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Singularidade: de humanos feitos simples máquinas em rede*
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Artigo
Singularidade: de humanos feitos simples máquinas em rede*
Por Rafael Evangelista
10/09/2011

* Este artigo é uma versão condensada do trabalho que será apresentado na 35ª reunião da Anpocs, no GT Ciberpolítica, ciberativismo e cibercultura

Há um conjunto heterogêneo de grupos que vêm defendendo e postulando os benefícios de melhoramentos científico-tecnológicos do corpo humano, reunidos sob o chapéu do transhumanismo. Dentre eles, um em particular chama a atenção por dois motivos: o espaço que vem conseguindo nos últimos tempos na mídia mundial; e as suas conexões com as indústrias de tecnologia do Vale do Silício, que gozam, na atualidade, de poder político, econômico e forte influência intelectual.

Os singularistas, representados principalmente pelo inventor e futurista estadunidense Ray Kurzweil, parecem ter tomado de assalto a mídia. Capa das revistas Time, Veja, Kurzweil é presença constante em talk shows dos Estados Unidos. Também foi personagem de um documentário, Transcendent man, sendo ele próprio o homem transcendente. Foi Kurzweil quem levou a ideia da singularidade aos ouvidos de quem desconhece o termo transhumanismo. Desde o lançamento do documentário, ele tem viajado por todo os Estados Unidos em um esforço de promoção. Algumas dessas exibições foram patrocinadas pela gigante em tecnologia Google, que chegou ter uma sessão em suas dependências.

A Google, em especial na figura de um dos seus fundadores, Larry Page, é uma das empresas entusiastas da singularidade e parceira de Kurzweil e do empreendedor e engenheiro aeroespacial Peter H. Diamandis na Universidade da Singularidade. Fundada em 2008 e operando nas instalações da Nasa, no Vale do Silício, Califórnia, a instituição oferece cursos multidisciplinares de curta duração, os quais buscam “reunir, educar e inspirar um grupo de líderes que se esforçam para entender e facilitar o desenvolvimento de tecnologias que avançam exponencialmente, a fim de resolver grandes desafios da humanidade”. Além da Nasa e do Google, entre outros financiadores da Universidade da Singularidade estão empresas do Vale do Silício como a Autodesk e a LinkedIN. Na universidade e nos encontros singularistas, misturam-se personagens de renomadas instituições acadêmicas – como a Universidade de Stanford e o Massachussets Institute of Technology (MIT) –, com capitalistas especializados em investimentos de alto risco (os venture capitalists) e executivos de alta patente das maiores empresas de tecnologia da atualidade.

O interesse pelo transhumanismo em sua vertente singularista vem dessa interconexão que parece produtiva, de um entroncamento em que se articulam ideias e investimentos e se produz um determinado futuro. As falas de Kurzweil têm essa característica, misturam diagnóstico, visão de um futuro que se apresenta como inexorável em direção a uma transformação do humano com impacto consequente em toda sociedade. Não há escape da singularidade, ela é vendida como próximo passo evolutivo da humanidade; porém, ao mesmo tempo, seria preciso preparar-se para ela e, assim, prepará-la.

Não cabe, neste espaço, nos determos no exame de todas as características do pensamento singularista, mas apenas ressaltar como ele carrega, em si, uma determinada visão sobre o que seria o humano e como esta se liga e se imiscui com uma visão sobre as máquinas em rede, numa interconexão com a cibernética do matemático Norbert Wiener.

As definições de singularidade

Originariamente, singularidade é um termo utilizado pela matemática e pela cosmologia. Em 1993, o escritor de ficção científica e matemático Vernor Vinge, no texto intitulado “The coming technological singularity: how to survive in the post-human era”, utilizou o termo em conexão com o transhumanismo pela primeira vez. Segundo ele, “a aceleração do progresso tecnológico tem sido um fator central deste século (XX). Argumento ... que estamos à beira de uma mudança comparável ao surgimento da vida humana na Terra. A causa precisa dessa mudança é a criação iminente, pela tecnologia, de entidades que expandirão a inteligência humana”.

O texto já ecoava outras utopias científicas da época e foi bastante discutido principalmente por cientistas da computação, matemáticos, físicos e amantes de certas variedades da ficção científica. Em 2000, o pesquisador em inteligência artificial Eliezer Yudkowsky escreveu The singularitan principles, em que define singularistas como aqueles que acreditam que a criação tecnológica de uma inteligência maior que a humana é desejável e que trabalham para esse fim: “O singularista é um advogado, agente, defensor e amigo do futuro conhecido como singularidade”, afirma.

