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Carta à ComCiência, por Roque Laraia

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

São Paulo, julho/setembro/novembro de 2001, junho 2002, fevereiro 2003.

Em busca de parâmetros para maior consolidação da Comunidade Científica

Carta aberta à CAPES -e à Comunidade Acadêmica

Fui bolsista de doutorado no exterior, França, da CAPES entre 1992 e 1995 e pretendo, neste texto, discutir assuntos subjacentes a situações encontradas neste período assim como relacionados à condição de brasileiro num país dito de primeiro mundo que parecem ter reflexos nas estrutura e organização não só de nosso meio acadêmico mas também na Sociedade em geral e provavelmente nas Relações Externas do país.

É de se esperar que a "imagem" (sem dissecar o conteúdo desta palavra) de um país "molde" as relações entre pessoas de nacionalidades diferentes (pelo menos em geral e em primeira análise). Com o tempo pude perceber que o contrário é fundamental: esta "imagem" do país (assim como do estrangeiro) é formada também a partir das relações entre as pessoas não envolvidas necessariamente em níveis explicitamente diplomáticos. Pretendo descrever melhor as dimensões que uma relação pode assumir (como desenvolvimento, dependência, autoridade).

Estudei num Instituto, de muito boa reputação científica, onde havia um "clima amigável" para com estrangeiros. A presença de aspas não se deve somente a uma espécie de ironia mas ao que se entende por clima amigável. Independentemente de uma certa estrutura hierárquica inerente aos diferentes meios nos quais podemos conviver parece-me que pode haver um "mecanismo de relacionamento" entre os indivíduos de diferentes proveniências que pode estar relacionado com Relações Internacionais, em nível institucional, pelo menos até certo ponto.

Em algumas situações deparei-me com observações fundamentadas na idéia de o brasileiro é considerado "inferior" (pode não se tratar de ter, muitas vezes, menos recursos técnicos e financeiros? ), irresponsável por estar viajando ao invés de resolver os problemas sociais do país (especialmente sendo os recursos para os estudos/trabalhos forem de origem governamental e, ainda, como se fazer pós graduação fosse um luxo), festeiro sem motivos, além de outros estereótipos ainda mais exacerbados (só quer saber de futebol e carnaval, etc). Apenas para deixar claro, é sim função do Estado promover a pesquisa científica, básica ou não e encontrar os melhores mecanismos de apoiá-la, incentivá-la, sendo aliás preceito Constitucional. Lembremos do clássico famoso exemplo da arrogância de Jean Paul Sartre ao dizer em Araraquara, SP, basicamente que "antes de algum brasileiro se meter a discutir filosofia com ele deveria é resolver os problemas sociais do país".

Ser observado por um destes modos exemplificados e ser tratado como se o fora efetivamente pode ter vários reflexos negativos. Um deles, talvez freqüente, é de se "deixar levar" tomado por um certo fascínio mediante a carga cultural que, por exemplo, um país chamado desenvolvido pode mostrar com suas raízes de quem faz história. Fazer no sentido de realmente decidir o que é história, humanidade, etc, isto é, decidir sobre a visão de mundo e conseqüente ordem (também nas diferentes relações) a ser adotada pelos que querem proximidade (um certo "pleonasmo" ou exagero neste texto deve ser visto mesmo como um tipo de figura de linguagem, para enfatizar idéias geralmente não muito consideradas). Não pretendo desmerecer os grandes méritos de outros países, mas contrapor outros enfoques. Assim pode ser difícil escapar a uma "pressão" (num certo sentido inerente a qualquer tipo de relacionamento) a que somos expostos sem ceder, talvez se revoltar, ter seus próprios parâmetros/ instrumentos de análise alterados equivocadamente ao invés de coerentemente melhorados. Afinal para se encarar qualquer problema SEMPRE partimos de premissas e suposições, racionalmente elaboradas ou não. Como ilustração de algo que pode decorrer desta crítica podemos concluir certamente, que os Estados Unidos não chegaram ao nível de desenvolvimento atual (mesmo com seus defeitos) adotando algum modelo europeu. (Não estou defendendo ou atacando um ou outro sistema em particular, são diferentes e foram desenvolvidos de modos razoavelmente independentes). Acredito ainda que o país só se tornará efetivamente "desenvolvido" se encontrar seus próprios modelos, caminhos de desenvolvimento. Enfim, ser observado a partir de certos modelos que outras culturas ou sociedades estabelecem sem ter consciência da força da comunicação entre pessoas com "orgulhos nacionais" diferentes pode ter como conseqüência a corroboração de uma imagem "distorcida", estabelecendo um quadro de dependência cultural, econômica entre comunidades/nações. Caberia agora, por exemplo, questionar a idéia de que o brasileiro (se é que se pode falar de tanta diversidade de modo tão limitado e no singular) tem mesmo uma "aspiração a herói sem caráter", como insinuou Mário de Andrade -sem entrar no mérito do porquê ele levantou tal figura ou idéia -, com o devido respeito a este importante intelectual, ou essa "falta de caráter" teria sido uma imagem generalizada proveniente também de uma má compreensão de pessoas que falam línguas diferentes, têm costumes diferentes? -não quero dizer que não existam os "mau caráter", afinal, onde é que não existem?. Os "dicionários" para significados de expressões verbais ou não, num sentido generalizado, que usamos na comunicação, no dia a dia, são peças-chave na comunicação. O "Brasil não é um país sério" (como já defendido por líderes de outras nações) ou é essa a imagem que esperam/querem que aceitemos e que deixemos acontecer? Isto não é uma defesa de grandes problemas internos do país como criminalidade, impunidade, etc. Mas a solução para eles problemas passam por um autoentendimento. Este pode até levar em conta aspectos levantados também por visões externas (de outros países).

A(s) situação(ções) discutidas acima gera(m) relações desiguais no que se refere à questão de "autoridade", num sentido genérico. Quem garante que essas relações não "limitam o espírito criativo" fazendo com que pessoas sintam a necessidade de apoio externo para que se auto afirmem enquanto profissionais (e talvez até enquanto Nação?)? Isto é um alerta. A atitude e a postura com relação ao conhecimento ( e por que não com relação à individualidade alheia?) são decisivas nos relacionamentos profissionais, por exemplo, e sobretudo emblemáticas no mundo de hoje. Muito pode ser discutido levando-se em conta esses aspectos como, por exemplo, os rumos da Ciência e Tecnologia Nacionais entre diversos outros assuntos.

Saudações,

Fábio L. Braghin
Pós doutorando
Instituto de Física da USP,
Ala II, sala 346. tel. (11) 3091-6726, fax. (11) 3091-6715
São Paulo, SP; C.P.66.318 ; CEP: 05315-970
E-mail: braghin@if.usp.br

 

 

 

Atualizado em 20/02/03

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