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Artigo
O perfil do egresso de relações internacionais e sua inserção no mercado
Por Pedro Feliú Ribeiro
10/05/2013
O curso de graduação em relações internacionais (RI) é relativamente novo no Brasil, bastante heterogêneo do ponto de vista curricular e eminentemente interdisciplinar. Os bacharéis de relações internacionais possuem, portanto, formação diversificada, abrangendo amplas possibilidades de atuação no mercado de trabalho sem, contudo, contar com nichos profissionais bem definidos no país.

Desde a criação do curso de relações internacionais da Universidade de Brasília (UnB), em 1974, a oferta do mesmo cresceu de maneira abrupta na última década. Conforme dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), de 2010, há 112 cursos de graduação em RI no país, 91 em instituições privadas e 21 em instituições públicas, tendo uma maior concentração nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro. A procura pelo curso de relações internacionais é crescente. A título de exemplo, no vestibular da Fuvest de 2013, a relação candidato/vaga de relações internacionais foi de 42,9, entre as mais altas do vestibular mais concorrido do país. Entretanto, embora haja uma crescente demanda pelo curso de relações internacionais, uma inquietação comum diz respeito à inserção profissional no mercado de trabalho, uma vez que não há carreiras específicas para os graduados no curso, ainda não plenamente conhecido e compreendido no mercado de trabalho. Nesse quesito, como ressalta Lessa (2005), é papel fundamental das instituições de ensino superior que oferecem o curso de RI divulgá-lo entre os empregadores de distintos setores compatíveis com o perfil do egresso. Assim, uma pergunta emerge: qual o perfil do egresso de relações internacionais?

Parte importante da resposta reside na grade curricular do curso, mais especificamente a área do conhecimento enfatizada na mesma. Outra parte igualmente importante diz respeito às características pessoais e à formação complementar do egresso de relações internacionais. Do ponto de vista da estrutura curricular dos cursos de relações internacionais, a variedade destes reside na ênfase dada às disciplinas centrais da área: ciência política, economia/comércio exterior, direito internacional e história. Em geral, aqueles cursos cuja ênfase maior é dada às disciplinas de ciência política, teoria das relações internacionais e história possuem formação prioritariamente acadêmica, formando alunos com visão crítica e abrangente sobre os principais temas da agenda de pesquisa em relações internacionais. De outro lado, os cursos voltados para economia, marketing internacional e, principalmente, comércio internacional tendem a incluir disciplinas operacionais em suas grades, combinando características mais acadêmicas com aquelas de ordem mais “prática”, objetivando a formação de um perfil mais atrativo ao mercado privado.

Do ponto de vista da formação pessoal do egresso de relações internacionais, uma característica frequente e amplamente exigida no mercado de trabalho é o domínio da língua inglesa e de uma segunda língua estrangeira, sendo este um pré-requisito demandado ao aluno. Outro aspecto relevante é a necessidade de especialização. Embora esse fator não seja exclusividade do curso de relações internacionais, o seu caráter mais interdisciplinar torna a especialização um complemento relevante na formação do egresso do curso, direcionando-o a um dos possíveis nichos profissionais. Embora não haja clareza a respeito da relação entre a grade curricular do curso e a inserção profissional do egresso, a formação do graduado em relações internacionais, independente do foco adotado e da habilidade pessoal do aluno, é ampla e permite a atuação em distintas áreas.

Embora no senso comum o curso de relações internacionais possa ser relacionado à carreira diplomática, o mercado privado é aquele que mais absorve os egressos do curso. Em pesquisa recente com 121 egressos de relações internacionais, Feliú, Kato e Reiner (2013) observam que a maior parte dos egressos atua no setor privado, constituindo-se 45% da amostra. Também notam importante participação da área acadêmica, muito próxima ao setor público, com 23% e 24% respectivamente. É interessante notar ainda a presença, na pesquisa mencionada, da modalidade trainee entre as formas de obtenção do primeiro emprego após a formatura dos egressos de RI (Feliú, Kato e Reiner, 2013). Esse dado corrobora a percepção de uma visibilidade crescente do curso de RI no mercado de trabalho, ampliando as possibilidades dos formados. A título de exemplo, multinacionais, como a AmBev, Cargill, Danone e Vale, incluem o egresso de relações internacionais entre as formações desejáveis para essa modalidade profissional gerencial.

