Editorial:

As cidades e os muros
Carlos Vogt

Reportagens:
Prós e contras da revitalização urbana
Enfim o Estatuto da Cidade
Programa Habitat procura desenvolver a qualidade de vida nas cidades
Ocupações revelam déficit habitacional
Fórum Social propõe uma outra cidade possível
Novas metrópoles, velhos problemas
Conflitos entre centro e periferia
Qualidade das águas é cada vez pior
Lixo é problema ambiental com agravantes sociais
Transporte em São Paulo: conflitos e soluções
Poluição sonora piora ambiente urbano
Preservação ambiental: destino alternativo para o litoral sul de São Paulo?
Cidade tenta unir tecnologia com inclusão social
Educação para uma nova cidade
Brasília contrastes de uma cidade planejada
Vilas significaram distância entre patrões e operários
Artigos:
Dimensões da tragédia urbana
Ermínia Maricato

Aprovação do Estatuto da Cidade
Geraldo Moura

O passado nas cidades do futuro
Cristina Meneguello
"As cidades nos países subdesenvolvidos" em um mundo globalizado
Tatiana Schor
Cidades e seus fragmentos
Rogério Lima
Cidade, língua, escolae a violência dos sentidos
Cláudia Pfeiffer
Poema:
Manual do novo peregrino
Carlos Vogt
 
Bibliografia
Créditos

 

 

Sistemas de transporte em São Paulo: conflitos x soluções

Equacionar o problema do transporte nas grandes metrópoles mundiais sempre foi um desafio para governantes e técnicos do setor. A crescente expansão das atividades industriais, a ocupação desordenada do espaço territorial e o aumento da população que busca empregos e novas perspectivas, aliado à falta de um planejamento ordenado de crescimento, provocam desequilíbrios na rotina diária de milhares de pessoas. O Brasil experimenta atualmente os resultados da opção que fez, nos anos 50, pelo transporte rodoviário em detrimento do transporte ferroviário. A instalação de um parque industrial automobilístico, principalmente na região de São Paulo, alavancou esse processo e marcou um momento de desenvolvimento e modernidade no país. Considerado o estado mais rico e mais produtivo do Brasil, São Paulo ilustra bem o quadro de conflitos no setor de transporte. Porém, são evidentes os esforços realizados no sentido de amenizar o cenário caótico em que se encontra.

Regiões metropolitanas

São Paulo

O estado de São Paulo conta com três grandes regiões metropolitanas: a Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), Região Metropolitana da Baixada Santista (RMBS) e a Região Metropolitana de Campinas (RMC). Juntas, elas concentram 21,5 milhões de habitantes e 23% do PIB nacional.

A RMSP, que é a mais antiga de todas, foi criada em 1973. É constituída por 39 municípios, totalizando 17 milhões de habitantes. Segundo dados da Secretaria dos Transportes Metropolitanos do Estado de São Paulo, houve uma retomada do crescimento do sistema metro-ferroviário na Grande São Paulo. A Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) registrou, nos dois últimos anos, um aumento de 15% ao ano no volume de passageiros. O metrô, também nos dois últimos anos, teve aumento de 4% e 6%, respectivamente, no volume total de pessoas transportadas. Esses dois sistemas transportam diariamente 3,6 milhões de passageiros, o que significa mais de 40% do volume de transporte público da região metropolitana. Paralelamente, foi verificada uma queda do número de passageiros dos ônibus metropolitanos, dos inter-municipais e municipais. Segundo Jurandir Fernandes, secretário dos Transportes Metropolitanos de São Paulo, esses dados são muito animadores, pois significa que o sistema metro-ferroviário tem qualidade, conforto e preços acessíveis.

Campinas

Com seis meses de vida, a Região Metropolitana de Campinas (RMC) já discute com o governo de São Paulo a criação de um corredor de ônibus entre Campinas e Sumaré, Hortolândia e Monte Mor. As conversas com prefeitos e empresários das cidades da RMC visam a elaborar um plano diretor para obter financiamento do Banco Mundial. Jurandir Fernandes considera esse processo um grande avanço. "Antes não havia nenhum agente catalisador, ninguém tratava dessa matéria. Um prefeito de qualquer uma dessas cidades não tinha autoridade para tratar disso globalmente, nem era atendido pelo Banco Mundial", afirma o secretário.

