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Novos caminhos para a educação básica e superior
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Artigo
Novos caminhos para a educação básica e superior
Por Myriam Krasilchik e Ulisses F. Araújo
10/02/2010

A educação passa por uma fase de tensão entre a forma educativa predominante que conhecemos, consolidada no século XIX e pautada na transmissão de conhecimento, e as necessidades e transformações características da sociedade contemporânea neste início de século XXI. A demanda pela expansão do acesso à educação básica e ao ensino superior, o aumento do conhecimento em quantidade e complexidade, o crescimento de tecnologias de informação e comunicação e o estabelecimento de novas relações das instituições de ensino e pesquisa com a comunidade próxima e global, são alguns dos fatores que provocam a necessidade urgente de reforma e mudança educacional.

Como exemplo dessas tensões, o próprio fato da população estudantil estar aumentando muito nas últimas décadas e passando por profundas modificações em seu perfil, tornam cada vez mais prementes a necessidade de transformar o ensino, que ainda permanece livresco, memorístico e pouco significativo para a grande maioria dos estudantes. Assim, formam-se classes muito numerosas e compostas por alunos que diferem em seus objetivos, atitudes, desenvolvimento intelectual (entre muitos outros fatores), criando situações que exigem mudanças, em termos de atitude e de procedimentos, do professor em seu exercício profissional.

Um dos desafios que os professores enfrentam nessa nova realidade é o envolvimento dos alunos no processo de aprendizagem. O trabalho de Marton e Säljo em 1976, por exemplo, contribuiu significativamente para se compreender essa realidade. Eles identificaram duas posturas diferentes de estudantes frente ao estudo e ao conhecimento, e que na literatura passaram a ser chamadas de:

a)Superficiais são os alunos que ficam limitados à memorização de material apresentado pelo professor em textos ou em aulas geralmente expositivas. Seu maior interesse é atender o exigido nas avaliações para obter boas notas e bons conceitos entre professores, colegas e familiares como uma imposição externa. Esse aluno tem uma visão atomística de fatos memorizados isoladamente que não constituem em conjunto conexo e integrado. Não distinguem conceitos e princípios de exemplos.
b)Profundos são aqueles que procuram ampliar o que é ensinado por meio de perguntas, leituras complementares e busca de novos materiais para leitura. Procuram focalizar o que é significativo, relacionam conhecimento prévio de experiências pessoais com conhecimento teórico para organizar e sintetizar um conjunto coerente de conhecimentos que sejam aplicáveis em diferentes situações. Em sala de aula, relacionam os diferentes conhecimentos numa visão interdisciplinar, coordenando os diferentes momentos e disciplinas do curso.

Infelizmente, hoje em dia a configuração do sistema educacional tradicional estimula a abordagem superficial, pela preponderância de aulas expositivas e valorização de cobrança de informações, sem um processamento que leve à compreensão e ampliação dos conteúdos ensinados. Com isso, promovem a apatia, problemas de comportamento e desinteresse pelas aulas.

Não há como pensar que os processos educativos seguirão funcionando nos modelos estabelecidos no século XIX, que reforçam a postura de alunos superficiais: encerrados em quatro paredes, limitados temporalmente no horário de aulas, e baseados numa relação em que alguém que detém o conhecimento o transmite aos demais. As transformações em curso, fontes de tensão, tendem a modificar de forma significativa os processos educativos e de produção de conhecimentos.

É nessa tensão que a tarefa do professor fica ainda mais complexa, pois o aumento de alunos na classe com diferentes perfis, expectativas e desenvolvimento emocional e intelectual, obriga-o a buscar alternativas para melhor atender às necessidades de todos e de cada aluno.

O essencial em todo esse movimento é a mudança no eixo, no próprio papel dos sujeitos envolvidos nos processos educativos. O que autores como Lee Shulman apontam, no livro The wisdom of practice, é que a relação ensino-aprendizagem deve sofrer uma inversão, deixando tal processo de centrar-se no ensino, para contrar-se na aprendizagem e no protagonismo do sujeito da educação.

Nessa concepção, a produção dos conhecimentos pressupõe um sujeito ativo, que participa de maneira intensa e reflexiva dos processos educativos. Um sujeito que constrói sua inteligência, sua identidade e produz conhecimento através do diálogo estabelecido com seus pares, com os professores e com a cultura, na própria realidade cotidiana do mundo em que vive. Referimo-nos, portanto, a alunos que são autores do conhecimento, e não meros reprodutores daquilo que já foi produzido. E, também, de um novo papel para os professores que, de únicos detentores do conhecimento, passam a ser também mediadores do processo.

