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Reportagem
Expectativas comerciais e científicas da farmacogenética
Por Marta Kanashiro e Paula Soyama
10/02/2006

Fruto do seqüenciamento do genoma humano, a farmacogenética e a farmacogenômica, áreas que estudam a relação dos fatores genéticos com os medicamentos, ganham destaque no Brasil e no mundo, com promessas de reduzir os efeitos colaterais por meio de um tratamento individualizado. Se por um lado essas tecnologias podem representar um avanço no modo de lidar com as enfermidades, elas também suscitam debates acerca de sua aplicação e de questões éticas.

A área de pesquisa, ainda bastante recente, deixa espaço para vários debates. Dentre eles, nota-se a falta de unanimidade sobre o conceito: farmacogenômica ou farmacogenética. De acordo com Guilherme Suarez-Kurtz, pesquisador do Instituto Nacional do Câncer (Inca) e coordenador da Rede Nacional de Farmacogenética (Refargen), farmacogenética e farmacogenômica podem ser usadas, de forma geral, como conceitos sinônimos. No entanto, Andréa Guerra, médica geneticista da Unicamp, os diferencia, admitindo que a farmacogenética, termo cunhado em 1959, consiste no estudo das reações indesejadas determinadas por alterações no metabolismo de origem genética, provocadas pelo uso de drogas. Já a farmacogenômica busca, nos genes de indivíduos ou de grupos, marcadores genéticos relevantes que permitam prever efeitos tóxicos, efetividade clínica de determinados medicamentos. Ela pretende direcionar o tratamento a ser utilizado, visando à medicina personalizada. Apesar da diferença pontuada, Marco Aurélio Romano-Silva, que pesquisa farmacogenética da esquizofrenia, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) acredita que em breve não haverá mais diferenciação entre esses conceitos.

Guilherme Suarez-Kurtz explica que o mesmo fármaco, ou a mesma droga, podem ter efeitos diversos em pessoas diferentes e a farmacogenética procura investigar a relação dessa diversidade com a influência de fatores genéticos na metabolização da droga. A partir do mapeamento genético de populações, seqüenciamento de DNA, análise da expressão gênica e testes clínicos de drogas, os pesquisadores esperam conhecer as relações entre genes e processos de metabolização das drogas, podendo chegar a novos remédios ou a prescrições que atendam especificidades genéticas de determinados grupos de pacientes, obtendo assim mais eficácia e menos reações adversas.

Segundo o coordenador da Refargen,“existem hoje medicamentos no tratamento do câncer que têm efeitos somente em pacientes com determinada alteração genética. O trastuzumab (nome comercial Herceptin), indicado para pacientes com câncer de mama, é um exemplo disso, pois sua utilização é restrita a pacientes que apresentam uma alteração genética específica, observada somente em 15% a 20% do total de casos da doença”, explica ele.

Kurtz sinaliza que a preocupação em apontar os fatores genéticos que devem ser considerados quando se escolhe um medicamento ou a dose mais indicada para cada paciente caracteriza melhor a pesquisa da área no Brasil. No entanto, essa idéia de individualização do tratamento deve ser vista com cautela. Apesar da divulgação corrente na mídia de que cada pessoa poderá ter um tratamento individualizado, isso não significa, na opinião de Kurtz, que cada um vá receber uma nova droga em uma dose diferente. “Considero muito irreal que daqui a dez anos as pessoas irão ao médico para serem receitadas a partir das suas características genéticas. A idéia vai se aplicar a apenas alguns medicamentos”, argumenta.

Foco sobre a diferença

Na farmacogenômica e na farmacogenética, o foco na diferença genética vai além da variabilidade de reações de pessoas portadoras de determinada patologia a uma droga, chegando a diferenças étnicas, gerando muita polêmica e embaralhando conceitos como raça e etnia.

