segundo dados do Inaf, a frequência a bibliotecas é maior entre jovens de 15 a 25 anos, o que parece excluir boa parte dos professores.
Mindlin –
E como é que o professor pode transmitir o gosto pela leitura se ele não tem esse gosto? Isso é impraticável. A biblioteca escolar é importante, mas aí você tem o problema de professores e bibliotecários. Há muito bibliotecário que considera que seu papel é conservar o livro e vê no estudante um possível adversário que vai estragar o livro. São defensores do livro e não estimuladores de leitura. Eu dei uma sugestão, no governo do Alckmin, de incluir no currículo escolar pelo menos uma hora por semana de leitura informal, de conversa sobre livros, entre professores e alunos. Fazer estimular a leitura em voz alta e uma espécie de premiação de alunos que vão mais a fundo na leitura. Porque, se o hábito é adquirido na infância, de preferência, ou na juventude, vai para o resto da vida. Mas, outra vez, não há regra. O exemplo é a coisa principal, mas as casas onde há livros no Brasil são uma minoria.

ComCiência – Nesse sentido, a biblioteca é a opção?
Mindlin –
A biblioteca deveria ser um segundo recreio, porque querer que o aluno, ao invés de ir ao recreio, vá à biblioteca é difícil. São raros os casos. Tem que haver uma hora informal de leitura e tem que haver o recreio. E o Alckmin introduziu isso nas escolas públicas, mas não sei se teve continuidade. Na ocasião, a coisa se espalhou bastante, de haver uma hora por semana para os alunos falarem com os professores e vice-versa. Numa classe, você tem uma porcentagem pequena que lê, mas essa minoria pode crescer. É um processo que eu não diria de doutrinação, mas de manter vivo o assunto.

ComCiência – O senhor acredita que a facilidade de se adquirir livros em locais mais fáceis, a preço inferior, pode ter desestimulado às idas às bibliotecas? Que as pessoas prefiram possuir o livro?
Mindlin –
A pessoa que lê tem uma ligação física com o livro, quer ter o livro, mas ter o livro não deveria ser condição de leitura. É necessário haver um número maior de bibliotecas públicas, nas escolas, nos bairros, onde não se pode adquirir. Eu me lembro que estava mexendo nesse assunto e verifiquei que havia em São Paulo 84 municípios que não tinham biblioteca. O primeiro esforço foi, então, instalar bibliotecas em todos os municípios, mas é um processo lento. Isso foi depois que fui secretário de Cultura, continuei ligado a isso, e numa ligação pessoal com o governador, com secretários de Educação, a gente fica soprando na cabeça das pessoas influentes e consegui que instalassem essas bibliotecas. Eu acho que está se lendo mais, apesar da informática. A informática é um complemento. Mas há pessoas que só vêem computadores ou televisão, não pegam o livro, não têm o prazer físico do manuseio do livro. A coisa está melhorando, pois hoje há livros baratos, não é um objeto para se assustar com o preço.

ComCiência – O senhor falou da informática, e hoje é possível baixar livros pela internet, para ler no computador ou em computadores de mão. O que o senhor pensa sobre isso?
Mindlin –
É melhor isso do que não ler, porque depois a pessoa vai procurar pelo livro impresso. Eu sou um otimista incorrigível, então tenho essa ilusão de que é possível encucar o gosto pelo livro. O Brasil é um país imenso, você tem, no interior, pessoas que nem sonham com biblioteca. Mas a televisão deveria pagar os seus pecados com programas de incentivo à leitura, concursos de resenhas. Deveria estabelecer uma fonte de interesse em que a leitura seja um instrumento, não o objetivo. Ninguém gosta de fazer as coisas por obrigação. Precisa-se esquecer a questão da obrigação e levar pelo lado do prazer.