Kurzweil adotou o termo singularidade mais recentemente. The singularity is near: when humans transcend biology foi publicado em 2005 e, desde lá, ele se tornou uma figura a ganhar centralidade. O livro é uma revisão de duas obras anteriores, de 1990 e 1999 – na verdade, as três obras parecem ser como versões atualizadas de um mesmo programa, como um software que tem suas falhas identificadas, corrigidas e que ganha novas funcionalidades. Quero trazer aqui alguns elementos que não estão somente em seu último livro, mas são repetidos com insistência em entrevistas à imprensa.

A lei de retornos acelerados

A perspectiva de uma aceleração no progresso tecnológico, que seria inexorável, deriva, em grande parte, de uma extrapolação da conhecida Lei de Moore. O nome desta foi dado por ter sido o co-fundador da Intel, Gordon Moore, quem descreveu a duplicação, a cada ano, do número de componentes de um circuito integrado, ou seja, havendo um crescimento exponencial na capacidade computacional disponível. Kurzweil, porém, afirma ser essa tendência não somente algo relativo à computação, mas a toda inteligência existente na Terra. Outros futuristas, como Hans Moravec e Vernon Vinge já haviam feito comentários semelhantes sobre esse progresso exponencial. Mas Kurzweil diz fazer suas afirmações a partir de dados empíricos por ele coletados e checados, que mostrariam que a exponencialidade seria característica de todos os sistemas evolutivos (o que inclui tanto seres biológicos como a tecnologia e o conhecimento). Ao encontrar uma barreira – por exemplo, o esgotamento das possibilidades de inovação de uma determinada tecnologia –, haveria uma mudança de paradigma, com a adoção de uma outra solução equivalente, mas já em outro patamar.

Evolução, progresso

A lei dos retornos acelerados deixa claro o cenário para as transformações tecnológicas. A perspectiva é a da evolução, inexorável e positiva, fazendo parte da história tanto de sistemas tecnológicos, como das sociedades humanas. A velocidade crescente é um valor, não importando o quão frenética seja. Há um direcionamento na evolução, num sentido de melhoria quantitativa: mais capacidade de armazenamento de informação em cada indivíduo; mais anos de vida, talvez infinitos; mais força; mais velocidade – não só do progresso, mas velocidade mecânica dos seres. “Tecnologia é a evolução por outros meios”, escreve Kurzweil. A evolução torna-se um propósito, o sentido da vida. E esta, por ter uma característica quantitativa (num contexto em que mais quantidade equivale a mais valor), é capaz de produzir condições ainda mais favoráveis para mais desenvolvimento.

Informação

O que faz com que os seres biológicos e tecnológicos se equivalham é que ambos são informação. A descrição de Kurzweil para a evolução humana e do universo é a de componentes progressivamente mais capazes de conter informação. Dividindo o mundo em eras, a primeira seria a da química e da física, quando não haveria ainda seres vivos, apenas estruturas físicas formadas por átomos (sendo o seu arranjo a informação). A era seguinte seria a biológica e do DNA, capaz de conter ainda mais informação. E assim progressivamente, surgindo a tecnologia e ampliando-se exponencialmente a capacidade de armazenamento.

Fusão homem-máquina (nanotecnologia+biotecnologia+inteligência artificial)

Tanto homens quanto seus produtos, as máquinas, são tidos como equivalentes, um sendo lido, de fato, como o sucessor natural do outro. Como dito, a tecnologia seria a evolução por outros meios e, neste momento e no futuro, seria mais “natural” por ser mais acelerada do que a evolução baseada no DNA. No horizonte evolutivo da humanidade, não estariam mudanças tão a longo prazo como as que levaram ao surgimento da nossa espécie, mas algo mais imediato, acelerado, como a construção de ciborgues unindo homens e máquinas. A partir daí, dadas as leis de aceleração, as alterações seriam difíceis de se prever, pois esse novo ser, muito mais capaz de armazenar informação (portanto, mais inteligente), conseguiria “engenheirar” seu próprio desenvolvimento, dando origem a uma versão ainda mais melhorada dessa nova espécie.

