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Artigo
O termômetro da Bienal de Veneza
Por Flávio Coddou
10/10/2010

A 12ª Bienal de Arquitetura de Veneza foi inaugurada em agosto e confirma o seu papel de grande referência para o universo arquitetônico por conta de sua tradição e relevância: é a vitrine intra-disciplinar por excelência. O lema da curadoria deste ano “People meet in architecture”, proposto por Kazuyo Sejima – ganhadora do prêmio Pritzker junto com seu sócio Ruye Nishizawa em 2010 – tenta resgatar a importância do espaço público e lega à arquitetura a responsabilidade prioritária de, nas condições atuais de explosão de crescimento das cidades, configurar os espaços de encontro dos indivíduos. Num momento em que se realiza outra vitrine, a Expo Shanghai, corporativa e comercial, que se transforma na vedete midiática do momento, cabe reafirmar o papel da Bienal como o evento de maior importância para os arquitetos pois, embora careça de impacto midiático como outros festivais de arquitetura, é capaz de sintetizar a produção mais recente contemporânea, seja por conta dos convites especiais a artistas e arquitetos, seja através das representações nacionais em seus respectivos pavilhões. Infelizmente a sua essência é desvirtuada por conta da interpretação do tema levado ao pé da letra ou, ao contrário, quando alça voo a elucubrações pulverizadas que pouco contribuem com o discurso arquitetônico, ou ainda, quando limita-se à apresentação baseada em marketing estatal.


Pavilhão do reino de Bahrain, premiado como melhor participação nacional
na 12ª Bienal de Veneza. Foto: Flávio Coddou.

Crise econômica, sustentabilidade e austeridade. A repetição desses temas marcam tanto os pavilhões nacionais quanto as salas de convidados, mas a capacidade de síntese trazida por alguns artistas faz com que um dos setores mais interessantes deste ano seja a sequência de salas que alternavam artistas convidados e alguns pavilhões nacionais dentro do Arsenale. Os desdobramentos da lógica da arte global chegam a transportar-nos de volta às salas do complexo Inhotim: Olafur Eliasson ocupa uma sala inteira do Arsenale com três imensas mangueiras de água que dançam em meio a uma luz estroboscópica, enquanto a canadense Janet Cardiff faz soar um coral a partir de uma roda de 40 tótens-falantes.

Uma sequência filmográfica de Wim Wenders, bela e lúdica sobre o projeto do Rolex Learning Centre em Lausanne, Suíça, projeto da curadora da Bienal, reforça a relação essencial entre cinema e arquitetura. A promenade em 3D através dos espaços, e a sequência dos arquitetos do edifício passeando sobre veículos de duas rodas Segway revelam o desígnio ousado da câmera de transportar o espectador a Lausanne. Nesse sentido, e de forma mais livre e inspirada que Wenders, os quatro cineastas que construíram a narrativa do pavilhão português sobre quatro casas, atingiram, sem retóricas forçadas nem obviedades, a essência da arquitetura de maneira sublime. Sobre o pavilhão português publicaremos um artigo dedicado com exclusividade na revista Drops.


Pavilhão holandês reivindica a reciclagem dos edifícios vazios ou subutilizados
das cidades holandesas. Foto: Flávio Coddou.

Destaca-se também a participação holandesa com um manifesto contra o abandono dos edifícios nas grandes cidades, e o pavilhão foi coberto com uma malha suspensa de pequenas maquetes de espuma reproduzindo os edifícios emblemáticos em desuso. Vizinho ao pavilhão holandês, a Bélgica trouxe uma das contribuições mais potentes e poéticas sobre o uso dos materiais: transportando pedaços de elementos decorativos e superfícies desgastadas por passos ou cadeiras de escritórios, corrimãos riscados, e dispostos de modo museográfico, chamam a atenção para o modo como materiais são capazes de expressar o processo de degradação e desgaste e lidam com a conscientização sobre a importância da “epiderme” na arquitetura, cuja história do edifício se impregna nela.

O panorama da Bienal contempla então cinco cenários marcadamente diferentes:

1- os que apostam mais na arte do que na arquitetura, como os pavilhões da Grécia, Polônia e Canadá. A confusão com a Bienal de Arte, e a inclusão de artistas por parte da curadoria para ocupar espaços do Arsenale, acarreta a encomenda de alguns pavilhões a artistas nacionais, e embora o resultado às vezes possa ser interessante, há um claro abismo entre o tema proposto e o discurso arquitetônico estruturado pelos textos de seus catálogos. A grande surpresa da Bienal é a participação chinesa, pois a expectativa do público sobre a representação do gigante asiático acaba se dissolvendo quando se defronta com as instalações de sua sala no Arsenale. Tendo em vista o potencial do uso de sua máquina de marketing sobre as “conquistas” de suas vedetes arquitetônicas, a China, ao contrário do que se esperaria, acabou trazendo a Veneza três instalações artísticas que surpreendem pela singeleza e aposta em uma narrativa baseada em diferentes materiais e técnicas.

2- os que apostam na sustentabilidade, sem surpresas, sendo o ápice dessa aposta o pavilhão espanhol, que apresenta os projetos vencedores do concurso Solar Decathlon. Infelizmente o potencial do discurso da arquitetura sustentável lato sensu, que espanta e irrita os arquitetos que reivindicam a noção de sustentabilidade intrínseca ao projeto e não enquanto acessório, encontra uma trava no pavilhão espanhol com o resultado de um concurso sobre casas unifamiliares auto-sustentáveis e experimentais, que infelizmente acabam travestindo objetos arquitetônicos de formas variadas com painéis solares.


