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Artigo
Peregrinação científica com Otto Gottlieb
Por Raimundo Braz Filho
10/07/2011

A participação no curso básico de fitoquímica experimental, em nível de especialização, em 1963, oferecido pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), Manaus (AM), com a participação dos professores Otto Richard Gottlieb e Mauro Taveira Magalhães, vinculados, na época, ao Instituto de Química Agrícola do Ministério da Agricultura, Jardim Botânico, Rio de Janeiro, registrou meu primeiro contato com o abnegado professor Gottlieb. A continuação desse curso, em julho do mesmo ano, contribuiu decisivamente na minha decisão de optar pela qualificação profissional em química de produtos naturais – química orgânica, especialização que continuo desenvolvendo.

Em março de 1965, seguindo orientação do professor M. Mateus Ventura fui inscrito no mestrado oferecido pelo curso de pós-graduação em química de produtos naturais – química orgânica da Universidade de Brasília (UnB), coordenado pelo professor Otto Richard Gottlieb, estreitando assim meu contato com ele. O curso contava com equipe de professores da própria UnB (Otto R. Gottlieb, Mauro Taveira Magalhães, J. R. Mahajan, W. B. Eyton, Ary Coelho da Silva, Jorge de O. Medtsch) e alguns professores visitantes selecionados para ministrar disciplinas específicas (B. Gilbert e K. Brown). Foi reunido um grupo seleto de mestrandos, entre os quais, tornaram-se renomadas pesquisadoras: Alaide Braga de Oliveira (Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG), Maria Auxiliadora Coelho Kaplan (professora aposentada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, onde conquistou a categoria de professora emérita), Nídia Franca Roque (aposentada pela Universidade de São Paulo - USP e trabalhou também na Universidade Federal da Bahia - UFBA após a aposentadoria).

Naquela instituição vivenciamos um clima misto de efervescência intelectual e pioneirismo proporcionado pelo entusiasmo difundido por grandes mestres, entre os quais, o já renomado Gottlieb, então coordenador da química, que conduziam a universidade na trajetória para se firmar entre as melhores do país. Ao mesmo tempo, vivenciamos também o clima de tensão impelido por medidas arbitrárias impostas por militares e políticos que não queriam e nem tinham capacidade para compreender o novo modelo de funcionamento, e não respeitavam a autonomia universitária, principalmente durante o período de exceção. As ações arbitrárias incluíam tiros, uso de cacetetes, prisão de estudantes, prisão e demissão de professores, ocupação do campus e invasão de setores administrativos e alojamentos (vasculhavam todos os apartamentos), comandadas por forças militares. Dos alojamentos destinados a professores e alunos de pós-graduação (OCA I e OCA II) podia-se observar com clareza o prédio da reitoria cercado por todos os tipos de veículos de militares.

Em novembro do mesmo ano de 1965, após um período de resistência da comunidade universitária da UnB aos atos arbitrários desencadeados pelas autoridades responsáveis pela ditadura militar instalada no país, cerca de 210 professores foram forçados a anunciar uma renúncia coletiva. Coordenados por Otto R. Gottlieb, os professores e alunos de pós-graduação em química dividiram-se em dois grupos, sendo que um foi recebido pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e o outro pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), após permanência transitória no Centro de Pesquisas em Produtos Naturais (CPPN) – atualmente Núcleo de Pesquisas em Produtos Naturais (NPPN) – da Faculdade de Farmácia da UFRJ, localizado na Praia Vermelha. Em março de 1966, os professores Gottlieb e Fausto Aita Gai (UFRRJ) conseguiram oficializar o funcionamento do mesmo curso na UFRRJ, para onde foram transferidos os componentes da turma pioneira que continuou as atividades de pós-graduação na UFRRJ, a saber, os paraenses Raimundo Guilherme Campos Correia e Jamil Corrêa Mourão e os cearenses Roberto Alves de Lima, Afrânio Aragão Craveiro e Gouvan Cavalcante Magalhães e eu. Já no ano seguinte ingressaram novos alunos de pós-graduação oriundos da Universidade Federal do Pará (UFPA), Carlos Humberto Souza Andrade, Ceres Maria Rezende e José Guilherme Soares Maia, e Maria Vittoria, do estado de São Paulo.

O professor Gottlieb propôs minha passagem direta para o doutorado e, durante o período de julho de 1967 a março de 1970, permaneci como chefe do Laboratório de Produtos Naturais da USP, por solicitação de Gottlieb, que fora convidado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e pela USP (representada pelo professor P. Senise) para a implantação do referido laboratório. A compreensão e aprovação dos colegas do Departamento de Química Orgânica do IQT da Universidade Federal do Ceará, onde estava lotado profissionalmente e estava afastado para a pós-graduação, permitiram o desempenho dessa tarefa adicional no Instituto de Química da USP.