Investimentos no transporte público

O Estado de São Paulo é, hoje, qualificado internacionalmente para a obtenção de empréstimos de que necessita para melhorar seu sistema de transportes. Porém, o Estado enfrenta dificuldades para obter empréstimos já que é o governo federal quem faz o controle da capacidade de endividamento de cada unidade da federação. Conforme Fernandes, "esse é um problema, pois a gestão Covas-Alckmin encontrou o Estado de São Paulo com dívidas altíssimas e foi obrigado a renegociar dívidas da ordem de R$ 35 bilhões, que ainda estão sendo pagas. Isso dificulta a obtenção de recursos".

Apenas na obra do Rodoanel, salienta o secretário, o Estado contou com investimentos a fundo perdido do governo federal, pois a obra é considerada de impacto nacional. Em janeiro desse ano, houve também a aprovação de um empréstimo do Banco Mundial, no valor de U$ 209 milhões, para a construção da Linha 4 do Metrô de São Paulo. Essa linha deverá atender mais de um milhão de pessoas por dia e promoverá a integração modal e de tarifas entre ônibus, metrô e trens, minimizando o custo geral do transporte e beneficiando os usuários de baixa renda do sistema.

Crescimento da frota de veículos

Apesar de todas as medidas adotadas para a melhoria do transporte público, é preocupante a situação do transporte individual. Ao longo dos anos, devido à péssima situação do transporte coletivo urbano e às facilidades para aquisição de veículo próprio, o número de veículos por habitante cresceu de maneira assustadora.

Trabalho publicado por Alfesio Braga, Luiz Alberto Amador Pereira e Paulo Hilário Nascimento Saldiva, da Faculdade de Medicina da USP, intitulado Poluição Atmosférica e seus Efeitos na Saúde Humana constatou que as duas principais fontes de emissão de poluentes da RMSP são as indústrias e a frota de veículos automotores que circulam pela cidade. Essa frota é estimada em mais de 4,3 milhões de veículos automotores. A proporção do número de carros por habitante cresceu de 1/40 na década de quarenta, para quase 1/2 nos anos noventa. Ocorre que, nesse período, a malha viária não acompanhou ess crescimento. A desproporção entre número de veículos circulantes e a malha viária destinada a escoar uma frota veicular crescente, fez com que a cidade de São Paulo enfrente aumento progressivo de congestionamentos (veja a íntegra do documento em pdf).

Ainda segundo os autores, o cenário acima pode levar a dois caminhos: restrição à circulação de veículos, necessariamente acompanhada de um aumento da qualidade e acesso ao transporte público, ou realização de grandes obras viárias. Eles fazem uma comparação interessante entre uma grande cidade poluída e um organismo doente. Frente ao entupimento difuso das "artérias" (as ruas de uma grande cidade), a opção é sempre uma ponte de safena. No entanto, afirmam os autores, os cardiologistas somente prescrevem uma ponte coronariana quando certificam-se de que o território vascular situado após a ponte é normal. Este cuidado quase nunca é tomado pelos "planejadores" urbanos, que somente deslocam o local do estreitamento para mais adiante.

Na visão do secretário Jurandir Fernandes, o comportamento do trânsito é muito parecido com o dos vasos comunicantes. "Existe até um modelo matemático desenvolvido nos anos 70 e que está em vigor até hoje. À medida que se chega a um ponto insuportável, as pessoas buscam alternativas. Muitos deixam o carro e passam a utilizar o metrô. Com isso, acaba o congestionamento, outros percebem e voltam a utilizar o carro. Ou seja, existe um equilíbrio", afirma. "Isto desfaz a ilusão de que quanto mais se constrói metrô, mais se diminui o número de carros nas ruas. Porém, o conforto existirá. Por exemplo, Paris tem 550 quilômetros de metrô e 3 milhões de habitantes. São, aproximadamente, 450 estações de metrô e nem por isso deixa de existir congestionamento. As pessoas vão se alinhando conforme suas necessidades e conseqüentemente o sistema vai ficando mais racional. À medida que o tempo passa as pessoas vão aprendendo a utilizar o sistema de transportes e o espaço público de uma forma racional, evitando custos de congestionamento, poluição e acidentes", conclui.

(JB)

Para saber mais
Francisco Salvador Veríssimo. Vida Urbana - A Evolução do Cotidiano da Cidade. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001.

 

 

Atualizado em 10/03/2002

http://www.comciencia.br
contato@comciencia.br

© 2002
SBPC/Labjor
Brasil

Contador de acessos: