REVISTA ELETRÔNICA DE JORNALISMO CIENTÍFICO
Dossiê Anteriores Notícias Reportagens Especiais HumorComCiência Quem Somos
Dossiê
Editorial
Farsa e controvérsia - Carlos Vogt
Reportagens
Modelo obstétrico brasileiro ignora evidências científicas e recomendações da OMS na assistência ao parto
Cristiane Kämpf
Controvérsias, debates, disputas e farsas: a ciência não é feita por deuses
Leonor Assad
O homem na América. De onde veio? Quando? Como?
Cristiane Delfina
Aquecimento global: quem é culpado?
Ricardo Schinaider de Aguiar
Divergências astronômicas: passado, presente e futuro
Cintia Cavalcanti
Artigos
O papel essencial, mas geralmente oculto, das controvérsias científicas
Gildo Magalhães
O efeito das radiações ionizantes em doses baixas – cinco décadas de disputa
Mário Ferreira
Ouvir a ciência, salvar a floresta, enfrentar as controvérsias, pensar a democracia
Jean C. H. Miguel e Léa Velho
A política da biossegurança: conexões e tensões na tecnociência
Joel Paese
Bioetanol combustível brasileiro: economicamente sustentável?
Flávia Gouveia
A controvérsia inatismo x interacionismo no campo da linguística: a que será que se destina?
Edwiges Maria Morato
Resenha
A ciência aos olhos da sociologia
Ricardo Manini
Entrevista
Brian Martin
Entrevistado por Maria Marta Avancini
Poema
Registro
Carlos Vogt
Humor
HumorComCiencia
João Garcia
    Versão para impressão       Enviar por email       Compartilhar no Twitter       Compartilhar no Facebook
Reportagem
Aquecimento global: quem é culpado?
Por Ricardo Schinaider de Aguiar
10/10/2013

Verões mais quentes, derretimento de geleiras, desastres naturais. Essas são apenas algumas das consequências do aquecimento global, processo decorrente de emissões de gases de efeito estufa pelo homem, segundo muitos especialistas. Mas seríamos mesmo os responsáveis por alterações de tamanha proporção? Apesar do aparente consenso entre cientistas sobre a existência do fenômeno de aumento da média de temperatura terrestre, ainda há fortes debates sobre a contribuição antropogênica e até mesmo sobre a comprovação de mudanças climáticas significativas nas últimas décadas.

O aquecimento global começou a ser foco da atenção mundial a partir de 1988, data de fundação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). Desde então, esse órgão internacional produz relatórios científicos para melhorar o conhecimento sobre as mudanças climáticas. Em 2007, após a quarta edição do relatório, o IPCC foi laureado com o prêmio Nobel da Paz, juntamente com o político norte-americano Al Gore. O diagnóstico era alarmante: se o ritmo de emissões de gases do efeito estufa se mantivesse, a temperatura poderia subir a ponto de causar catástrofes naturais. Porém, dados do próprio IPCC apontam para estabilidade na temperatura da atmosfera terrestre na última década, intensificando ainda mais a polêmica: o aquecimento global realmente existe?

 

Evidências favoráveis

O quinto relatório do IPCC será lançado em 2014, porém um resumo da primeira parte já foi divulgado em setembro de 2013. Segundo a instituição, a concentração de dióxido de carbono (CO 2) na atmosfera terrestre é a maior em pelo menos 800 mil anos, sendo 40% maior quando comparada à da era pré-industrial, devido à queima de combustíveis fósseis. “Conseguimos determinar que o carbono cujos níveis aumentaram na atmosfera terrestre é de origem fóssil”, afirma Paulo Nobre, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). “Portanto, podemos inferir que o aumento da temperatura está relacionado às atividades antrópicas, já que a queima de combustíveis fósseis é a única maneira de essa concentração ter aumentado”, explica. Os dados do IPCC também apontam para aumento na temperatura do planeta de cerca de 0,85°C entre 1880 e 2012.

Há uma explicação também para a estabilidade na média de temperatura atmosférica observada na última década. Para compreender o fenômeno, é preciso olhar para os oceanos. “Por possuírem capacidade térmica muito maior do que a da atmosfera, os oceanos absorvem 80% do calor proveniente dos gases do efeito estufa. Portanto, o que observamos na atmosfera é um efeito residual. O calor que estaria aquecendo o ar está aquecendo o fundo dos oceanos e eles estão se acidificando, e há uma grande chance de observarmos um efeito retardado do aumento da temperatura da atmosfera”, aponta Nobre.