Antonio Carlos Camargo, diretor do Laboratório Especial de Toxinologia Aplicada, do Instituto Butantan, explica que existem diferenças genéticas importantes entre grupos étnicos, porque indivíduos de etnias diferentes podem ter um sistema de metabolização das drogas distinto. “Assim, algumas drogas que podem ser usadas para os europeus, oferecem riscos para os africanos. Portanto, para usar uma droga da mesma categoria farmacêutica para o negro é necessário fazer modificações nas moléculas para evitar efeitos colaterais”, esclarece. A bula do remédio Cozaar, vendido pela Merck Sharpe & Dohme, por exemplo, contém uma advertência: “não se aplica a pacientes negros”, por outro lado, o BiDil é indicado para tratamento de insuficiência cardíaca apenas em negros.

Apesar de existirem linhas de pesquisa que focalizam a raça como forma de particularizar o tratamento farmacológico, Guilherme Kurtz faz uma ressalva: a diferença média populacional intercontinental é muito menor que a diferença entre indivíduos do mesmo continente. Mesmo assim, há variações genéticas que ocorrem quase que exclusivamente em africanos ou asiáticos, e essas características devem ser consideradas. O coordenador da Refargen ressalta, por outro lado, que diferenças raciais não devem se sobressair em relação às genéticas. “É necessário concentrar-se na variabilidade de genes. As populações muito miscigenadas, como as do Brasil, são um motivo para isso”, argumenta ele. Camargo concorda com a necessidade de relativizar diferenças raciais.

Kurtz ainda procura demarcar a questão afastando o que classifica como “categorização racial” da “diferenciação a partir de parâmetros genéticos”. “Quando se identifica o gene que confere a resposta ao medicamento, não importa se está em uma brasileira ou em uma suíça. As duas vão responder ao medicamento. É uma individualização do tratamento independente da categorização racial”. No entanto, é importante considerar que existem fatores genéticos e ambientais. “Há variáveis a serem consideradas como a alimentação ou a interação com outros medicamentos. Não há uma linha traçada de quando a interferência se dá por fator genético e quando não é. Isso vai depender de cada medicamento e de cada caso”, explica ele.

Com relação à miscigenação da população brasileira, Kurtz anuncia a pesquisa que desenvolve em colaboração com outros membros da Refargen, entre os quais o geneticista Sérgio Danilo Pena, da Universidade Federal de Minas Gerais: “Nós temos um projeto grande para definir quais são as características principais da população brasileira em relação a vários genes. Na literatura, é possível encontrar genes que modificam a resposta a alguns medicamentos na população européia, mas não na africana. Por isso trabalhamos para desvendar como o fator miscigenação afeta a farmacogenética, que vem toda de fora”, afirma o coordenador da Refargen.

Campo de testes

Kurtz revela que a farmacogenética brasileira tem, sobretudo, componentes de pesquisa clínica, porque como o que interessa é basicamente o uso no homem, isso exige que sejam feitos testes clínicos. Como o desenvolvimento inicial da farmacogenética no país não envolve a formulação de novas drogas, Kurtz acredita que o custo será baixo. “Os gastos nessa área, no Brasil, vão ser basicamente voltados à realização de testes genéticos e com o avanço da tecnologia, o custo disso torna-se cada vez menor”.

Já com relação a novas drogas, se a farmacogenômica seguir os padrões de produção da indústria farmacêutica tradicional, procurará padrões comuns em grandes grupos marcados por determinadas diferenças genéticas. Nesse rumo o que deverá valer, na opinião de Camargo, são substâncias capazes de atingir o maior número de pessoas a partir de semelhanças entre os genomas delas. A demarcação de grandes grupos também se relaciona com a necessidade de realização de testes clínicos para aprovação e liberação da venda de novas drogas.

Camargo também destaca o modelo que usa a identificação de novos produtos por meio da química combinatória e do high throughput screening (triagem de alta velocidade) como insatisfatório em termos de inovações farmacêuticas, em grande parte pelos efeitos colaterais. Segundo ele, essa dificuldade tem levado à realização de simpósios internacionais e críticas de grandes investidores na busca de alternativas ao alto custo desse modelo. “Ele tem sido contestado não só pela baixa relação custo-benefício, como pelo crescimento da necessidade de terapia ajustada ao paciente. Mas, o modelo seguido pelas multinacionais farmacêuticas nos últimos 15 anos deve servir para orientar novos procedimentos terapêuticos como o desenvolvimento e utilização de biomarcadores e outros recursos, que priorizam o tratamento do doente e não a cura das doenças”, conclui ele.