ComCiência – O senhor falou em entrevistas anteriores que gosta de fazer releituras. Como é essa experiência?
Mindlin –
Agora mesmo eu estava com leitores lendo para mim muitas coisas diferentes. Eu resolvi fazer mais uma releitura de Em busca do tempo perdido, do Proust. Já li alguns volumes cinco vezes, outros quatro. Agora eu recomecei e todos que têm vindo ler para mim, lêem Proust. Eu quero cobrir a obra toda, não sei quantos meses vai levar, mas estou fazendo isso, e com muito gosto. Da literatura estrangeira, Proust é o meu preferido, se é que se pode falar em preferido, pois o campo é muito vasto.

ComCiência – Há outros na lista de releitura?
Mindlin –
Agora estou mais com releituras do que com leituras novas. A releitura, a gente às vezes se arrepende. Um livro que a gente gosta, vai reler e tem uma impressão completamente diferente. Nós mudamos. Muda o critério de julgamento, mas em regra não acontece de reler o livro de que gostou e não gostar. Eu nem me lembro para citar exemplo, pois foram poucos. Todos os livros de que eu gostei, eu reli com prazer. A releitura foi mais interessante. Machado de Assis, por exemplo, não sei quantas vezes eu reli. Não passa ano que não leia um romance ou contos ou ensaios, até poesia mesmo, apesar dele não ser um grande poeta, mas tem coisas muito boas de poesia também.

ComCiência – E o senhor tem alguma disciplina, alguma regra, para estipular releituras?
Mindlin –
Eu sou muito indisciplinado, e o livro tem essa vantagem, ele pode ficar esquecido 10 anos na estante e você o pega e ele está a disposição sem criar caso porque foi esquecido. O livro é o melhor amigo que a pessoa pode ter.

ComCiência - O senhor é membro do conselho editorial da Editora da USP (Edusp). Como é o processo de seleção das obras a serem publicadas?

Mindlin – Há uma comissão editorial que se reúne uma vez por mês. Cinco ou seis membros. Nessa reunião, o diretor da editora apresenta um relato das obras candidatas à publicação, conversamos e se resolve qual será publicada. Às vezes, fazemos observações para reformulação de alguma coisa, do estilo, por exemplo, ou se estiver muito grande, sugerimos que deve ser mais suscinto, mas respeitando sempre o autor. Por ser uma editora muito procurada, há uma espera de um a dois anos. Em geral seguimos a cronologia, a não ser que consideremos que deva ser publicado antes, pela importância. Há um questionário sobre o livro, e assessores do diretor preparam e mandam um resumo sobre a obra para a comissão. O diretor alerta também se o tema já foi tratado anteriormente, se está bem escrito, bem documentado. Essas reuniões são muito agradáveis e cordiais. Aparecem coisas que não conhecíamos, autores novos.

ComCiência - Há textos que deixam de ser publicados por falta de consenso?

Mindlin – Acontece, mas não é comum. Em geral, dos livros que chegam, o autor é conhecido por um dos membros da comissão, ou pelo conjunto de sua obra. Eu, por exemplo, conheço alguma coisa de ficção brasileira e estrangeira, sou capaz de julgar uma obra de ficção. Mas aparece muita coisa sobre ciência, matemática, e aí outros membros da comissão é que julgam com mais propriedade e os demais seguem a sua opinião. Se o relator tiver dúvida sobre a qualidade ou originalidade daquele texto, pedimos um outro parecer. Publicar numa editora como a da USP dá grande prestígio ao livro. Quando se trata de uma obra mais especializada, podemos sugerir uma co-edição que reduz o investimento e garante uma maior distribuição. Agora, muitas delas achamos muito boas e não queremos dividir. 

ComCiência – Sobre a doação que o senhor e sua esposa Guita fizeram para a USP, da sua coleção Brasiliana. Foram 17 mil volumes?
Mindlin –
Volumes são mais, devem ter entre 15 e 20 mil títulos. É um campo vasto, tem literatura, história, viagens, manuscritos. Para conhecer a biblioteca, precisa de mais de uma visita, precisa de um guia e eu gosto de ser guia.