O professor Otto iniciou as atividades docentes com disciplinas semestrais oferecidas no curso de pós-graduação, Instituto de Química, Universidade de São Paulo, SP: “Aplicação de Espectrometria de Massa à Química Orgânica” (primeiro semestre de 1968), “Aplicação da Ressonância Magnética Nuclear à Química Orgânica” (segundo semestre de 1968), “Determinação Estrutural de Substâncias Orgânicas” (primeiro semestre de 1969) e “Determinação Estrutural de Substâncias Orgânicas” (segundo semestre de 1969), quando colaborei em todas estas disciplinas com aulas de aplicação em semanas subsequentes de cada aula ministrada na semana anterior.

Como coordenador do curso de pós-graduação em química de produtos naturais – química orgânica da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Gottlieb ofereceu programação de atividades didáticas no campus da UFRRJ nos meses de julho de 1969 - 1973, incluindo disciplinas de atualização e de pós-graduação, contando com professores de outras instituições, inclusive estrangeiras.

Durante o período de 1966 a 1973, Gottlieb dedicou-se intensamente às atividades acadêmicas de orientação dos seus alunos matriculados nos programas de pós-graduação da UFRRJ, da UFMG e da USP.

Em 1975, retornei para o Departamento de Química da UFRRJ para desenvolver atividades profissionais e promover a reativação e continuidade dos trabalhos de pesquisa e pós-graduação. Como coordenador e professor, contando com a participação efetiva e dedicada dos professores de química orgânica, principalmente José Carlos Netto-Ferreira, Maria Auxiliadora Coelho Kaplan, Ceres Maria Rezende Gomes, Sonildes Lamego Vieira Pinto, Maria Elita Leite de Almeida e Anselmo Alpande Morais, foi possível reiniciar as atividades do curso, ampliar o número de linhas de pesquisa através da contratação de novos professores com doutorado ou em fase de conclusão e contribuir para o processo de consolidação. Atualmente, o curso de pós-graduação em química orgânica da UFRRJ oferece mestrado e doutorado credenciados pela Coordenadoria de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e encontra-se plenamente consolidado.

Em colaboração com o professor Otto surgiram oportunidades de publicar cerca de 50 artigos em periódicos nacionais e estrangeiros de circulação internacional e co-orientei alunos de mestrado e doutorado, além da publicação de um capítulo e um livro em duas edições: “Espectrometria de massa” - capítulo XVII do livro de Química orgânica, editado pelo Prof. M.de Moura Campos, Editora Edgard Blücher Ltda e da Universidade de São Paulo (1976). Pp 513-538; Introduccion a la espectrometria de masa de sustancias organicas, Departamento de Asuntos Cientificos y Tecnológicos de la Secretaria General de la Organización de los Estados Americanos (Editora), Washington, D.C. (1976); Introduccion a la espectrometria de masa de sustancias organicas (2ª edição), contando com participação de A. A. Craveiro e J. W. de Alencar, Departamento de Asuntos Cientificos y Tecnologicos - Organización de los Estados Americanos (editora), Washington, D.C. (1983).

Indicado em 1999 para o Prêmio Nobel de Química, Otto Richard Gottlieb foi o maior químico de produtos naturais do Brasil. Autor de livros, 656 publicações científicas em periódicos nacionais e estrangeiros de circulação internacional, 1180 comunicações em congressos nacionais e internacionais, 652 conferências convidadas (186 em diversos países), 145 cursos (93 na pós-graduação), o professor Gottlieb dedicou sua vida à preservação e ao estudo da flora brasileira, divulgando ciência química, educando em atitude científica ética, gerando novos conhecimentos e formando recursos humanos como profissionais cidadãos – formou 119 mestres e doutores e recebeu vários prêmios, homenagens e medalhas.

A inesquecível convivência científica com o professor Otto Richard Gottlieb foi sempre alimentada por grande satisfação e expressivo entusiasmo, mantendo sempre elevado nível na busca permanente da fronteira do conhecimento. Senti-me sempre muito feliz e orgulhoso com a sua honrosa presença nas solenidades em que fui contemplado com homenagens no estado do Rio de Janeiro. A sua expressiva contribuição para a minha formação pós-graduada e independência científica permanecerá sempre como uma marca histórica imensurável.


Otto Gottlieb (à esquerda), Raimundo Braz Filho (centro), E.Wenkert, professor da University of California - Department of Chemistry (à direita) em um dos cursos de julho coordenados pelo professor Otto durante o período 1969 a 1973

Raimundo Braz Filho é atualmente pesquisador visitante emérito – Faperj/UENF/UFRRJ, professor emérito da UFRRJ, professor emérito da UENF e professor honoris causa da UFC, membro titular da Academia Brasileira de Ciências, pesquisador sênior do CNPq, comendador do Mérito Científico Nacional.