 

Evidências contrárias

É indiscutível que, ao longo do último século, houve mais liberação de CO 2 devido à queima de combustíveis fósseis, e que houve aumento na média da temperatura. Porém, como verificar se esses dois fatos estão relacionados ou se o aumento deve-se simplesmente ao resultado da dinâmica natural do clima? As quantidades emitidas pela população são realmente significativas quando comparadas às já existentes naturalmente no planeta? Críticas à hipótese de que o aquecimento global resulta da ação humana alegam que a contribuição do homem é irrelevante perante aos ciclos naturais da Terra.

“De acordo com o quarto relatório do IPCC, os fluxos de carbono entre a atmosfera e a biosfera continental somam cerca de 120 trilhões de toneladas por ano, enquanto os fluxos da atmosfera para os oceanos somavam 90 trilhões. Tais valores podem conter uma margem de erro de até 20%, para mais ou para menos. Já os seres humanos contribuem com 4,1 trilhões de toneladas por ano, míseros 10% da margem de erro dos fluxos naturais”, afirma Daniela Onça, geógrafa e pesquisadora da Universidade do Estado de Santa Catarina. “As circulações atmosférica e oceânica transportam quantidades colossais de matéria e energia. A adição de dióxido de carbono à atmosfera pelo homem é irrisória frente aos fluxos naturais, que incluem processos como fotossíntese, respiração, decomposição, erupções vulcânicas, formação de esqueletos, dissolução de dióxido de carbono na água, entre outros”, completa.

Outro importante ponto de crítica em relação ao aquecimento global está relacionado aos modelos de previsões climáticas. Pesquisadores canadenses publicaram um estudo na revista Nature Climate Change, em setembro, no qual analisaram 117 desses modelos e suas previsões entre 1993 e 2012. Em média, os modelos previram um aumento 50% maior do que o real. Quando analisaram somente os dados de 1998 a 2012, as previsões chegaram a ser quatro vezes maiores quando comparadas à realidade. “As evidências favoráveis à hipótese do aquecimento global antropogênico são resultados de modelos climáticos de computador que simulam o clima terrestre e são programados para registrar elevações de temperatura quando, por exemplo, adicionam-se gases de efeito estufa à atmosfera. Se os dados inseridos neles são de elevações da concentração atmosférica de dióxido de carbono, eles denunciarão aquecimento, pois foi justamente para isso que foram programados”, diz Onça. “Já as evidências contrárias à hipótese do aquecimento global antropogênico estão no mundo real: temperaturas que não se elevam há 15 anos, sequências de invernos muito frios, padrões e eventos meteorológicos que nem de longe se assemelham a grandes tragédias vividas no passado, nível do mar e derretimentos de geleiras com a mesma ciclicidade de aumento e retração que sempre exibiram”, diz a geógrafa.

Mudanças climáticas, políticas e econômicas

Enquanto ainda há polêmica sobre a existência de mudanças climáticas e suas causas, mudanças políticas e econômicas têm sido adotadas para minimizar as emissões de gases de efeito estufa. As discussões nesse sentido foram iniciadas em 1992 com a Cúpula da Terra, conhecida como Rio-92. Nesse ano, foi estabelecida a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), embasada pelas avaliações do IPCC e que tinha como objetivo procurar soluções para problemas relacionados ao aquecimento global. Era necessário um acordo para limitar as emissões dos gases de efeito estufa, o que poderia ter impactos econômicos, pois diminuiria o ritmo de crescimento das economias.

“A principal medida adotada pelo UNFCCC foi o Protocolo de Kyoto, elaborado em dezembro de 1997 e que entrou em vigor em fevereiro de 2005, demora justificada pela não ratificação por parte dos Estados Unidos, na época o maior emissor de gases de efeito estufa”, aponta Eliezer Diniz, economista da Universidade de São Paulo. “O objetivo do Protocolo de Kyoto foi controlar as emissões de seis tipos de gases de efeito estufa, mas apresentou um problema importante em sua concepção: os países em desenvolvimento não tinham metas de redução de emissões dos gases, o que caracterizava um comportamento de carona, usufruindo eventuais ganhos sem nenhum tipo de custo. Suas metas vigoraram entre 2008 e 2012, e atualmente há negociação entre países para que um novo protocolo seja consenso e entre em vigor o mais rápido possível”, explica. Além do Protocolo de Kyoto, outras ações foram tomadas visando ao combate das mudanças climáticas. Entre elas, destaca-se o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo, inspirado em uma proposta brasileira. “Essa medida fazia com que países desenvolvidos buscassem o cumprimento de suas metas pelo investimento em projetos de mitigação das emissões de gases de efeito estufa nos países em desenvolvimento”, diz o economista.