No fundo, trata-se de uma proposta educativa que promove a aventura intelectual, mediada pelos professores. Nesse modelo, o papel dos alunos e das alunas na escola e na universidade deixa de ser o de memorização dos conteúdos ou apenas de interpretar os dados trazidos pelos professores, livros e internet. A aventura do conhecimento pressupõe dar voz e espaço de ação aos estudantes, promove a aprendizagem coletiva e cooperativa, incita-lhes a curiosidade e a questionar a vida cotidiana e os conhecimentos científicos e, acima de tudo, dá-lhes condições para que encontrem as respostas para suas próprias perguntas e da sociedade em que vivem.

Muitos professores resistem à participação ativa dos alunos nas aulas e projetos por insegurança, temendo perda de tempo, situações constrangedoras e descontrole da classe. No entanto, quando há sincero desejo de dialogar, ouvir os discentes e acreditar que podem contribuir para estabelecer um clima de estudo profundo, os ganhos para o processo educativo são enormes.

Metodologias ativas de aprendizagem, ou interativas, sempre estiveram presentes na literatura educacional como iniciativa de professores ou grupos isolados. Hoje em dia, face às condições já mencionadas de remapeamento do saber, busca de motivação, desenvolvimento de tecnologias e de fontes de informação, é necessário optar por transformações radicais que ampliem o espectro de modalidades didáticas.

A Aprendizagem Baseada em Problemas é umas das formas que vem se adequando a esse novo papel. De acordo com Mayo, no artigo “Student perceptions of tutor effectiveness in problem based surgery clerkship”, publicado na revista Teaching and Learning in Medicine, o ABP é uma “estratégia pedagógica que apresenta aos estudantes situações significativas e contextualizadas no mundo real. Ao docente, mediador do processo de aprendizagem compete proporcionar recursos, orientação e instrução aos estudantes, à medida que eles desenvolvem seus conhecimentos e habilidades na resolução de problemas”.

Esse modelo pedagógico é uma das abordagens inovadoras surgidas nos últimos anos, que vem ocupando espaço cada vez maior em algumas das principais universidades de todo o mundo. A proposta de Resolução de Problemas adota como princípio o papel ativo dos estudantes na construção do conhecimento. Trabalhando em pequenos grupos e coletivamente, os alunos devem pesquisar e resolver problemas complexos, relacionados à realidade do mundo em que vivem.

Assim, entendemos que a adoção da Aprendizagem Baseada em Problemas pelas instituições educativas configura-se como uma ferramenta poderosa para formar profissionais nas condições exigidas por sociedades que buscam estruturar-se em torno de conhecimentos sólidos e profundos da realidade, visando a inovação, a transformação da realidade e a construção da justiça social.

Mas inúmeras outras possibilidades vêm sendo utilizadas nas mais importantes instituições educativas do mundo, tanto no ensino superior quanto na educação básica. Por exemplo, podemos citar o método socrático, muito popular em cursos de direito. É uma experiência de diálogo em que alunos podem fazem perguntas uns aos outros e o professor interage como participante e guia de discussão. Não há um guia predeterminado e o diálogo transcorre dependendo das perguntas e respostas. Uma outra modalidade são as Simulações role play, que requerem que o aluno assuma posições diante de situações que envolvem valores, aspectos éticos e problemas sujeitos a controvérsias. O estudo de caso, bastante empregado em diversas áreas de conhecimento como medicina, economia e administração, envolve situações reais em que informações são fornecidas aos estudantes, levando-os a chegar a conclusões que, debatidas pelos grupos, podem resolver o problema proposto. Podemos citar também as metodologias experimentais, que têm como base a noção de que o aprendizado deve ser enraizado na experiência pessoal do estudante. Geralmente, essa modalidade é associada ao ensino de ciências, mas vem sendo ampliado para trabalhos de campo, monitorias e estágios em museus, indústrias, e serviços de saúde, buscando promover a inserção do estudante no campo de trabalho, como profissional reflexivo, ético, que coloca em ação o que aprende conceitualmente.

A educação, básica e superior, não passa incólume pelas transformações sócio-político-econômicas que estamos vivenciando nas décadas recentes e precisa se “reinventar” para continuar ocupando o papel de destaque que as sociedades lhe destinaram nos últimos 300 anos. Esse processo passa pela possibilidade de incorporar metodologias ativas de aprendizagem nas relações educativas, apoiadas em novas formas de se conceber as relações de ensino e de aprendizagem e os papéis a serem desempenhados pelos sujeitos da educação, com toda a diversidade derivada de acesso de todas as pessoas às escolas e universidades. Essa transformação deve contribuir para a formação de alunos profundos, autores e protagonistas do processo de conhecimento.

Myriam Krasilchik e Ulisses F. Araújo são professores da da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo EACH/USP.