ComCiência – Eu gostaria que o senhor falasse um pouco sobre a reunião desse material, foi um dos temas que o senhor garimpou bastante.
Mindlin –
Foi um dos primeiros que eu comecei. Eu me lembro que li A História do Brasil, do Frei Vicente Salvador, e isso detonou meu interesse por Brasiliana. Li Machado aos 13, 14 anos. É um marco de quando comecei a freqüentar sebos, mas em casa eu já lia, porque tinha biblioteca, meus pais liam, meus dois irmãos mais velhos liam. Não precisava de estímulo. Mas a Brasiliana virou um conjunto indivisível. Se eu deixasse para os filhos, eles são quatro e todos eles têm filhos também, então dispersaria um conjunto que foi se formando através de quase 80 anos. A biblioteca tem 80 anos de formação. Aí nós achamos que ela pode ser bem particular até um certo ponto, mas tem que se transformar em bem público. Foi aí que resolvemos fazer a doação à USP, porque os filhos não teriam condição de manter o conjunto, e menos ainda de fazer crescer. São quatro filhos e cada um com sua biblioteca e seus interesses. E a Brasiliana, que representa mais ou menos metade da biblioteca, forma um conjunto indivisível e a solução foi doar à USP, com a condição de ser instalada separadamente das outras bibliotecas da universidade, porque ela representa esse esforço para sua formação. E está sendo construído um prédio para abrigar esse material. Eu acho que até um certo ponto da vida somos donos da biblioteca, depois passamos a ser depositários desses livros. E a questão do próprio fetiche da propriedade, eu não tenho. Eu tenho muito prazer de possuir o livro, mas, em última análise, ele tem que se transformar em um bem público. Eu espero que tenha imitadores.

ComCiência – O senhor tem preocupação semelhante com algum outro conjunto da sua biblioteca, como a Camoniana?
Mindlin –
A Camoniana é boa, pelo menos eu tenho desde as primeiras edições de Camões até o século XVII, XVIII e XIX. Aí em diante já começaram as edições comerciais e isso não entra na biblioteca, a não ser edições comentadas. Não tem muitos autores portugueses na minha biblioteca, mas a Camoniana é o núcleo da literatura portuguesa. Deve ter umas 120 edições dos Lusíadas, de vários séculos. É uma coisa meio obsessiva, mas isso não me preocupa. Não faz mal a ninguém, me dá prazer e gera frutos.

ComCiência – O senhor consegue guardar todos os títulos que possui em sua biblioteca?
Mindlin –
A Cristina, nossa bibliotecária, que está conosco há 27 anos, conhece bastante toda a biblioteca. A parte de livros raros, eu conheço e sei onde estão, posso pegar a qualquer momento. O livro moderno, é impossível, para isso temos o catálogo. Todos os livros estão no computador, com a indicação do local, e no livro há uma papeleta que indica o local, a sala em que fica o livro, porque a biblioteca está em duas salas da casa e outra parte está no pavimento inferior de uma casa do outro lado da rua. As estantes são numeradas e as prateleiras têm letras. Está organizado, nesse sentido, ela não é indisciplinada. Tenho algumas vertentes na biblioteca: literatura brasileira, estrangeira, livros de arte, história, crítica literária. Algumas delas me interessam mais. Literatura estrangeira é uma coisa genérica. Mas se eu encontro um livro que desperta o meu interesse e que não se enquadra em nenhuma das vertentes, eu não vou dizer “não, esse eu não vou comprar porque não se enquadra”. Se ele me interessou, deve ter uma razão pra isso. Eu sou bastante flexível, como fui flexível na educação dos filhos. A minha preocupação com os filhos foi minha e de minha mulher, que infelizmente eu perdi em 2006. Nós fomos casados quase 70 anos. E foi assim, um casamento curtido, não foi “agüentado” não. Eu conheci minha mulher, Guita, na faculdade, cercada de rapazes cabalando para entrar num dos partidos acadêmicos: Renovador, Progressista. Eu a vi pela primeira vez, entrei na roda e disse: “olha, tudo isso que eles tão falando aí é bobagem, se quiser um bom partido, está aqui”. Ela me pegou pela palavra. Ela se formou em direito, não chegou a advogar, mas me acompanhava no trabalho de advogado e gostava de livros. Ela me incentivava. Quando havia uma extravagância que poderia comprometer o fim do mês, ela dizia “olha, vamos comprar, a gente dá um jeito”. Dinheiro a gente recupera, livro às vezes você não encontra outro exemplar.

ComCiência – O mercado editorial brasileiro cresceu bastante nos últimos anos. Uma recente pesquisa realizada pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) revelou que o crescimento do volume de vendas foi de 6% de 2006 para 2007, e o aumento da comercialização de livros de porta em porta, que atende as classes C e D aumentou 91% nesse período. E hoje muitas editoras prezam pela qualidade gráfica dos livros. Como o senhor avalia a evolução desse mercado?
Mindlin –
É um indício de que se lê mais do que se imagina. Está progredindo. Há mais bons livros. Anos atrás, um livro bem diagramado, bem bonito, era exceção. Hoje, é quase a regra. O livro tem que obedecer a certos padrões que o tornam atraente. Eu dizia a amigos “olha, o livro bonito não é mais caro que o livro feio, vamos procurar fazer livro bonito, simples, mas que dê prazer em manusear”. Acho que nesse sentido, progrediu-se bastante. Não só aqui como no exterior (França Inglaterra, EUA), a produção cresceu muito. Eu acho que o livro está passando a fazer parte da vida das pessoas, ainda é a minoria que lê, mas no círculo de classe média, de amigos, difícil pegar uma casa que não tenha livros. Em Campinas, acho que a Unicamp deve ter tido um papel importante nesse quesito. É minoria, não há dúvida, mas é uma minoria que vai contagiando outros.

ComCiência – O senhor gostaria de comentar mais sobre a sua biblioteca?
Mindlin –
Meu problema é a diversidade. Eu sou da geração de influência francesa, nós tínhamos governantas que falavam francês conosco. Então, o francês tornou-se o segundo idioma. Portanto, tem muita literatura francesa na biblioteca. Montaigne é um dos autores de estimação. Eu lia na faculdade de direito, os professores liam as preleções em voz alta e eu lia os livros sossegado no fundo da sala. Li mais literatura do que livros jurídicos na faculdade de direito. Eu tinha 2 horas, 3 horas por dia de leitura no fundo da sala. Quando eu ia à aula era para ler. De vez em quando, prestava atenção. Eu entrei na faculdade em 1932, com 22 anos, e me formei em 1936. Muitas vezes eu não ia à faculdade porque não havia interesse de ouvir os professores lerem preleções. Um ou outro professor dava aula, esses eu tinha interesse em ouvir. Quando eu estava no 3º ano, em maio, resolvi ver como andavam as coisas na faculdade. As aulas tinham começado em março, e quando eu fui entrar na sala, o professor Valdemar Ferreira disse “ah, o senhor está chegando aqui, apareceu?” E eu lhe disse: “o senhor me desculpe, eu andei muito ocupado, mas eu agora vou freqüentar”. Quando eu saí no pátio da faculdade, encontrei um advogado amigo que disse “você fala francês e inglês? Quer ir à Europa?” “Que pergunta, claro que quero”. “Então vamos ao palácio do governo, porque o Brasil (Marinha) está mandando uma tripulação buscar um navio escola na Inglaterra e estão convidando algumas universidades para serem representadas. E você vai representar a Faculdade de Direito da USP”. Naquela noite, acabei saindo para uma viagem de 5 meses. Pegamos o navio no estaleiro, que fez uma viagem de visita oficial à Inglaterra, França, Portugal, Itália e Espanha, e viemos à vela de Barcelona ao Rio de Janeiro em 49 dias. Eu li 50 livros nesses 49 dias. Mas minha promessa de freqüentar a faculdade, eu não cumpri. Fiz segunda época e não perdi o ano. O 4º ano eu freqüentei mais. O acaso teve um papel muito importante na minha vida. Fazer uma viagem à Europa, por exemplo. Enfim, fui indisciplinado, e sou até hoje.

Para saber mais sobre José Mindlin e sua biblioteca:

Uma vida entre livros: reencontros com o tempo? (1997)
Memórias esparsas de uma biblioteca (2004)
Destaques da Biblioteca InDisciplinada de Guita e José Mindlin (2006)