Ideologia da Califórnia

Chama a atenção o grande envolvimento financeiro e intelectual que empreendedores do Vale do Silício – e seus funcionários, aspirantes a novos milionários – têm tido com essa vertente do transhumanismo. “Algumas das pessoas mais inteligentes e prósperas do Vale do Silício abraçaram a singularidade”, pontua matéria do New York Times1. “A singularidade é sobre pessoas ricas construindo um bote salva-vidas e pulando fora do barco”, comenta o jornalista britânico Andrew Orlowski, do portal sobre tecnologia da informação The Register. E essa é uma das razões pelas quais parece ser interessante investigar e etnografar as ideias em torno da utopia singularista. Não só por envolver e encantar – a ponto de obter financiamento – os novos milionários, mas por estes se localizarem, em suas operações, em uma área específica, polo atrator de competências similares e inteligências, grande influenciador cultural e de novos investimentos. Esse conjunto de ideias, práticas e mobilizações tecnoprodutivas, seria só uma excentricidade não fosse sua imbricação com um modo de pensar, de ver o mundo com alto poder de influência desde, pelo menos, a década de 1990, e que Richard Barbrook e Andy Cameron chamaram de “ideologia da Califórnia”.

“Esta nova fé emergiu de uma bizarra fusão da boemia cultural de São Francisco com as indústrias de alta tecnologia do Vale do Silício. Promovida em revistas, livros, programas de televisão, páginas da rede, grupos de notícias e conferências via internet, a ideologia da Califórnia, promiscuamente, combina o espírito desgarrado dos hippies e o zelo empreendedor dos yuppies. Este amálgama de opostos foi atingido através de uma profunda fé no potencial emancipador das novas tecnologias da informação. Na utopia digital, todos vão ser ligados e também ricos. Não surpreendentemente, esta visão otimista do futuro foi entusiasticamente abraçada por nerds de computador, estudantes desertores, capitalistas inovadores, ativistas sociais, acadêmicos ligados às últimas tendências, burocratas futuristas e políticos oportunistas por todos os Estados Unidos”, afirmam (Barbrook e Cameron, 1996).

Barbrook e Cameron seguem descrevendo esse conjunto de ideias contraditórias que teriam origem nessa mescla incomum entre a contracultura e seu exato oposto yuppie. Sua ênfase está mais na apropriação de uma visão neoliberal do funcionamento da economia, uma crença no poder criador de indivíduos isolados, somada com profunda aversão a qualquer interferência do Estado, por herdeiros culturais de uma tradição de costumes liberais. Apontam ainda a confluência de uma inquietude do trabalho criativo e de ideias de liberdade –, que não se conforma a regras burocráticas do emprego formal com horários rígidos de trabalho – com a flexibilização do mercado de trabalho, em que o contrato é por tempo determinado, as ligações entre empregado e empregador não são fixas, assim como não o é o tempo de trabalho. Mas, pressionado pelas exigências, esse trabalhador criativo dedica-se a muito mais horas em seu ofício, ficando com escasso tempo livre; e, então, precisa fazer do trabalho seu “caminho de autossatisfação” (Barbrook e Cameron, 1996). Uma intricada combinação entre uma nova estrutura do mercado de trabalho e a adoção de ideias que ligam prazer, diversão e dedicação obstinada ao trabalho, que é também uma construção de si mesmo como ativo de valor para as empresas (Evangelista, 2010).

Já Matteo Pasquinelli (2008), coloca a ideologia da Califórnia dentro do que chama de digitalismo, que seria “um tipo de gnose moderna, igualitária e barata, em que a religião do conhecimento é substituída pelo culto iluminista da rede digital e seus códigos”. Segundo ele, o tecnoparadigma do digitalismo posicionaria o campo semiótico e biológico em paralelo, e sua utopia seria uma digitalização universal “Google-like”, em que o material e imaterial seriam intercambiáveis (Pasquinelli, 2008; 72). Vale apontar aqui a crença dos singularistas em uma possível virtualização total da vida, em que cada indivíduo assumiria, à sua escolha, a identidade que quisesse (Kurzweil já fez apresentações com realidade virtual em que assume a identidade de uma jovem roqueira de nome Ramona).