Dessa forma, os dados apresentados auxiliam a desvincular, do senso comum, a graduação em relações internacionais do serviço diplomático, como se fossem relações automáticas. Pelo contrário, a heterogeneidade entre os cursos e a diversidade disciplinar no interior destes fazem o egresso em relações internacionais no Brasil capaz de atuar em distintas áreas do mercado de trabalho, incluindo ministérios, embaixadas, consulados, instituições públicas, instituições privadas, associações, fundações, ONGs, câmaras de comércio e indústria, multinacionais, empresas exportadoras e importadoras, consultorias, bancos, além de setores da mídia voltados para a área internacional. Sobre a carreira diplomática, especificamente, o curso de relações internacionais oferece formação adequada, sendo muito procurado por aqueles que aspiram ao Itamaraty. Entretanto, para ingressar na carreira diplomática, não é exigido graduação em áreas específicas, ou seja, qualquer graduado pode postular o cargo de diplomata. No concurso para a carreira diplomática de 2012, 37% dos aprovados eram formados em relações internacionais, 34% em direito e o restante distribuído entre engenharia (10%), comunicação social (10%), jornalismo (6%) e letras (3%).

O terceiro setor também apresenta oportunidades interessantes para o egresso de relações internacionais, na medida em que as organizações não governamentais brasileiras e estrangeiras passaram a assumir funções de intermediação em áreas como meio ambiente, direitos humanos, saúde, cultura, educação, entre outras, frequentemente conectadas a redes internacionais propícias à cooperação técnica e financiamento de projetos (Lessa, 2005).

A realização de estágio profissional durante a graduação também se configura como elemento relevante da inserção do bacharel em relações internacionais no mercado de trabalho. Cada vez mais o mercado, por mais contraditório que possa parecer, exige do recém-formado alguma experiência profissional. Ainda segundo a mesma pesquisa mencionada anteriormente, 86% dos egressos de relações internacionais realizaram estágio profissional durante suas graduações, sendo que parcela significativa dos egressos já estava empregada no momento da formatura, corroborando a relevância do estágio profissional durante a graduação (Feliú, Kato e Reiner, 2013). Formas de incentivo a essa prática, como a organização de feiras de estágio, a divulgação e a agilidade dos procedimentos burocráticos, são papel decisivo das instituições de ensino superior na facilitação da inserção do bacharel em relações internacionais no mercado de trabalho. De uma maneira geral, a alocação do egresso de RI no mercado de trabalho não é muito demorada, tendo parcela muito significativa dos egressos obtido emprego até seis meses após a formatura (Feliú, Kato e Reiner, 2013).

Como aponta Lessa (2005), o perfil do profissional de relações internacionais estaria mais conectado à formulação e implementação de políticas e práticas empresariais de repercussão internacional, configurando-se como um agente preparado para mediar a complexa interface entre o internacional e o doméstico, fator cada vez mais presente em distintas realidades profissionais. A despeito de não existir nichos bem definidos no mercado de trabalho, a graduação em relações internacionais proporciona uma inserção profissional diversificada, possibilitando a postulação de vagas no setor privado, setor público e terceiro setor no Brasil. Quando comparada a outras áreas das ciências humanas, relações internacionais apresenta grande versatilidade, exibindo sólida formação profissional. Na pesquisa mencionada anteriormente, 87% dos egressos avaliaram positivamente a relevância da graduação em RI na atividade profissional realizada, a despeito da ausência de uma base curricular nacional para o curso.

Uma questão que merece atenção especial das instituições de ensino superior é se o crescente aumento na oferta de cursos de graduação em relações internacionais no Brasil será acompanhado de equivalente absorção desses egressos no mercado de trabalho. Uma avaliação preliminar da questão sugere uma resposta positiva a essa indagação, apoiada nas múltiplas possibilidades de inserção dos bacharéis de relações internacionais no mercado de trabalho. O caráter essencialmente interdisciplinar do curso, a crescente internacionalização da economia brasileira e a necessidade de lidar com questões eminentemente internacionais em diferentes situações profissionais são elementos que fazem de relações internacionais uma carreira promissora no presente e no futuro próximo. Ainda assim, fatores como a realização de especialização do aluno após a formatura e a divulgação do curso de relações internacionais em áreas da atividade econômica que ainda desconhecem o perfil do egresso são essenciais para a consolidação da carreira no mercado de trabalho brasileiro.

Pedro Feliú Ribeiro é professor do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e pesquisador do Centro de Estudos das Negociações Internacionais (Caeni) da Universidade de São Paulo (USP).

Referências Bibliográficas

Feliú, Pedro; Kato, Mariana e Reiner, Gary. “Mercado de trabalho e relações internacionais no Brasil”. Meridiano 47, vol. 14, nº. 135, 2013 (pp. 10-18).
Lessa, Antônio Carlos. “O ensino das relações internacionais no Brasil”. In Saraiva, José Flávio; Cervo, Amado Luiz (org). O crescimento das relações internacionais no Brasil. Brasília: Instituto Brasileiro de Relações Internacionais (IBRI), 2005 (pp. 51-108).