Sala do pavilhão italiano Ailati, curadoria de Luca Molinari. Foto: Flávio Coddou.

3- os curadores pragmáticos mostram projetos de arquitetura, com exposições facilmente transponíveis a catálogos, e apostam na forma mais tradicional e certeira de, através de um discurso lógico e analítico, compreender o panorama de construção, seja dos arquitetos-estrela, seja da nova geração. Esse é o caso do pavilhão da Itália, que aposta na variedade, com o intuito de desmentir aqueles que dizem que nada se constrói no país. Segundo o curador Luca Molinari, a ideia do pavilhão “Ailati”, Itália lido ao contrário, está relacionada com a consciência de que o isolamento da produção italiana, desde o fim da hegemonia da arquitetura italiana no século XVII, acabou resultando, especialmente no século XX, numa arquitetura pensada “lateralmente, e resultando numa produção interessante e extremamente estimulante”. O vasto panorama, no entanto, está muito baseado nas encomendas privadas, e daí a impossibilidade de negar a crise dos projetos públicos na Itália. No caso do Brasil, o interesse se concentra quase exclusivamente em quatro jovens escritórios de “arquitetos nascidos após a construção de Brasília”. A primeira seção, dedicada a Brasília, peca por querer mostrar de forma muito óbvia os cinquenta anos do Plano Piloto e a arquitetura de Niemeyer a um público cujo interesse vai além de uma simples colagem de fotografias e poucas plantas. As cinco décadas deveriam estar refletidas no pavilhão brasileiro através da apresentação dos problemas, desenvolvimento e reflexão sobre o futuro da cidade e não como vitrine nostálgica, frágil e vaga. Nesse sentido, a segunda sala, com os jovens arquitetos, ou melhor dizendo, os jovens arquitetos paulistanos, acabam criando maior interesse por conta de alguns projetos públicos de grande escala. Vale destacar ainda o pavilhão do Japão através da análise muito precisa do movimento metabolista que comemora 50 anos, e sua contribuição à arquitetura japonesa até os dias de hoje. São apresentadas maquetes em grande escala de projetos de casas singulares de Ruye Nishizawa e Yoshiharu Tsukamoto.

4- estão presentes os pavilhões que apostam na arquitetura paramétrica. Embora cada vez o abismo entre o discurso da arquitetura paramétrica e o mundo real seja menor, com o aumento de seu uso em termos de racionalização da produção de peças com formas tridimensionais complicadas, o grande drama dessa aposta é o seu isolamento, relegada ao discurso muitas vezes hermético exclusivo às escolas de arquitetura, especialmente AA, Columbia e IaaC. Neste sentido, o pavilhão da Áustria é uma coleção de maquetes de escritórios que propuseram projetos na Áustria ou austríacos que construíram fora do país. São apresentadas maquetes escultóricas de Greg Lynn, Coop Himmelb(l)au, Owen Moss etc, que colocadas lado a lado, são formas experimentais que parecem formas dificilmente transponíveis à arquitetura. Embora a inovação desses processos criativos e construtivos seja sedutora, a proposta austríaca, “Austria under construction, Austrian architecture around the world, international architecture in Áustria”, dentro de seu autismo, foge do tema proposto pela curadoria da Bienal, se levarmos em conta os temas mais urgentes das cidades atuais.

5- há ainda os pavilhões que souberam alcançar visibilidade através de uma elegante discrição, usando uma narrativa que, embora pertencente à disciplina, é generosa e busca outras referências para contribuir com a Bienal no sentido mais amplo e consistente. Portugal e Croácia, de modos muito diferentes, foram capazes de trazer esse frescor e fazer com que seus pavilhões mantivessem a retórica arquitetônica usando o vídeo, no caso de Portugal, e a percepção geográfica de Veneza e seus canais, propondo um pavilhão flutuante no caso da Croácia. Fatalidades são esperadas, e a empreitada de uma longa jornada do pavilhão croata iniciada em Kraljevica e atravessando o Mar Adriático, terminou às margens dos Giardini com um pavilhão que não pode ser visto e usufruído por conta do estado precário em que chegou à cidade. O pavilhão croata ecoava a magnífica experiência e compreensão da dinâmica fluvial da cidade de Veneza, há 30 anos, quando fora construído o Teatro del Mondo de Aldo Rossi.

Além da lista dos cinco cenários da Bienal, encontra-se a triste situação do pavilhão da Venezuela. Projetado por Carlo Scarpa entre 1954 e 1956, o edifício tem problemas construtivos graves por conta de seu abandono, e vários pequenos remendos foram feitos para tentar salvar a integridade da marquise de entrada, com o risco de desmoronamento iminente. Não ficou claro se a desistência da participação da Venezuela tem a ver com o estado do edifício, ou se é parte de sua política cultural, mas encontrar as portas desse edifício fechado nos alerta para o caráter paradoxal daquilo que propomos pesquisar e produzir: a dupla urgência de preservar os bons exemplos de arquitetura, que devem a todo custo ser mantidos, e a luta contra a impotência de propor soluções arquitetônicas e urbanas que possam salvar os intermináveis subúrbios das mega-cidades alheios a arquitetos e urbanistas.

O lema de Sejima reforça a ideia, sustentada por um sentimento otimista de capacidade técnica e intelectual da comunidade arquitetônica, de consciência e responsabilidade de projetos que sirvam de palco para o encontro, capazes de transformar o “vazio” ou interstício no seu lugar mais importante, porque é ali onde se potencializará a coletividade.

Este artigo foi originalmente publicado na revista Drops, no portal Vitruvius.

Flavio Coddou é arquiteto e um dos editores responsáveis pelo Vitruvius Espanha.