Nesse sentido, a análise que Breton (1995) faz dos escritos de Norbert Wiener, conhecido como fundador da cibernética, nos ajuda a inter-relacionar as visões sobre o humano da ideologia da Califórnia e do singularismo. Segundo Breton, o projeto utópico de Wiener se articula em torno da comunicação e desenvolve-se em três níveis: uma sociedade ideal, uma outra definição antropológica do homem e uma promoção da comunicação como valor. Os três níveis se concentram em torno do homem novo, que Breton chama de Homo communicans. “O Homo communicanschip,atingindo, assim, a imortalidade. é um ser sem interior e sem corpo, que vive em uma sociedade sem segredo; um ser totalmente voltado para o social, que só existe através da troca e da informação, em uma sociedade tornada transparente graças às novas 'máquinas de comunicação'.” (Breton, 1995). O corpo humano da singularidade pode ser tornado máquina, pois não está nele o humano. Este está na informação, na memória que singularistas como Hans Moravec (Haraway, 2009) querem passar para um chip,atingindo, assim, a imortalidade.

Da contracultura à cibercultura

Fred Turner (2006) analisa uma das publicações pioneiras e mais influentes da Califórnia, o Whole earth catalog. Editada em forma de catálogo, tinha uma estrutura que, mais tarde, Steve Jobs, da Apple, iria comparar a um mecanismo de busca offline. Um de seus editores era Kevin Kelly, que depois seria cofundador da Wired, reputadamente a revista símbolo do Vale do Silício. Mas Turner não se detém a um escrutínio da publicação; ao contrário, refaz toda uma trajetória histórica que busca entender que tipo de confluências políticas, culturais e de atores levaram do movimento da contracultura à cibercultura.

Um dos pontos de apoio seria uma recusa comum a um mundo da Guerra Fria associado à burocracia. Esta era ligada ao militarismo, ao mundo corporativo tradicional ou mesmo acadêmico, como espelhos que se refletem, em que as pessoas eram ensinadas a “desempenhar um papel específico em uma estrutura organizacional” (Turner, 2006: 12). Esse treinamento domaria a natureza complexa e criativa dos indivíduos, transformando-os na chatice unidimensional de um cartão de um computador IBM. Por sua vez, desumanizados, dessensibilizados, os indivíduos formariam as peças autômatas da máquina de guerra que jogou a bomba em Hiroshima e levava a cabo a Guerra do Vietnã.

Esse imaginário, porém, é repleto de contradições. Ver o mundo como um sistema de troca e feedback entre humanos, a sociedade a partir da metáfora de um sistema computacional interligado, ecoa, como dito, a cibernética de que Norbert Wiener é um dos principais contribuidores. Este foi um dos pensadores importantes no desenvolvimento dos sistemas de defesa da Guerra Fria, na construção de equipamentos de mira automática para alvos móveis. Foi também integrante das Macy Conferences, eventos interdisciplinares que, embora fossem promovidos por uma instituição filantrópica dedicada a problemas médicos, reuniram intelectuais envolvidos no esforço da Segunda Guerra, como Margaret Mead e John von Neumann. Segundo Streeter (2003), o acesso de figuras como Kevin Kelly e Stewart Brand, os editores do Whole earth catalog, à cibernética de Wiener veio por intermédio da antropologia de Gregory Bateson, também participante das Macy Conferences. Nos anos 1970, Brand elevou Bateson ao status de guru.

Entretanto, entre os computadores mainframe da IBM – rejeitados pela contracultura como símbolo de hierarquia e burocracia – e a rede de pontos independentes da glorificada internet, há uma passagem importante. No mundo IBM, haveria o planejamento no sentido top down; na internet, haveria nós de um sistema que seria como o da natureza e tenderia ao equilíbrio. Turner (2006) cita como Kelly explica o universo como um computador, o pensamento como um tipo de computação, o DNA como software e a evolução como um processo algorítmico. O fundador da Eletronic Frontier Fountation, John Perry Barlow, escreve que, na rede, os corpos sem identidade e sem coerção física, terão uma governança que emergirá “da ética, auto-interesse iluminado e do bem da comunidade”. Barbrook (1996) afirma que Kelly, em seu livro Out of control, repete o darwinismo social.

A pista para entender como o esquerdismo hippie dos anos 1960 desemboca em uma visão de mundo muito mais sem compaixão como a do darwinismo social está na diferenciação que Turner faz entre a “nova esquerda” e o que ele chama de “novo comunalismo”, ambos formados durante o mesmo período, por uma geração herdeira da fase mais dura da Guerra Fria, que compartilha a aversão ao autoritarismo e, principalmente, à guerra. A “nova esquerda” teria nascido ao sul profundo dos Estados Unidos, abraçado o ativismo, participado da luta política e estaria ligada ao movimento pela liberdade de expressão. Já os “novos comunalistas” teriam surgidos de movimentos de construção de comunidades alternativas, marcadas pela poesia e ficção beat, zen-budismo e, a partir dos anos 1960, experimentação com drogas psicodélicas. As mais notórias comunidades da época foram fundadas no norte da Califórnia, Colorado, Novo México e Tenesee, em áreas rurais, mas também em comunidades urbanas. Os “novos comunalistas”, “mesmo quando se estabeleceram em zonas rurais, quando retornaram pra casa, frequentemente, adotaram práticas colaborativas, a celebração da tecnologia e a retórica cibernética da pesquisa academico-militar-industrial do mainstream” (Turner, 2006: 33). Os dois grupos foram confundidos sob o mesmo nome contracultura, porém, enquanto para a “nova esquerda” a “verdadeira comunidade e o fim da alienação eram geralmente pensados como resultado da atividade política”, para o “novo comunalismo”, a política era, na melhor das hipóteses, um ponto supérfluo e, na pior, parte do problema (Turner, 2006: 35-36).

Utopias tecnológicas

As trajetórias e conexões que se pode observar a partir do transhumanismo, permitem entender como utopias tecnológicas como a da singularidade se inter-relacionam com outros conjuntos de ideias sobre o digital, a rede e a internet. A singularidade, como uma das facetas do transhumanismo, empresta metáforas sobre o universo e a humanidade que os postulam como aproximados das máquinas em rede, em relações de troca de informações e de estabilidade. Ao mesmo tempo, as máquinas em rede são aproximadas de um certo imaginário sobre o biológico, seja em sua estrutura como sistema que tenderia à estabilidade, seja em seu direcionamento evolutivo. Máquinas em rede que formam sistemas tendendo à estabilidade, seres biológicos em competição evolutiva num cenário econômico de livre mercado naturalizado. Igualadas aos sistemas biológicos, as máquinas surgem como nova fronteira, novo feature evolutivo da humanidade.

O conjunto de pessoas e instituições como as aqui elencadas formam a elite do capitalismo tecnológico, pois são eles que têm melhores condições de mobilizarem o trabalho em direção à construção das tecnologias da singularidade – notadamente, a inteligência artificial, a nanotecnologia e a biotecnologia – e de construírem consensos em torno de que direção está apontando o futuro.

Rafael Evangelista é doutor em antropologia social pela Unicamp e mestre em linguística pela mesma universidade. É pesquisador do Labjor/Unicamp e professor no curso de mestrado em divulgação científica e cultural da Unicamp.

Referências bibliográficas

Barbrook, Richard e Cameron, Andy. Californian ideology, 1996. Disponível em: http://www.alamut.com/subj/ideologies/pessimism/califIdeo_I.html. Acesso em 20/08/2011.

Barbrook, Richard. “The Pinocchio theory”. Em Science as culture, volume 5, número 3, 1996.

Breton, Phillipe. “Norbert Wiener e a emergência de uma nova utopia”, 1995. Disponível em http://members.fortunecity.com/cibercultura/vol1/breton.html. Acesso em 20/08/2011

Evangelista, Rafael de Almeida. “Traidores do movimento: política, cultura, ideologia e trabalho no software livre”. Tese de doutorado. IFCH/Unicamp, 2010.

Haraway, Donna. “Se nós nunca fomos humanos, o que fazer?”. Disponível em http://www.pontourbe.net/edicao6-traducao. Acesso em 20/08/2011.

Pasquinelli, Matteo. Animal spirits: a bestiary of the commons. Rotterdam: NAi Publishers / Institute of Network Cultures, dezembro de 2008.

Streeter, Thomas. “‘That deep romantic chasm’: libertarianism, neoliberalism, and the computer culture”, 2003. Disponível em http://www.uvm.edu/~tstreete/romantic_chasm.html. Acesso em 20/08/2011.

Terranova, Tiziana. “Posthuman unbounded: artificial evolution and high-tech subcultures”. Em G. Robertson, M. Mash, et al., FutureNatural: nature, science, culture. Routledge; 1 edition (April 26, 1996).

Turner, Fred. From counterculture to cyberculture. Stwart Brand, the whole earth catalog and the rise of the digital utopianism. The University of Chicago Press, 2006


1 Vance, Ashlee. “Merely human? That's so yesterday”. The New York Times, 12 de janeiro de 2011