Se por um lado as economias são prejudicadas pelas medidas políticas e econômicas relacionadas às mudanças climáticas, por outro lado o aquecimento global abre brechas para que oportunistas, desde governos e empresários até cientistas, possam se aproveitar do tema. As consequências, nesses casos, podem recair sobre a população, que paga mais impostos e se depara com produtos mais caros apenas pelo fato de serem produzidos de maneira sustentável ou ecologicamente correta. “A hipótese do aquecimento global antropogênico consiste em uma ideologia de legitimação de um sistema capitalista em graves e sucessivas crises”, diz Onça. “Essa ideologia serve aos interesses de governos – por resultar em maior arrecadação de impostos, como as taxações das emissões de dióxido de carbono, de cientistas – mais financiamentos públicos e privados para pesquisa, de organizações não-governamentais ambientalistas – arrebanhando adeptos e contabilizando novos contribuintes, e de empresários – que conseguirão vender produtos “verdes”, invariavelmente mais caros do que os produtos convencionais. Se perguntarem a uma pessoa se ela aceita a criação de um novo imposto para enriquecer o governo, são poucas as que, em sã consciência, se manifestariam a favor. Mas se for para “salvar o planeta”, é provável que muitos aceitem. Afinal de contas, um planeta doente precisa de ajuda; do contrário, os prejudicados seremos nós mesmos”.

No futuro

Com tantas controvérsias a respeito das mudanças climáticas, as previsões variam de aquecimentos a esfriamentos nas médias da temperatura global. Para os cientistas que acreditam no aquecimento global e na influência da ação humana, serão necessárias mudanças para minimizar emissões de gases de efeito estufa e controlar o aumento de temperatura. “Todos os acordos internacionais objetivam limitar a emissão de gases de efeito estufa para não ultrapassarmos um aumento de 2°C na temperatura global, que já representaria um grande impacto na vida de animais e no ciclo hidrológico”, diz Nobre. “Se o ritmo atual se mantiver, há a possibilidade de a temperatura global ultrapassar limites a partir dos quais processos biológicos são interrompidos, podendo ocorrer, por exemplo, a extinção de espécies”.

Uma das maneiras de reduzir as emissões de gases do efeito estufa é adotar formas de energia sustentáveis, diminuindo a queima de combustíveis fósseis e, consequentemente, a concentração de CO 2 na atmosfera. Embora atualmente em segundo plano, elas são uma aposta para o futuro, bem como o desenvolvimento e utilização de produtos menos prejudiciais para o meio ambiente. “As fontes de energia sustentáveis devem se tornar cada vez mais viáveis ao longo do tempo”, afirma Diniz, que acredita também que uma tendência inexorável é a popularização de tecnologias menos poluentes, como carros flex, híbridos, elétricos e a geração de energia sem queima de combustíveis fósseis, por meio de bagaço de cana, do vento e das ondas do mar.

Já para os pesquisadores que não creem na hipótese do aquecimento global, a preocupação é outra. Além das temperaturas não aumentarem, a previsão para o futuro inclui possíveis resfriamentos, o que poderia ser até mais perigoso. “O clima deve se manter como está ou exibir algum resfriamento, como pudemos notar pelos últimos invernos na Europa, Estados Unidos e até mesmo no Brasil”, diz Onça. “As consequências podem ser significativas, especialmente nos países temperados e polares. Temperaturas mais baixas são mais mortíferas do que temperaturas mais altas, tanto para a saúde humana quanto para a produção agrícola e a manutenção da maioria dos ecossistemas. Os grandes bolsões de biodiversidade do mundo estão em climas quentes e seriam beneficiados por um aquecimento; diante de um resfriamento, devem se retrair”.

Ainda segundo a pesquisadora, mudanças climáticas são a regra da natureza, não a exceção, e o ser humano não teria poder para controlá-las, seja para o bem ou para o mal. “O clima sempre mudou e sempre mudará, não importa o que façamos. Muitos dos eventos anunciados hoje como tragédias são completamente normais. A natureza está fazendo o que sempre fez: mudar. O homem precisa se colocar em seu devido lugar: ele é pequeno e a natureza é grande. É ele quem tem que se adaptar às incessantes mudanças climáticas, e não a natureza que tem que se adequar às nossas conveniências”, conclui.